Não, o cardeal Kasper não é um racista

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17 Outubro 2014

Ontem, uma entrevista, publicada originalmente no sítio Zenit, provocou polêmica nas mídias sociais e blogs católicos na qual o cardeal Kasper (foto) teria supostamente feito comentários negativos a respeito dos africanos.kasper

O cardeal Kasper nega que qualquer pessoa do Zenit tenha lhe entrevistado e que ele "nunca falou dessa forma sobre os africanos". O Zenit retirou a entrevista do ar. E o entrevistador publicou a sua resposta, incluindo o áudio completo acompanhado da transcrição em seu website.

A reportagem é de Grant Gallicho, publicada no sítio da revista Commonweal, 15-10-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Ontem, Edward Pentin, que às vezes se identifica como um jornalista que representa o National Catholic Register e, em outras vezes, o Catholic Herald, publicou uma breve entrevista com o cardeal Walter Kasper.

Aparentemente Pentin entrevistou Kasper quando o cardeal estava deixando a sala do Sínodo e fez perguntas óbvias sobre a sua proposta de permitir que alguns católicos divorciados novamente casados recebam a Comunhão.

Kasper disse que acredita que o apoio a essa posição está crescendo entre os padres sinodais.

Então, Pentin - que afirma que viu "indícios de um sínodo manipulado" - perguntou sobre as pessoas que o Papa Francisco nomeou para ajudar a escrever o relatório intercalar sobre as discussões, e se o pontífice estava "tentando pressionar as coisas de acordo com o seu desejo". Kasper negou que o papa estava manipulando o processo e, em seguida, ele falou sobre a dificuldade de escrever um documento de síntese que deve contabilizar as tantas culturas representadas no sínodo:

"O problema, assim, é que existem diversos problemas de diferentes continentes e diferentes culturas. A África é totalmente diferente do Ocidente. Também os países asiáticos e muçulmanos, eles são muito diferentes, especialmente quando se trata dos gays. Você não pode falar sobre isso com os africanos e com as pessoas de países muçulmanos. Não é possível. É um tabu. Para nós, nos é dito que não devemos discriminar, não queremos discriminar em certos aspectos".

Pentin tinha mais perguntas naturalmente.

Mas os participantes africanos foram ouvidos a esse respeito?

Não, a maioria deles não [os que detêm essas opiniões não vão falar sobre elas].

Eles não foram ouvidos?

Na África, é claro [as suas opiniões são ouvidas], onde é um tabu.

O que mudou, na sua opinião, quanto a metodologia deste Sínodo?

Eu acho que, no final, deve haver uma linha geral na Igreja, critérios gerais, mas, nesse ponto, as questões da África nós não podemos resolver. Deve haver espaço também para as conferências episcopais locais para resolver os seus problemas, mas eu diria que com a África seja impossível [para nós resolvermos]. Mas eles não deveriam nos dizer muito sobre o que temos que fazer.

Esses comentários, mesmo que eles não falem mais do que a verdade óbvia de que uma abordagem pastoral única não funciona em uma Igreja global, tem ocasionado muito debate.

De acordo com um crítico, suas observações indicam uma insensibilidade "impressionante" em relação à Igreja africana. Outros afirmam que seus comentários provam que ele é "xenófobo" e "discriminatório". "Talvez ele devesse tomar um voto de silêncio", sugeriu outro. "O mestre Kasper gosta de apenas um tipo de africano: amordaçado, submisso, silencioso e que sabe o seu lugar", declarou um blog tradicionalista marginal.

Obviamente, não há nada de condescendente, xenófobo, discriminatório ou - e vamos apenas usar a palavra que os críticos mais estridentes querem nos fazer pensar que ele seja - racista nas declarações de Kasper. Percebam o que ele disse: a África não é como o Ocidente quando se trata de homossexualidade. Nem os países islâmicos e asiáticos. Em alguns lugares, a homossexualidade é um assunto tabu. Isso é notícia?

Sim, ele disse: "você não pode falar sobre isso com os africanos e pessoas de países muçulmanos". Mas ele não quis dizer que é um desperdício de tempo ou que eles são impossíveis. Quando entrevistei Kasper, com o meu colega Matthew Boudway, ficou claro que ele tinha uma espécie de tique verbal quando ele estava tentando descrever uma situação difícil: "Não é possível". Isso não nos surpreende, pois ele não é um falante nativo do inglês. Na verdade, antes de começarmos, o cardeal pediu desculpas porque "o meu inglês não é tão bom". De fato, sua fluência fez a edição da entrevista ser um pouco desafiadora.

Mas o que dizer das perguntas seguintes de Pentin?

"Os participantes africanos são ouvidos a esse respeito?" Kasper: "Não, a maioria deles não [os que detêm essas opiniões não vão falar sobre elas]". Nós não temos nenhuma idéia do lugar onde Pentin entrevistou Kasper. Era barulhento? É por isso que aparecem entre colchetes? Talvez o parafrasear de Pentin não seja preciso. A visão de Kasper pode ser a de que os bispos africanos apenas não disseram muito sobre o tema da homossexualidade. Você não pode ouvir alguém que não está falando.

