O Sínodo 2014 foi apenas o começo

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21 Outubro 2014

Agora que a poeira está começando a baixar, os significados das conclusões do tumultuado Sínodo dos Bispos sobre a família também começam a aparecer. Dadas as claras divisões que se apresentaram durante o evento, não deveria nos surpreender que as interpretações estejam sendo as mais variadas possíveis.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 20-10-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Para alguns, o resultado foi uma derrota do Papa Francisco e da linha mais aberta que se percebe ele representar sobre questões tais como as das pessoas homossexuais, do divórcio e do matrimônio. Para outros, até mesmo a linguagem atenuada sobre estes assuntos no documento final do Sínodo representa um divisor de águas, mesmo se, como disse o cardeal Vincent Nichols (de Westminster, Inglaterra), estes “não foram suficientemente longe”.

Aqueles que são a favor da permissão para católicos divorciados e casados novamente no civil de receberem a Comunhão podem reivindicar um avanço neste sentido, dado que os documentos anteriores do Vaticano tinham fechado esta porta por completo.

Alguns acreditam que o encontro de duas semanas, com os conservadores reclamando de uma conspiração para abafar suas vozes e com os progressistas se queixando sobre a falta de coragem, sugere que o Papa Francisco tenha saído perdendo.

“Eu não acho que ele foi um grande estrategista”, um cardeal contou ao Crux no último sábado. “Antes eu pensava que havia um plano por debaixo do caos (...) Agora fico me perguntando se não será o caos o próprio plano”.

Outros acreditam que este Sínodo foi início da abertura da visão papal para o futuro. Ele agora sabe em que pé se encontram os bispos do mundo, o que eles dizem e, talvez, o que ele precisa fazer para trazê-los junto de si.

Além de todas estas opiniões contrastantes, eis aqui três conclusões sobre o Sínodo dos Bispos 2014 que me parecem razoavelmente objetivas.

Este não é o fim, mas apenas o começo. Na verdade, o Sínodo foi projetado para não fazer outra coisa senão preparar a agenda de um Sínodo dos Bispos maior sobre a família convocado pelo Papa Francisco a se realizar em outubro de 2015.

É por isso que as conversas no sábado à noite sobre se os bispos “rejeitaram” os dois parágrafos do documento final ao não conseguirem dois terços dos votos – um sobre as pessoas homossexuais e outros sobre o divórcio e o matrimônio –, foram um erro categórico. Na realidade, o propósito deste encontro não era “aceitar” ou “rejeitar” coisa alguma.

Entre o presente momento e o próximo ano, Francisco provavelmente fará alguns movimentos importantes em seu pessoal, mudanças que podem alterar o caráter do próximo grupo que ele reunirá. Por um lado, é provável que o cardeal americano Raymond Burke, quem emergiu como o líder das forças conservadores durante o Sínodo, não esteja no encontro do próximo ano porque ele está prestes a ser substituído como chefe do Superior Tribunal vaticano.

Também é possível que o cardeal alemão Gerhard Müller, outra voz conservadora de peso no Sínodo, não mais esteja chefiando o principal escritório doutrinal do Vaticano em outubro de 2015. Dependendo de quem assumir [o posto de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé], isto também poderá alterar a química do próximo Sínodo.

Na verdade, se os planos do papa de simplificar o Vaticano ao eliminar ou consolidar alguns de seus departamentos estiverem em curso, poderá haver menos autoridades romanas no encontro de 2015.

Nesse mesmo sentido, o cardeal emérito alemão Walter Kasper, o principal protagonista da linha tolerante à Comunhão para os divorciados e recasados, se fez presente neste sínodo só por causa de um convite papal especial, e não há garantias de que ele estará de volta, principalmente após a polêmica criada por ter dito que os africanos “não deveriam estar nos dizendo o que fazer”.

Da parte dos bispos africanos, estes ficaram surpresos quando nenhum deles fora nomeado para a comissão de elaboração do documento final, e provavelmente eles não irão esperar chegar a Roma da próxima vez antes de deixar claro que esperam ter um lugar na mesa desde o início dos trabalhos.

Noutras palavras, não devemos supor que, ao colocar as mesmas interrogações no Sínodo do próximo ano, Francisco vá receber as mesmas respostas. O Sínodo 2015 não será um retrocesso, e sim um avanço.

O Sínodo 2014 marcou uma grande vitória da transparência. Aqui, aqueles prelados do lado conservador dos debates sinodais podem reivindicar a maioria dos créditos.

No começo, o cardeal italiano Lorenzo Baldisseri, secretário geral do Sínodo, anunciou que os textos das falas dos prelados não seriam divulgados e que os porta-vozes do Vaticano dariam somente impressões gerais à imprensa sem citar os nomes dos oradores. Isto levou a uma enxurrada de protestos por parte dos conservadores, que suspeitaram de uma campanha para abafar as críticas da linha mais liberal defendida por algumas figuras-chave no encontro.

O descontentamento veio a público na última segunda-feira quando um relatório provisório continha uma linguagem marcadamente positiva sobre as pessoas homossexuais, sobre viver junto fora do casamento e sobre o divórcio. Os conservadores se opuseram, e com razão, dizendo que que o relatório estava sendo considerado como contendo as conclusões de todo o Sínodo, quando nem todos concordavam com elas.

Daqui em diante, as coisas se tornaram mais abertas. Baldisseri se obrigou a tornar público todos os relatórios internos dos 10 pequenos grupos (os círculos menores) durante o Sínodo, e no fim Francisco decidiu publicar não só o documento final sinodal, mas também os totais de votos para cada parágrafo – e em tempo recorde.

Parece provável que o próximo Sínodo vá ser bem mais transparente desde o início, porque ninguém irá querer passar por isso novamente.

(Para constar: também é uma aposta segura dizer que alguns prelados podem, discretamente, sugerir ao Papa Francisco que considere encontrar um outro trabalho para Baldisseri, quem deixou muitas pessoas desapontadas com o seu desempenho.)

O Papa Francisco não recua nos momentos importantes. O pontífice fez um discurso no final do Sínodo que todos, praticamente, concordam estar entre os melhores de seu papado.

Ele apresentou a visão de um pontífice moderado, exortando a Igreja a afastar-se tanto de uma “rigidez hostil” quanto de uma “falsa misericórdia”. Atraiu muitíssimos aplausos, inclusive dos prelados que, pouco antes, estavam em grande desacordo entre si.

Com efeito, este foi o tipo de discurso com que tanto um Raymond Burke quanto um Walter Kasper poderiam ir embora se sentindo como se o papa os entendesse, e pareceu permitir terminar com bons fluídos aquilo que foi, em princípio, uma semana desgastante.

Por mais puro que este momento tenha sido, ele pode empalidecer-se em comparação com os desafios de manter a Igreja unida na medida em que as coisas avançam.

No sábado à noite, o Papa Francisco simplesmente teve que se preocupar em suavizar os sentimentos na sequência de um debate acidentado de duas semanas de duração e que não resolvia, na realidade, coisa alguma. Na próxima vez, não será suficiente apenas agradecer os bispos por falarem abertamente, porque os participantes estarão esperando que ele – o papa – tome algumas decisões.

Por enquanto, o apelo do papa à “unidade e harmonia” pareceu ressoar, mas a questão é se as pessoas ainda estarão inclinadas a abraçar este apelo quando ele parar de colecionar conselhos e começar a agir.

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