Quando Bento XVI rezou na mesquita de frente para o Mihrab

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Por: André | 08 Setembro 2014

Foram 10 minutos e entraram para a história, cancelando definitivamente as polêmicas e as instrumentalizações que se fizeram do discurso de Regensburg. O Papa Ratzinger permaneceu imóvel, sem sapatos, com chinelos brancos aparecendo sob a batina. Tinha os dedos das mãos entrecruzados e apoiados na cruz peitoral de ouro. Rezava em silêncio, com os olhos entreabertos e com o rosto relaxado, movendo de tempos em tempos e quase imperceptivelmente os lábios. Sim, rezava. Mas o estava fazendo numa mesquita, frente de frente para o “mihrab”, o nicho de mármore que indica a direção de Meca. Estava rezando na grande Mesquita Azul de Istambul, ao lado do grão-mufti da cidade, Mustafá Cagrici, que acabava de convidá-lo, inesperadamente, para realizarem juntos esse gesto de recolhimento.

 
Fonte: http://bit.ly/1pX6ezK  

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 06-09-2014. A tradução é de André Langer.

As imagens ao vivo (era a tarde do dia 30 de novembro de 2006) deram a volta ao mundo e serviram para insistir melhor do que com mil discursos nesse afeto e nesse respeito pelos fiéis do Islã que o Papa Ratzinger não teria deixado de afirmar desde então, citando a comum referência a Abraão.

Poucos minutos antes, quando Bento XVI e o líder islâmico chegaram diante do “mihrab”, o mufti disse ao Papa: “Aqui a gente se detém para rezar durante 30 segundos, em serenidade”. Depois começou uma oração em voz alta, em árabe. Então, Ratzinger fechou os olhos e juntou os braços para começar a rezar. Permaneceu assim durante mais de 30 segundos, motivo pelo qual o mufti e os demais presentes tiveram que esperar em um silêncio quase irreal. Ao final, como mostra de respeito, inclinou ligeiramente a cabeça para o nicho e disse ao grão-mufti: “Obrigado por este momento de oração”.

“O Papa deteve-se em meditação e dirigiu a Deus seu pensamento”, confirmou imediatamente depois o porta-voz vaticano, o padre Federico Lombardi. E assim, a visita à Mesquita Azul de Istambul, que não figurava no programa e durou apenas alguns minutos, converteu-se em um dos momentos mais importantes da sua viagem à Turquia.

Não foi a primeira vez que isso acontecia, pois também o Papa Wojtyla, em maio de 2001 (três meses antes dos atentados do 11 de setembro), rezou na Mesquita Omíade, em Damasco. Mas, na ocasião o fez apoiando as mãos sobre o sarcófago de mármore que encerra uma relíquia atribuída a São João Batista, em um lugar que antes de ser um lugar sagrado para o Islã havia sido uma Igreja. O impacto midiático daquele simples gesto de Bento XVI foi muito importante. O jornal turco Milliyet intitulou a edição on-line da tarde com o seguinte titulo: “Como um muçulmano”.

Nestes dias se está falando de uma possível viagem papal à Turquia. O patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, expressou seu desejo de que Francisco pudesse visitar Istambul para festejar a festa de Santo André, no dia 30 de novembro. E, embora falte muito pouco tempo, no Vaticano espera-se um convite oficial da parte do governo turco. Além das relações sempre fraternas com os cristãos ortodoxos, a eventual viagem de Francisco também estaria marcada pelo diálogo com o Islã, considerando a dramática situação internacional que se vive no Oriente Médio, particularmente no Iraque e na Síria, dois países que têm fronteiras com a Turquia.

Nestes tempos em que há alguns que, para comparar e opor a qualquer custo o atual Pontífice ao seu predecessor, instrumentalizam as palavras de ambos e acabam por fazer uma caricaturização inevitável, é útil recorda aquela imagem da oração silenciosa de Bento XVI. O Papa teólogo, autor do discurso de Regensburg, para quem o diálogo com os muçulmanos “não pode ser reduzido a um ‘extra’ opcional: pelo contrário, esta é uma necessidade vital da qual depende em grande medida o nosso futuro”. Assim, podem descansar em paz os nostálgicos das cruzadas que, simplificando a realidade, esperam uma guerra de religiões e intervenções que, como observaram tanto o sociólogo italiano Masssimo Introvigne como a revista La Civiltà Cattolica, acabariam reforçando os fanáticos verdugos do Califado.

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