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20 Outubro 2014

"Na era da economia digital, entender o modelo de negócios de empresas como o Facebook torna-se fundamental para evitar a formação de modernos monopólios. Afinal, a quebra de padrões de produção e de prestação de serviços cria um novo fluxo nas cadeias produtivas, o que exige novas regras e entendimento sobre o poder das grandes empresas no mercado", escreve Claudio Ribeiro de Lucindaprofessor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, em artigo publicado pelo jornal Valor, 17-10-2014.

Eis o artigo.

Criar pontes eficientes entre a pesquisa aplicada e a economia real - aquela vivida pelas pessoas - é algo ainda raro na academia, mas de extrema urgência diante das transformações econômicas e sociais que avançam sobre o globo. A digitalização dos negócios, as estratégias para superar, de fato, a crise econômica e a estruturação de novos mercados são temas que exigem pensamento "fora da caixa". O reconhecimento do trabalho realizado pelo francês Jean Tirole, escolhido para o Prêmio Nobel de Economia deste ano, valoriza a aplicação do rigor matemático em áreas práticas e voltadas para defender o interesse dos indivíduos.

Exemplos do trabalho de Tirole podem ser observados na obrigação do sistema financeiro em manter parte dos recursos levantados como caixa - garantindo o saque a clientes que pretendem dispor de seus recursos. A forma de tarifar os serviços telefônicos, estabelecendo preços diferentes para ligações locais, interurbanas, fixas e móveis também se baseia no uso de modelos matemáticos que são capazes de tornar a cobrança mais ajustada ao uso da rede, representando o interesse do consumidor e coibindo abusos dos operadores.

Na era da economia digital, entender o modelo de negócios de empresas como o Facebook torna-se fundamental para evitar a formação de modernos monopólios. Afinal, a quebra de padrões de produção e de prestação de serviços cria um novo fluxo nas cadeias produtivas, o que exige novas regras e entendimento sobre o poder das grandes empresas no mercado.

O prêmio dado a Tirole reconhece um grupo de economistas que nos últimos 60 anos vem trabalhando para fazer a ponte entre a academia e a economia real - universos aparentemente separados. Para entender as contribuições de Tirole, é importante lembrar que, até a década de 1950, a teoria econômica contava com uma base de conhecimento consolidada para alguns casos específicos - como monopólio e concorrência perfeita - e uma coleção de conhecimento intuitivo, mas não formalizado, sobre mercados fora desses eixos. O problema estava centrado na imprevisibilidade dos resultados, quando a intuição era aplicada.

O primeiro movimento de organização do conhecimento intuitivo aconteceu nas décadas de 1960 e 1970, com a chamada Escola de Chicago. Os pesquisadores demonstraram que os casos específicos de monopólio e concorrência perfeita poderiam ser aplicados em muitos contextos além dos originalmente pretendidos. O sucesso desse primeiro movimento foi representado pelo Nobel de Economia de 1982, angariado por George Stigler.

No começo dos anos 1980, uma revolução teórica começava a aparecer na microeconomia. Com a melhora do instrumental matemático, houve uma explosão no número de aplicações teóricas sobre a coleção de conhecimento intuitivo herdado dos anos 1950. Também aconteceu um movimento de revisitação das conclusões originadas na Escola de Chicago. Um dos principais autores dessa época foi justamente Jean Tirole.

Como resultado, a ciência econômica obteve uma verdadeira revolução em três áreas que mudaram os rumos das corporações entre o fim do século passado e o início deste: a teoria dos leilões, a organização industrial e a regulação. Pelas contribuições nos dois últimos campos, a Academia Real da Suécia conferiu o prêmio a Jean Tirole.

Na área de organização industrial, uma das mais importantes contribuições de Tirole (e seus coautores) foi o estudo dos chamados mercados em duas partes: mercados em que um agente, chamado de plataforma, tem como serviço reunir dois grupos de consumidores. Sem os insights teóricos de Tirole, o entendimento do modelo de negócio de empresas como Facebook, Visa e Mastercard ficaria muito prejudicado.

Já no campo da regulação, Tirole e Jean-Jacques Laffont foram responsáveis por avanços substanciais na geração de conhecimento sobre o tema. Estudaram a estrutura de preços ideal para empresas reguladas, e que não estão expostas à concorrência, e desenharam incentivos para o aumento da produtividade em um ambiente sem competidores.

A recente crise de 2008 ressaltou outra faceta dos trabalhos de Tirole. No fim dos anos 1990, junto com Mathias Dewatripoint, o pesquisador francês estudou a importância de as instituições financeiras manterem parte dos seus recursos em ativos líquidos e as consequências da reserva para a estabilidade dos mercados financeiros. A liquidez foi um dos fatores mais críticos no ápice da crise e ganhou destaque nas medidas regulatórias adotadas.

As contribuições teóricas de Tirole foram, então, analisadas por reguladores do sistema financeiro em todo o mundo.

No Brasil, a regulação do setor de telecomunicações - privatizado em 1998 - foi muito influenciada pelos argumentos teóricos desenvolvidos por Laffont e Tirole. As ideias desses autores estavam por trás de fórmulas que regulavam as tarifas das operadoras de telefonia fixa e móvel na abertura de mercado.

Ao fazer a ponte entre a teoria mais pura e as aplicações, Tirole contribuiu para levar a ciência econômica à sociedade, com impactos que são sentidos no dia a dia das pessoas. Ajudou ainda a racionalizar parte do conhecimento intuitivo acumulado até a década de 1950.

Outros dois aspectos também precisam ser lembrados. O primeiro deles é o papel de Tirole como autor de livros-texto. Dois deles são clássicos, ainda utilizados em programas de pós-graduação em economia no Brasil e no mundo: "The Theory of Industrial Organization" (1988) e "A Theory of Incentives in Procurement and Regulation" (1993). A própria data de publicação já é um testemunho do notável sucesso desses livros ao longo destas décadas de uso.

O segundo é o papel que Tirole teve na construção de uma instituição que é referência mundial na área de economia, especialmente em microeconomia - a Escola de Economia de Toulouse. A partir de um ambiente tão regulado quanto o ensino superior francês, foi possível ao longo destas décadas construir uma instituição de ponta no ramo da pesquisa que, ao mesmo tempo, tem uma forte interação com o mercado. Essa também é uma história que, junto com as contribuições acadêmicas, merece ser estudada pelos economistas brasileiros.

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