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24 Outubro 2014

De um pletórico órgão consultivo a um verdadeiro lugar de discussão – também sobre os temas mais incômodos: com Bergoglio, essa cúpula torna-se central.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio da revista Limes, 22-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Sínodo extraordinário sobre a família, que se concluiu no dia 19 de outubro com a beatificação de Paulo VI na Praça de São Pedro começou a desenhar alguns novos paradigmas da Igreja Católica que provavelmente mudarão de modo profundo alguns aspectos relativos à sua estrutura interna e à relação com a modernidade.

Olhar para as questões concretas – os divorciados, a coabitação, os homossexuais – certamente é importante. No entanto, os fatores institucionais e aqueles tipicamente políticos deveriam ser levados em consideração nas reflexões sucessivas ao encerramento da cúpula.

O primeiro tema é o da crise – alimentada pela estratégia do Papa Francisco – da Congregação para a Doutrina da Fé, liderada pelo cardeal Gerhard Müller. Aquele que é jornalisticamente chamado de "ex-Santo Ofício", de fato, saiu fortemente redimensionado dos 15 dias de intenso debate ocorridos no Vaticano, entre os 191 padres sinodais.

Não é por acaso, aliás, que o próprio Müller foi e continua sendo um dos principais opositores da reforma bergogliana.

Na vulgata jornalística, e não só, a Congregação para a Doutrina da Fé é (era) considerada o dicastério mais importante da Cúria Romana e aquele que incutia mais temor a teólogos e bispos. Uma imagem reforçada pela longa permanência no seu topo de teólogo de ponta como Joseph Ratzinger.

Este, certamente, foi um expoente conservador de qualidade e interpretou, mesmo que em nível elevado, especialmente os temores crescentes de uma parte da Igreja diante do clima e das expectativas de reforma dos anos pós-conciliares.

Müller, que foi escolhido por Bento XVI, criticou com palavras duríssimas o primeiro relatório do Sínodo (post disceptationem), que continha as maiores aberturas sobre os temas éticos.

Não só: com gesto certamente incomum, antes do Sínodo, ele publicou um livro que contestava antecipadamente as possíveis conclusões, tentando até mesmo influenciá-lo nesse sentido. A ruptura entre o pontífice e um dos seus primeiros colaboradores foi evidente e parece, neste momento, irreversível.

A resposta do papa também foi dura. No início da cúpula, Francisco fez um importante discurso no qual convidou os padres sinodais a falarem sem nenhum temor, sem medo "que o cardeal Müller venha para cima de vocês".

Nesse conflito, não existe apenas uma diferença ideológica. Na concepção de Francisco, o Sínodo, de fato, não é mais um pletórico órgão consultivo útil para pôr em cena uma aparência de colegialidade (instrumento útil no máximo para mostrar como o soberano é iluminado).

Ele se torna o órgão fundamental da Igreja, aquele em que se discutem, se enfrentam e se resolvem os temas mais complexos e controversos. Permanece, é claro, o papel do papa, que conduz tudo à síntese, mas a mudança de paradigma é substancial.

Em tal visão, não há mais um severo dicastério da doutrina que pune os transgressores da norma (a Igreja de Francisco não é mais uma "alfândega", na célebre definição do papa), ao contrário, é necessário falar "sem medo e respeitando os outros".

Desse modo, os protagonistas tornam-se os bispos, os pastores, não mais os juízes da doutrina ou de algum outro dicastério romano. Assim, Francisco, convocando nada menos do que dois sínodos sobre o mesmo assunto e consultando todo o povo de Deus sobre os temas da família e da sexualidade – os mais classicamente submetidos ao exame da Congregação de Müller – está atingindo a base da estrutura da Igreja, assim como a conhecemos ao longo dos últimos 150 anos. Inevitavelmente, uma parte da Cúria se opõe a esse projeto.

A sinodalidade, em linha com o que ocorre nas Igrejas anglicanas, ortodoxas, protestantes e orientais, torna-se o lugar de decisão por excelência (e o valor ecumênico da escolha está aqui em plena luz), o que, naturalmente, também provoca o surgimento de divisões cada vez mais tácitas ou vividas às escondidas.

Também por isso, o papa fez com que se publicasse todo o texto final, com os votos expressados sobre cada parágrafo. A norma dos dois terços prevista para a aprovação contida no regulamento do Sínodo, de fato, parece ter sido superada no momento em que a assembleia saiu dos trilhos do formalismo e entrou nos da verdade, da complexidade e, portanto, da ruptura com a unanimidade como valor em si mesmo esvaziado de conteúdo.

Não só. O documento conclusivo também sai mudado daí, tanto na forma quanto na substância: a relatio final tornou-se a base de discussão do próximo Sínodo, destinado a tomar algumas decisões importantes. Nesse sentido, falou-se justamente de work in progress, embora esse trabalho não vai se esgotar totalmente nem mesmo com o próximo Sínodo.

O work in progress concebido por uma Igreja sinodal é, de algum modo, permanente. Inevitavelmente, essa dimensão envolve uma discussão sempre aberta dentro da Igreja.

Por isso, diversos observadores apontaram que a grande novidade do Sínodo, na realidade, foi a grande liberdade com que os participantes discutiram e se confrontaram.

Nesse contexto, o Sínodo não é apenas a tentativa de tornar concreta e visível aquela Igreja "hospital de campanha", promovida por Francisco, isto é, atenta à realidade complexa da humanidade, sem preconceitos, capaz de acolher antes de condenar, que compreende as histórias de cada um, sem renunciar ao anúncio da Verdade.

Esse modelo – o anúncio e a acolhida, portanto a atenção constante à história, aos sinais dos tempos – precisa de um novo paradigma teórico e prático. O longo processo de centralização eclesial – que começou com o fim do Estado pontifício do século XIX e o desenvolvimento subsequente que levou o Vaticano a assumir uma quantidade cada vez maior de poder, de burocracia, de decisão doutrinal, e que levou os papas a serem legisladores universais permanentes – entra agora em discussão.

A sinodalidade também reforma a Cúria e o próprio papado, e talvez esse seja o verdadeiro e profundo motivo pelo qual a minoria conservadora votou contra alguns parágrafos conclusivos controversos da relatio, mesmo quando se limitavam a citar quase exclusivamente o Catecismo.

A contestação era radical e não dizia respeito apenas ao texto, mas à própria possibilidade de que as coisas mudassem e evoluíssem nessa direção.

Perspectivamente, desenha-se um novo modelo em que, em torno de um núcleo de verdades intangíveis, a Igreja se articular em nível local, deixando uma margem de autonomia crescente às várias Conferências Episcopais.

O chefe dos bispos franceses, Dom Georges Pontier, deu a entender, nesse sentido, ao problema ou, melhor, à dinâmica nova que se delineia.

O caminho que os bispos de realidades geográficas individuais e distantes poderão fazer sobre determinados temas sem causar rupturas será medido na relação com o governo central da Igreja e com a unidade do magistério. Em tal contexto, o momento sinodal, portanto, torna-se um decisivo instrumento de governo e de síntese.

Nota da IHU On-Line:

Veja também o discurso do Papa Francisco na conclusão do Sínodo 2014, em italiano, clicando aqui.

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