Pesquisa contra o uso de cobaias. Do “sequestro” de ratos a um prêmio mundial

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24 Novembro 2014

Doutorando em biotecnologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Róber Freitas Bachinski se tornou, na semana passada, o primeiro brasileiro a receber o Lush Prize, láurea internacional que distribui anualmente cerca de R$ 1 milhão a projetos e pesquisas contra o uso de bichos como cobaias. Hoje com 28 anos, o gaúcho ficou conhecido no Estado em junho de 2007, ao ganhar na Justiça o direito de frequentar aulas do curso de Ciência Biológicas da UFRGS sem sacrificar ou dissecar animais.

A entrevista é de Bruna Vargas, publicada pelo jornal Zero Hora, 21-11-2014.

Ele foi o único não europeu reconhecido na categoria Jovem Pesquisador. Como prêmio, além de uma lebre em cerâmica criada pelo escultor Nichola Theakston, recebeu cerca de R$ 30 mil, que serão investidos em um projeto focado no uso de métodos alternativos de testes nas universidades.

Em 2006, ao saber que os ratos de laboratório da UFRGS eram mortos após as pesquisas, Bachinski não pensou duas vezes: com o consentimento de uma técnica de laboratório e a ajuda de uma amiga, colocou 14 deles em duas caixas de sapato e tomou um ônibus para bem longe da universidade. Como se não bastasse, reivindicou judicialmente o direito de não frequentar as aulas de Bioquímica II e Fisiologia Animal B, que incluíam testes com animais. Após idas e vindas na Justiça, formou-se, em 2009, sem encostar em bichos nessas disciplinas. Deixou a instituição gaúcha assim que pegou o diploma: foi cursar mestrado na UFF.

Natural de Santa Maria, mas criado na pequena São Vicente do Sul – município da região central do Estado com pouco mais de 8 mil habitantes –, ele vive sua filosofia há 12 anos: não consome carne, ovos, leite ou qualquer alimento derivado de animais, nem produtos que tenham exigido algum sacrifício animal.

– Porto Alegre teve uma boa influência na minha vida. Foi onde eu comecei a ver que havia mais pessoas parecidas comigo. Lembro da primeira vez em que fui à feira orgânica da Avenida José Bonifácio e encontrei a banca da Sociedade Vegetariana Brasileira. Foi um choque ver que existia gente igual a mim, foi muito inspirador – recorda.

Recém-chegado de Londres, na Grã-Bretanha, onde ocorreu a premiação, Bachinski bateu um papo via Skype com ZH. Leia, ao lado, trechos da entrevista.

Eis entrevista.

É possível acabar com o uso de animais em testes?

Para o ensino, sim. Só se utiliza quando o professor não sabe como substituir. Há várias possibilidades. Para a bioquímica, pode-se usar enzimas. Existem métodos alternativos que trabalham com o cultivo celular para aulas práticas. Fora das universidades, ainda existe um histórico de problemas éticos e não temos tecnologia para tudo. Mas, daqui a 20 anos, vai haver uma revolução na ciência, os Estados Unidos não vão mais usar animais. O Brasil tem de começar a pensar nisso agora.

Por que ainda há resistência a esses métodos?

Hoje, a gente já tem, para algumas coisas, condições de garantir a segurança dos humanos sem testar em animais. Com testes de células, eu já consigo mostrar se a substância é tóxica ou não, por exemplo. Além disso, os animais sentem dor, tem necessidade de liberdade e de interação com o meio social. Eles não são seres éticos, mas nós somos. Os testes com animais não foram uma tentativa errada, à época que começaram. Mas hoje, precisamos avançar.

Como isso pode ser feito?

Existem os chamados 3Rs: reduzir, que é limitar o uso de animais em testes, refinar, que significa melhorar as condições em que esses teste são realizados, e substituir (do inglês, replacement), mas esse último ainda não tem muitos investimentos. É a substituição que vai dar o avanço no plano moral e tecnológico.

Por que você fugiu com os ratos, em 2006?

A ciência tem de ter limite. No Brasil, a maior parte das universidades é muito boa cientificamente, mas falta a parte humana. A gente tem de promover a boa ciência. A ciência não é um deus, a ciência não é a verdade e a ciência não está acima da ética humana.

Por que processar a UFRGS?

Meus colegas não queriam fazer isso (os testes com animais), mas dois semestres depois, estavam matando ratos. Precisamos trabalhar isso: evitar a dessensibilização. Um veterinário sai do curso achando que o animal é um objeto. Hoje, não tenho pena dos animais. Trabalho com isso por uma questão de ética.

O que mudou desde 2006?

Hoje sou muito mais pacífico e acredito muito mais na colaboração e no trabalho em conjunto, que marcaram a minha formação.

Como é o projeto que lhe valeu o prêmio?

É um projeto chamado 1rnet, que tem como objetivo mapear os cursos universitários que usam animais, os que usam métodos alternativos e sugerir formas de adaptar à realidade brasileira. Há professores, em várias universidades, que já substituíram suas aulas. Queremos replicar isso.

No que está trabalhando?

Na criação de modelos tridimensionais para análise de toxicidade. Buscamos utilizar células-tronco induzidas (a partir de tecido conjuntivo) para construir miniórgãos, que reproduzam partes do corpo humano onde se precisa realizar algum teste. É como trabalhar com o corpo humano em uma plataforma 3D.

Veja também:

  • Quando o mito se torna verdade e a ciência, religião. Artigo de Róber Freitas Bachinski. Cadernos IHU ideias, no. 117

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