Gás não convencional. Uma aposta energética. Entrevista especial com Colombo Celso Gaeta Tassinari

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13 Junho 2013

“O Brasil deve estudar o gás não convencional, porque se trata de uma fonte energética que não deve ser desperdiçada”, diz o geólogo.

Confira a entrevista.

Foto: manutencaoesuprimentos.com.br

Uma fonte energética explorada nos EUA e no Canadá, o gás não convencional, conhecido popularmente como gás de xisto, é uma das apostas energéticas do Brasil. No entanto, a extração do gás é alvo de polêmicas por conta de contaminações ambientais que podem ocorrer por causa do vazamento do gás, ou no processo de fraturamento das rochas. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o geólogo Colombo Celso Gaeta Tassinari explica como acontece o processo de extração do gás e quais os riscos ambientais. “Se o projeto for bem feito e tiverem os estudos necessários, a chance de contaminação ambiental é baixa, porque o fraturamento é feito em uma profundidade muito grande. É difícil os produtos químicos se espalharem a distâncias grandes”, assegura.

Segundo ele, as rochas que contêm o gás não convencional estão presentes em uma extensa área brasileira, desde a região Sul até o Nordeste. “Não sabemos exatamente o teor de gás de cada uma dessas regiões, porque ele pode variar. A princípio, trata-se de uma reserva importante”. E acrescenta: “Se você pensar que a humanidade ainda irá precisar de combustíveis fósseis por mais 40 anos, pelo menos, para manter a atual demanda energética das populações, e considerando que o gás é o menos poluente de todos os combustíveis fósseis que existe, então não podemos desperdiçar essa reserva”.

Colombo Celso Gaeta Tassinari é graduado em Geologia, mestre em Geociências (Mineralogia e Petrologia) e doutor em Geoquímica e Geotectônica pela Universidade de São Paulo – USP. Foi diretor do Instituto de Geociências da USP e é professor titular da Universidade de São Paulo e vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Também é vice-diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo – USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as polêmicas envolvendo a extração de gás não convencional (xisto)? Por que em países como os EUA a extração é permitida, e não na França?

Foto: lindomarpadilha.blogspot.com.br

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Antes de responder à questão, gostaria de esclarecer que o termo gás de xisto está errado, apesar de ser usado largamente pela imprensa. Xisto é uma rocha que não tem nem gás nem óleo. O nome correto é gás não convencional.

A polêmica envolvendo a extração do gás não convencional é ambiental, porque o processo de extração do gás da rocha deve acontecer quando a rocha estiver a uma profundidade mínima de 1500 metros. Isso porque, se ela estiver mais próxima da superfície, uma parte significativa do gás pode escapar para a atmosfera e a extração não será tão rentável. Então, o processo para retirar o gás dela utiliza um sistema de fraturamento hidráulico, no qual se perfura um poço vertical que, quando chega à camada onde está a rocha, vira horizontal. Dentro desse poço é injetada, com forte pressão, uma quantidade significativa de água, mais ou menos 90%, 9% de areia e 1% de reagentes químicos. A função desses reagentes químicos é facilitar a saída do gás das rochas e evitar a corrosão dos tubos utilizados no poço. Quando se faz esse fraturamento, a rocha sofre fraturas. A areia serve para entrar nessas fraturas e impedir que elas se fechem. O gás que está originalmente preso nessa rocha, entre os grãos que a compõem, vai sair por essas fraturas. Por isso precisa haver o fraturamento para liberar o gás.

Existe uma preocupação ambiental de saber se esses produtos químicos que estão adicionados à água com areia contaminam ou não o meio ambiente. Esses poços têm um revestimento muito forte, com aço e concreto, para impedir que a água com produtos químicos entre em contato com os aquíferos. Esse é um cuidado que a legislação americana e a brasileira exigem. Mas também existe outra possibilidade de contaminação durante o fraturamento da rocha. A preocupação é que este fraturamento ultrapasse os limites da camada da rocha e atinja outras camadas.

Portanto, esse processo é um projeto de engenharia que requer que as rochas a serem fraturadas sejam muito bem estudadas do ponto de vista geológico e geomecânico, para que se consiga dimensionar a pressão mais adequada para fazer o fraturamento e romper as rochas. A polêmica reside na contaminação desse fluído, porque essa água utilizada é reciclada e retorna para a superfície. Ela é colocada em uma barragem pequena, onde a água é tratada. A outra polêmica se refere ao vazamento do gás, ou seja, se depois do fraturamento hidráulico esse gás poderia atingir a superfície e vazar para a atmosfera.

IHU On-Line – Como vê a possiblidade de o Brasil explorar essa energia?

