O Papa recebeu Evo Morales, camponeses e carrinheiros

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Por: André | 30 Outubro 2014

Morales, que participou do encontro dos movimentos populares com o Papa Francisco, disse que é preciso ver “como acabar com o capitalismo”, mas também como “refundar a democracia” e recuperar “a soberania sobre os recursos naturais”.

A reportagem é de Elena Llorente e publicada no jornal argentino Página/12, 29-10-2014. A tradução é de André Langer.

O Papa Francisco e o presidente da Bolívia, Evo Morales, concordaram, na terça-feira, em criticar, sem muitos rodeios, as injustiças do sistema econômico vigente – “embora alguns possam me criticar de ser comunista”, advertiu o Papa –, ao participar do Encontro Mundial dos Movimentos Populares realizado no Vaticano e promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz. Diante de quase cem organizações de camponeses, carrinheiros, entre outros, de todo o mundo, o máximo expoente da Igreja e o único presidente indígena da América Latina coincidiram também na defesa da ecologia e em um rotundo “Não à guerra”. É a primeira vez que se realiza no Vaticano uma reunião desta natureza, cujo objetivo é debater as causas da crescente desigualdade social e o aumento da exclusão em todo o mundo e refletir sobre as experiências organizativas dos movimentos populares na resolução desses problemas.

Dirigindo-se “a todos vocês que sofrem na própria carne a desigualdade e a exclusão”, Francisco voltou ao tema da “solidariedade”, tema sobre o qual insiste com frequência em suas homilias. Esta palavra significa “pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, da terra e da moradia, e contra a negação dos direitos sociais e trabalhistas”. E referindo-se à reunião dos Movimentos Populares, que começou no dia 27 e terminou na quarta-feira, dia 29, no Vaticano, indicou que “este nosso encontro responde a um desejo muito concreto. Um desejo que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais distante da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas se falo disto, para alguns resulta que o Papa é comunista. Não se entende que o amor aos pobres é central no Evangelho”, indicou.

O Papa Bergoglio também se referiu ao que ele chama de “cultura do descarte”, que acontece “quando no centro do sistema econômico está o deus dinheiro e não o homem”. O descarte dos jovens que não encontram trabalho, das crianças mortas antes de nascer ou que morrem por não terem uma alimentação adequada e dos anciãos porque já não produzem. Francisco também se referiu à paz e à ecologia, assinalando que, como é lógico, “não pode haver terra, nem teto, nem trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta”, e anunciou que está preparando uma encíclica sobre a ecologia. “Alguns de vocês expressaram: este sistema já não se sustenta. Temos que mudá-lo, temos que trazer novamente a dignidade humana ao centro e que sobre esse pilar se construam as estruturas sociais alternativas que necessitamos. É preciso fazê-lo com coragem e inteligência, mas sem fanatismo; com paixão, mas sem violência”, concluiu o pontífice, indicando como “programa de ação” algumas leituras “revolucionárias”, seguindo disse, dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas.

Evo Morales, que participou como ex-dirigente cocaleiro e não como presidente da Bolívia, pela manhã, saudou brevemente o Papa quando este fez seu discurso no antigo Salão do Sínodo, dentro do Vaticano, onde aconteceu a reunião. E pela tarde, interveio como um dirigente camponês a mais. “O grande pecado da humanidade é o capitalismo – disse. Para o capitalismo não há nenhum objeto sagrado. Tudo se vende e se compra como uma mercadoria, inclusive a vida”. Segundo Morales, é preciso ver “como acabar com o capitalismo”, mas também como “refundar a democracia e a política”, e recuperar “a soberania sobre os recursos naturais”. Seu discurso também condenou a guerra, porque, disse, “não há pior agressão a Deus e aos seus filhos que a guerra, porque a vida não voltará a ser nunca mais como era antes”. E recordou a invasão, no século XIX, que o seu país sofreu e a guerra do cobre e do salitre com o Chile, impulsionada por interesses ingleses, na qual a Bolívia perdeu sua saída para o mar. E teve palavras elogiosas para Francisco: “Atualmente, verdadeiramente, sinto que tenho Papa, comprometido com o seu povo, com um pensamento revolucionário, com sentimento social e, sobretudo, com propostas para mudar e acabar com a violência e a guerra”.

Pouco depois, o Papa e Evo mantiveram um encontro a sós. Um encontro “privado e informal – explicou o porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi –, uma expressão de afeto e proximidade com o povo e a Igreja bolivianos, e um apoio para a melhoria das relações entre as autoridades e a Igreja no país”.

Sergio Sánchez, presidente da Federação de Carrinheiros da Argentina e que conheceu o Papa quando este era arcebispo de Buenos Aires, disse que “aquele que fica calado não tem nada”. “Hoje, graças à força que nos dá Francisco, seguiremos lutando pelos três direitos que ele destaca: terra, teto e trabalho”, acrescentou, recordando que começou a ser carrinheiro em 2001, em plena crise econômica, porque ficou sem trabalho. “Nós fizemos um trabalho que na Argentina ninguém faz”. E, além disso, é muito útil para o planeta, dizem os ecologistas. Basta recordar que na Itália apenas há poucos anos se começou a coleta seletiva que agora, em muitas regiões do país, as famílias têm obrigação de fazer em casa.

Suha Jarrar, uma jovem palestina que vive na Cisjordânia e que trabalha com a Union of Agricultural Work Committees, uma organização sem fins lucrativos que ajuda os agricultores palestinos, disse ao Página/12 que em seu país há uma emergência geral depois da recente guerra com Israel. As pessoas não apenas perderam suas casas, mas também seus campos, seus animais, seus cultivos. Há perigo de infecções e outras doenças porque dezenas de corpos de seres humanos e animais ficaram sob os escombros dos bombardeios. Apesar de que em seu país a maioria seja muçulmana, veio a esta reunião no Vaticano porque o importante é que se fale da Palestina, das pressões internacionais. “Não é um problema religioso. A Igreja católica tem muita influência, inclusive política, no meu país”, contou.

Enquanto uma camponesa salvadorenha denunciava a onda de violência em seu país e que arrasta os jovens camponeses, que são mais vulneráveis, para convertê-los em sicários, Magdalena Lázaro, indígena aimara da Bolívia, secretária-geral da Confederação Nacional de Indígenas Originários, destacava a importância do encontro com Francisco. “Foi muito importante encontrar-se com o Papa porque nos dá alegria, nos enche de forças – disse a este jornal – para a nossa luta, porque nós buscamos justiça, ter uma moradia, trabalho e terra, da qual estamos despojados. Eu sempre fui camponesa, de plantar batata, quinoa, fécula, de ter lhamas e alpacas. Esta reunião pode ser muito importante porque a gente ganha mais força para continuar na luta”.

Para Nora Padilla, da Colômbia, que começou a coletar material reciclável quando tinha seis anos, junto com sua mãe e sua avó, e hoje é a representante da Associação Nacional de Recicladores e da Rede Latino-Americana de Recicladores, “o discurso do Papa nos convoca para continuar a nossa luta”. Ela e seus companheiros se consideram aqueles que assentaram as bases para que hoje a Colômbia fosse considerada o quarto país do mundo em matéria de reciclagem, atrás apenas da Alemanha, da Dinamarca e da Holanda.

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