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22 Outubro 2014

Uma assembléia sinodal tem sempre certa importância, para a Igreja, mas não só, porém jamais tinha havido uma de tão vasto eco sobre a imprensa e uma atenção tão atenta da opinião pública internacional, como ocorreu com o sínodo extraordinário sobre a família. E isto por dois motivos: pela delicadeza do tema (a família,as famílias, os filhos, o amor, as feridas, as diversas formas de união ou de convivência) e pelo método que o primeiro sínodo da era Francisco inaugurou.

A reportagem é de Vania de Luca, publicada pelo blog L’Indice del Sinodo, 21-10-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

As intervenções da primeira semana foram mais de 265, e sobre o relatório do cardeal Erdo, que foi discutido nos dez círculos lingüísticos da segunda semana houve centenas de emendas. Uma significativa e importante modalidade de discussão, de debate, após o convite, na abertura, do Papa Francisco a dizer com toda liberdade, franqueza, nitidez, sem temores, garantidos nisto pela própria presença do Papa, que indicou, na “Parresia”, a própria condição na sinodalidade, isto é, de caminhar juntos, “cum Petro e sub Petro”. Que entre os padres sinodais houvesse diversidade de pontos de vista, sobretudo sobre temas mais enfrentados numa livre discussão, do acolhimento na comunidade eclesial dos casais homossexuais, à possibilidade de acesso aos sacramentos para os divorciados redesposados, era mais ou menos descontado, caso contrário não teria sido necessário um sínodo extraordinário, precedido por uma ampla consulta de base, como primeira etapa de um confronto nas igrejas locais que durará um ano inteiro antes do sínodo ordinário de 2015, em busca das vias pastorais para responder aos novos desafios levantados pelas famílias de hoje.

Na missa de abertura do Sínodo o Papa havia recordado que as assembléias sinodais não servem para discutir belas idéias ou para ver quem é mais inteligente, mas para cooperar no projeto do amor de Deus ao seu povo. Este é feito de pessoas concretas, com os seus sonhos, às vezes rompidos, com as alegrias, as dores... Na véspera da primeira tarde o Papa havia usado uma imagem eficaz, falando à Igreja: “Devemos dar ouvidos aos golpes deste tempo e perceber o “odor” dos homens de hoje, para ficar impregnados de suas alegrias e esperanças, de suas tristezas e angústias. O Papa Francisco quis confiar a reflexão sobre a família a um caminho inserido na complexidade do método sinodal, intrinsecamente conciliar, um caminho, com os leigos, os pastores, as famílias, as igrejas locais... Não é por acaso que na conclusão do sínodo extraordinário tenha ocorrido em São Pedro a celebração da missa pela beatificação de Paulo VI, o grande timoneiro que havia levado a cumprimento o Concílio Vaticano II, e que o Sínodo dos bispos o havia instituído, em meados dos anos sessenta [60].

Alguns jornalistas e comentadores lamentaram a não difusão das intervenções particulares dos padres sinodais, enquanto cotidianamente tem sido difundida uma síntese geral do debate. Públicos foram, ao invés, a ‘relatio post disceptationem’ [o relatório após as discussões] do cardeal Erdo, as prestações de contas dos círculos lingüísticos e, sobretudo, os resultados da votação sobre o relatório final, de 62 pontos, do qual foi imediatamente conhecido o resultado dos votos a favor e contra, ponto por ponto. A sala de imprensa vaticana estava lotada na tarde de sábado, 18 de outubro. Os jornalistas estavam ali desde a manhã (às 13 tinha sido o resumo sobre a mensagem conclusiva do sínodo), e amanhã teria sido a missa para a beatificação de Paulo VI, mas conhecer, e documentar, o êxito daquela votação, acompanhado das palavras do Papa que havia escutado o debate sinodal em silêncio por duas semanas, foi como documentar uma passagem histórica. Sobre todos os pontos houve uma maioria de “placet”, mas aqueles mais discutidos não obtiveram a maioria dos dois terços. Isto não significa que tenham sido des-rubricados, que a Igreja tenha decidido que não deve mais ocupar-se deles. As famílias divididas e feridas, com a problemática dos filhos, existem, bem como as pessoas homossexuais, e para a Igreja não podem não existir, mesmo que a indissolubilidade do matrimônio, e a não equiparação do matrimônio entre um homem e uma mulher a outras formas de convivência não são pontos em discussão. O caminho, portanto, continua, o método parece ser aquele mais apto a tratar – sem pressa, mas também com urgência – a complexidade dos temas e dos desafios em jogo.

Aquilo que em geral se viu foi um método democrático, naquela que, todavia, não é e não pode ser jamais uma democracia, a Igreja. Santa mãe Igreja, hierarquia e povo de Deus. Toda e todos a caminho. Os votos contam, também na Igreja. Também o Papa se elege com os votos, mas a Igreja, embora conheça de um lado os mecanismos do confronto democrático, do outro lado a possibilidade da decisão de um só, o Papa, não procede a golpes de maioria, porque é muito mais do que uma democracia, é uma comunidade. Esta não deixa fora ninguém e não é movida pelo desejo do consenso, mas antes pela busca da verdade, de uma verdade não abstrata e sim absoluta, feita pessoa, a iluminar as alegrias, as dores, as fadigas, a busca dos homens e das mulheres de hoje. Numa democracia governa quem vence, na Igreja, também quando há posições diversas, que aceitam ser contadas, jamais se quereria ver vencedores e vencidos, nem mesmo facções que se chocam, mas pessoas que se confrontam animadas por uma mesma paixão, para chegar, espera-se, a uma síntese compartilhada, sabendo que aquela verdade que têm a testemunhar, mas que contemporaneamente procuram, com frequência tem sido anunciada pela boca dos profetas. Minorias por definição.

No discurso pronunciado no termo do Sínodo o Papa Francisco citou, ao iniciar, “a luz do Espírito Santo”, e no fechamento invocou um “verdadeiro discernimento espiritual” para trabalhar sobre a Relatio synodi o inteiro ano próximo, em vista do sínodo ordinário de 2015. Para os não crentes não é fácil entender como idéias, propostas, soluções também concretas e operativas, possam descer da luz do Espírito Santo e de um discernimento de tipo espiritual, mas para a Igreja assim é. E somente as soluções amadurecidas dentro desta modalidade (que não conhece agressividade, mas antes docilidade) são as soluções justas e repletas de futuro. 

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