Mas Pentin quer mais. Então, ele pressiona, "Eles não foram ouvidos?". E Kasper diz: "Sim, na África, é claro" - então Pentin preenche - "onde é um tabu". Mais uma vez, vamos ficar chocados ao ver um cardeal da Europa Ocidental explicar que na África a homossexualidade é um tabu? Esse é um conhecimento comum.

Mas quando Kasper diz que "na África", ele está sinalizando sua abordagem da questão. Preste atenção novamente na passagem final que é supostamente ofensiva.

"Eu acho que, no final, deve haver uma linha geral na Igreja, critérios gerais, mas, nesse caso, as questões da África nós não podemos resolver. Deve haver espaço também para que as Conferências Episcopais locais resolvam os seus problemas, mas eu diria que com a África seja impossível [para nós resolvermos]. Mas eles não devem nos dizer muito o que temos que fazer."

O contexto dessa resposta é a questão de como uma Igreja local aborda seus próprios desafios pastorais. (Isto é, apesar de tudo, uma questão a qual ele deu alguma atenção.) "As questões da África que não podemos resolver". Ele quer dizer, a Igreja alemã . (Ou talvez a Igreja da Europa Ocidental.) É por isso que, continua ele, "deve haver espaço também para que as Conferências Episcopais locais resolvam os seus problemas, mas eu diria que com a África seja impossível [para nós resolvermos]". O "nós" foi Pentin que acrescentou, mas novamente Kasper está dizendo que uma Igreja local não pode resolver os problemas da outra. Ele não quer dizer nós, o Sínodo, ou nós, o resto da Igreja . Ele quer dizer nós, os alemães, nós, os europeus, enfim o Ocidente. Em outras palavras, cabe às Igrejas da África lidarem com seus próprios desafios pastorais. Assim como "não deveriam nos dizer muito sobre o que temos que fazer". Isso não é sem consideração ou xenófobo, ou algo pior. É apenas bom senso teológico.

Atualização: Hoje, o cardeal Kasper teria dito: "Eu estou chocado. Eu nunca falei dessa forma sobre os africanos e eu nunca faria isso. Garanto-vos que nestes dias e semanas ... ninguém do Zenit apresentou-se a mim e me pediu uma entrevista. Ninguém do Zenit fez uma entrevista comigo". (Agradecemos a Austen Ivereigh pela tradução aproximada). O Zenit retirou a matérria de seu sítio eletrônico.

Isso pode levantar mais perguntas do que respostas. Primeiro, quando Kasper diz que ele não falou "desta forma sobre os africanos", ele quer dizer que ele literalmente não disse as palavras atribuídas a Edward Pentin? Ou será que ele quer dizer que ele não tinha a intenção de sugerir, como alguns alegaram, que ele não desdenhou as preocupações da Igreja africana?

Meu palpite: Kasper está reagindo aos críticos que alegaram que ele não se importa com a experiência da Igreja africana - especialmente aqueles que sugeriram que seus comentários eram basicamente racistas. Nunca foi a intenção de Kasper descartar as preocupações dos seus irmãos bispos. Ele estava fazendo um ponto sobre a subsidiariedade - ou seja, em que nível devem questões pastorais ser abordadas? Quem está melhor equipado para lidar com os problemas pastorais de uma Igreja local? Para a África, os africanos. Para a Europa, os europeus.

Portanto, será que Pentin inventou a coisa toda? Não. As respostas soam muito como sendo de Kasper. Então, por que Kasper disse que ninguém do Zenit lhe pediu uma entrevista? Talvez Pentin esqueceu de mencionar onde a entrevista seria publicada. Ou talvez o local era tão barulhento que Kasper não conseguiu ouvir Pentin dizer a organização que ele estava representando no momento. Afinal, Pentin está escrevendo de Roma para vários veículos de comunicação: o National Catholic Register, o Catholic Herald e Zenit (podem haver outros). Talvez ele não tivesse decidido o que fazer com o seu material até depois do fato.

Acho que vamos ter que esperar o esclarecimento de Pentin. Por enquanto, ele está calado.

Atualização 2 (quinta-feira, 02:15): Pentin publicou um comunicado em seu website respondendo aos mais recentes comentários de Kasper, no qual ele mais ou menos confirma a minha especulação. (Pentin também postou sua gravação da entrevista. É tão barulhenta quanto eu esperava.) Ele apresentou-se a Kasper como representante do National Catholic Register, não do Zenit. É por isso que Kasper disse que ninguém do Zenit pediu-lhe uma entrevista. De qualquer forma, o cardeal não negou que ele deu a entrevista. Ele não negou ter dito as palavras que Zenit publicou, como Pentin sugere agora. Kasper apenas disse que ninguém do Zenit entrevistou-o. Isso é o que acontece quando você não identifica corretamente a publicação que você representa.

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