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Se o projeto for bem feito e tiverem os estudos necessários, a chance de contaminação ambiental é baixa, porque o fraturamento é feito em uma profundidade muito grande. É difícil os produtos químicos se espalharem a distâncias grandes. Se tiver todo o estudo prévio das rochas, se os poços tiverem os revestimentos adequados e se a barragem da superfície tiver sua base impermeabilizada, como requerem todas as barragens de empresas de mineração, a chance de contaminação é bem pequena. Algumas das áreas que a ANP colocará em leilão já têm contaminação antes de ser operado o gás não convencional. Então, se não for feito um estudo ambiental prévio dessas áreas para saber o passivo ambiental que ela já tem e se se começar a exploração do gás, dirão que a poluição foi produzida por causa da extração. Para evitar esses equívocos, estamos sugerindo que, antes de se iniciar o trabalho, seja feito um levantamento do passivo ambiental e que, durante a exploração e produção, seja feito um monitoramento em tempo real dos processos que podem estar ocorrendo.

IHU On-Line – Esse gás substituirá o gás natural?

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Substitui porque a composição é muito próxima. Esse gás, entrando em produção, certamente vai baixar o custo atual do gás usado no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, eles baixaram o custo do gás. Mas no Brasil a situação é outra, os custos são outros. Não se sabe qual será o custo do gás, mas deve baixar razoavelmente.

IHU On-Line – Segundo a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, as reservas de gás em terra podem ultrapassar as do pré-sal. O que isso significa tanto do ponto de vista de produção de energia quanto do modelo que se quer seguir? Vale a pena investir nessa extração?

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Ainda não se sabe se ultrapassa as reservas do pré-sal. O que sabemos é que essas rochas que contêm o gás ocorrem numa área muito grande no Brasil: na região Sul e Sudeste, num contexto geológico que chamamos de Bacia do Paraná, em Minas Gerais e na Bahia, na Bacia do São Francisco, na Amazônia, no Nordeste, no Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte. Não sabemos exatamente o teor de gás de cada uma dessas regiões, porque ele pode variar. A princípio, trata-se de uma reserva importante. O Brasil deve estudar isso, porque se trata de uma fonte energética que não deve ser desperdiçada. Mesmo porque, se você pensar que a humanidade ainda vai precisar de combustíveis fósseis por mais 40 anos, pelo menos, para manter a atual demanda energética das populações, e considerando que o gás é o menos poluente de todos os combustíveis fósseis que existe, então não podemos desperdiçar essa reserva. No entanto, temos que tomar muito cuidado com essas questões ambientais. Precisamos ter todos os cuidados possíveis para que esse recurso não comece a ser explorado de qualquer jeito e venha produzir algum tipo de problema que pode, simplesmente, demonizar uma fonte energética importante.

IHU On-Line – Em que países encontram-se as principais reservas de xisto? Qual é o valor econômico desta energia?

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Essa energia existe em vários países no mundo. É bem explorada nos Estados Unidos e no Canadá. Agora, quem tem reservas significativas é o Brasil, a Argentina (tem quase equivalente ao Brasil), a Rússia, a China, normalmente os países de grandes territórios. As áreas de bacias sedimentares podem conter esse tipo de rocha.

Nos Estados Unidos, que têm uma rede de gasodutos muito melhor do que a nossa, que possui uma legislação mais simples, os donos dos poços são proprietários da terra. No Brasil isso não acontece, porque a legislação é um pouco mais pesada. O chamado “custo Brasil” encarece o preço dos produtos, mas supõe-se que, pelo menos, o preço do gás deve cair em torno de 50%.

A própria ANP está estimando que a produção deste gás só irá ocorrer daqui a dez anos. Então, é um investimento de longo prazo. Apesar de a ANP fazer um leilão esse ano, a extração e a produção do gás ainda requerem estudos, depois que as empresas tiverem as áreas na mão. Portanto, não dá ainda para quantificar em reais ou dólar quanto vai ser a economia, mas presume-se que deve ser uma fonte seguramente mais barata de gás em relação ao que pagamos hoje.

IHU On-Line – A ANP marcou para outubro deste ano o primeiro leilão de blocos de gás convencional. Qual a expectativa para este leilão? Que empresas devem participar?

Colombo Celso Gaeta Tassinari – Ainda não sabemos exatamente como e quais regras serão adotadas, mas já se percebe uma movimentação de várias empresas relacionadas tanto ao setor petrolífero quanto ao de construção civil interessadas em entrar nesse contexto. Na própria Petrobras tem um grupo voltado para este tipo de estudo. Então, penso que podemos ter boas perspectivas.

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