Para brasileiros, Floresta é patrimônio

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23 Setembro 2014

Os brasileiros veem a Amazônia como um patrimônio do país, acreditam que a preservação da floresta e o desenvolvimento econômico não são objetivos incompatíveis e afirmam que o desmatamento prejudica, de alguma forma, suas vidas diárias. Essas são algumas conclusões da pesquisa “Floresta Amazônica e Alterações Climáticas”, realizada pelo Instituto Análise com 2.000 pessoas, nas cinco regiões brasileiras.

A reportagem é de Andrea Vialli, publicada pelo jornal Valor, 20-09-2014.

Quase por unanimidade, 90% dos entrevistados dizem que o desmatamento da Amazônia é ruim para o desenvolvimento do Brasil, pois isso reduzirá as chuvas e aumentará as temperaturas. Para a maioria dos brasileiros, o argumento ambiental prevalece sobre o econômico: 72% dos entrevistados afirmam que a conservação da Floresta Amazônica é mais importante do que o desenvolvimento e a criação de empregos na região. Na região Norte, onde está localizado o bioma e sua população, esse percentual cai para 64%.

As respostas variam pouco conforme a região, grau de escolaridade de faixa de renda da população, e apontam para uma forte tendência dos brasileiros a se mostrarem favoráveis à preservação. “É bem aceita a visão de que preservar a Amazônia não se opõe a gerar empregos e desenvolvimento. Mais do que isso, a população brasileira é explicitamente a favor de melhores políticas ambientais e há um amplo consenso a favor da conservação da floresta”, diz Alberto Almeida, diretor do Instituto Análise.

De acordo com ele, isso é fruto da visão dos brasileiros das riquezas naturais como parte do patrimônio do país e como vantagem competitiva em relação ao restante do mundo: 35% das menções a vantagens brasileiras em relação a outros países estão relacionadas a florestas e Amazônia e chegam a 52% quando se incluem outros ativos ambientais, como a biodiversidade e as bacias hidrográficas.

A pesquisa mostra ainda que a preocupação com a devastação da floresta é presente na vida dos brasileiros: 78% afirmam que o desmatamento na Amazônia de alguma forma afeta seu cotidiano. Esse impacto do desmatamento sobre a vida das pessoas aparece como a percepção de que ele traz alterações climáticas, aumentando a temperatura nas cidades (58% das citações) e que muda o regime de chuvas (25% das menções).

Os entrevistados mais velhos (acima de 45 anos) têm maior percepção de que o desmatamento afeta suas vidas do que os mais jovens (81% ante 76% na faixa etária até 44 anos). Compartilham dessa mesma opinião os entrevistados que têm nível superior de escolaridade: 85% dos que fizeram cursos universitários responderam que o desmatamento afeta sua vida diária. O levantamento mostrou ainda que existe uma percepção generalizada de que o desmatamento está aumentando (68% afirmaram que sim) e 61% acreditam que a tendência é que continue a aumentar.

A evidente preocupação com o desmatamento pode ter uma expressão política e eleitoral: 30% dizem que o compromisso de proteger a Amazônia será decisivo na sua escolha eleitoral e só votarão em um candidato que apoia publicamente a conservação da floresta, enquanto 28% dizem que é de grande importância para a sua escolha. Por outro lado, 5% disseram que votariam em candidatos que se opõem à conservação, e 21% dizem que a oposição à conservação seria um fator considerável em sua escolha eleitoral. “Provavelmente a questão ambiental não é um fator que vá decidir as eleições presidenciais, mas parte da amostra se mostra sensível a avaliar as propostas dos candidatos nesse campo”, diz Almeida.

Quando o assunto é a construção de hidrelétricas na Amazônia ou a expansão da agropecuária, a visão preservacionista é mantida. Na visão de 76% dos entrevistados, o Brasil não deveria construir mais usinas hidrelétricas porque eles acreditam que existem outras formas de gerar energia com menor impacto ambiental. Apenas 16% consideram as hidrelétricas como uma boa alternativa de geração de energia renovável.

Para esta pergunta, a metodologia do estudo dividiu a amostra em dois recortes, mas os resultados foram semelhantes para os dois grupos, com pequenas variações regionais. No quesito expansão da agricultura, 59% da amostra mencionam que a agropecuária brasileira deve ocupar áreas ociosas e já desmatadas – número que é ainda maior na região Norte, onde 77% dos entrevistados pensam dessa maneira. Mas 36% da população da região Sul se diz contrária à expansão agropecuária, contra 23% do restante do país.

Apesar da receptividade da população brasileira às questões ligadas ao meio ambiente mostrada pelos números, os próprios entrevistados reconhecem que possuem um grau baixo de conhecimento sobre o tema: apenas dois em cada dez entrevistados se consideram bem informados sobre as questões ambientais no Brasil.

Há também um certo desconhecimento a respeito dos povos que habitam a região amazônica: a população indígena é a mais lembrada espontaneamente (por 80% dos entrevistados), e os ribeirinhos foram mencionados por 32% da amostra, enquanto apenas 8% citaram os quilombolas.

O mesmo se repete quando o tema é o Código Florestal: 84% dos brasileiros afirmam não conhecer a lei, mas acreditam que dar prioridade à preservação, mesmo que isso prejudique a produção agropecuária é importante para sete em cada dez entrevistados. Para 64% da amostra, o fazendeiro que desmatar ilegalmente não deve ir preso, mas sim replantar área equivalente à que for desmatada.

A pesquisa do Instituto Análise foi realizada ao longo do mês de maio e foi encomendada pela Aliança pelo Clima e Uso da Terra (Clua, na sigla em inglês), iniciativa que reúne várias organizações internacionais do terceiro setor, como a Fundação Ford, Climate Works e Fundação Gordon e Betty Moore e está em processo de estruturação de sua atuação no Brasil.

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