Por uma luta sem fronteiras. O encontro dos movimentos populares no Vaticano

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29 Outubro 2014

Que seja uma luta sem fronteiras, como é sem fronteiras o ataque do capital: esta é a exigência expressa na abertura, no Vaticano, do encontro global dos movimentos populares – Terra, Trabalho, Teto – promovido, de 27 a 29 de outubro, pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais e por exponentes de vários movimentos, a explícito convite de papa Francisco.

A reportagem é de Claudia Fanti, da agência italiana Adista. A reportagem, já traduzida, nos foi enviada por João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST, que participa do Encontro.

Um encontro visto como uma grande experiência de diálogo e de encontro, ponto de partida do processo de construção de uma espécie de coordenação das organizações populares, com o apoio e a colaboração da Igreja, como afirmou o cardeal.

Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, introduzindo os trabalhos diante de delegados de organizações populares de cerca de 40 países dos diversos continentes (em representação dos trabalhadores rurais sem terra, dos indígenas, dos precários, dos trabalhadores do setor informal e da economia popular, dos migrantes, dos que vivem nas periferias urbanas e em assentamentos arranjados, como também de seus aliados) e de numerosos bispos de várias partes do mundo e da Cúria Romana.

Um encontro, explicou o cardeal, que não pode não evocar a lição de papa João XXIII, que “queria que a Igreja mantivesse as janelas escancarradas para o mundo”, para que pudesse olhar e ver, assim, “as felicidades e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”, na convicção de que “nada há de genuinamente humano que não encontre eco no coração dos discípulos de Cristo”.

E, à distância de quase 50 anos da conclusão do Concílio, “é este – evidenciou Turkson – o motivo principal pelo qual os convidamos aqui”, respondendo à exortação, feita pelo papa às Igrejas e ao mundo inteiro, a escutar o grito dos pobres e dos excluídos, que devem ser, sublinhou o cardeal, “não meros e passivos destinatários da esmola alheia”, mas artéfices da própria vida, protagonistas da busca de uma vida mais digna e de um modelo diferente de desenvolvimento.

Um protagonismo de que os representantes dos movimentos presentes deram, sem dúvidas, grande prova, contando as próprias experiências de luta e de libertação, baseados no programa do primeiro dia de trabalho, aquele destinado a focalizar a realidade da exclusão através dos testemunhos dos participantes segundo o método próprio da teologia latinoamericana do ver-julgar-agir.

E se – como sublinhou Juan Grabois da Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular da Argentina no seu discurso de abertura, – a muitos dos presentes (para quem não era imaginável nem mesmo sair do próprio bairro, menos ainda do próprio país ou até mesmo do próprio continente) deve parecer “quase surreal” entrar no Vaticano, “isto – afirmou – é só o sinal dos ventos da mudança, que não sopram sobre a Igreja somente, mas sobre o mundo inteiro”, levando a voz dos movimentos daquele povo de excluídos que “pede agora para ser escutado” e para tornar-se “artífice da construção do próprio destino”.

E é um auspício comum a todos aos que este encontro dos movimentos populares quer dar respostas: que a ninguém falte a terra, um trabalho e um teto sobre a cabeça, “três direitos sacros, três direitos elementares que, porém, cada vez mais são subtraídos a uma parte maioritária do nosso povo”, esmagados por “um monstro idolatrado como um deus, o deus Dinheiro, a favor de quem tudo é sacrificado, até mesmo a natureza e a dignidade dos seres humanos.

Foi, porém, um bispo do Congo, Fridolin Ambongo, quem primeiro entrou no coração da realidade da exclusão, denunciando a passagem destrutiva do deus Dinheiro pelo continente africano, considerado a nível global uma espécie de “reserva de recursos naturais à qual todos podem aceder”, como se não existessem habitantes, como se se tratasse de “uma terra de ninguém”.

E, se os regimes políticos locais parecem fazer o possível para alimentar o “afropessimismo alastrador”, humilhando toda e qualquer regra democrática e silenciando a voz dos povos, é do ponto de vista económico que melhor se compreende a realidade da exclusão africana: “a economia do continente – explicou – é baseada essencialmente no desfrutamento dos recursos naturais sem valor adicional e destinados à exportação. Um desfrutamento acompanhado por conflitos e violências dos quais são as multinacionais as principais responsáveis, multinacionais que preferem, porém, passar através do circuito mafioso dos desfrutadores locais – aos que, além de tudo, são deixados somente os farelos -, numa longa cadeia que assemelha a uma nebulosa cada vez mais dificilmente iluminável”.

Um quadro agravado pelas chamadas ajudas humanitárias, cujo efeito é o de inundar os mercados africanos com arroz e milho de custo muito mais baixo que os locais, “com a consequente destruição da agricultura camponesa”.

Há, é verdade, concluiu Ambongo, pessoas que lutam por justiça e dignidade, mas “o maior problema da África é que tem movimentos populares organizados como em outras partes do mundo, mas somente tímidas iniciativas de organização. Por isto a nossa presença aqui pode representar uma benção para o Continente: estamos aqui para aprender com os outros”.

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