Álvaro García Linera e o socialismo comunitário do bem viver

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Por: Jonas | 18 Agosto 2014

A crítica de Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia, aos nefastos rastros do capitalismo, “não saiu apenas da reflexão em uma aula universitária ou de um cubículo de pesquisador, mas, sim, é resultado de muitos anos ao lado dos movimentos sociais bolivianos e do presidente Evo Morales”, escreve Luis Antonio Rodríguez, em artigo publicado por Rebelión, 15-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Após o processo político que levou à presidência da Bolívia o dirigente cocalero Evo Morales Ayma, no ano de 2006, os refletores mundiais se centraram na Bolívia, pois era a primeira vez em toda a história que um indígena governaria esse país, apesar dos povos originários representarem 62% da população, a mesma que havia padecido discriminação, violência e pobreza. A Bolívia, rica em recursos naturais, havia se tornado uma das nações mais pobres de todo o hemisfério ocidental. Nesse contexto, a chegada de um indígena lutador social despertou esperanças nos setores progressistas de todo o mundo, curiosidade em outros setores não inclinados à esquerda e, como não poderia ser de outra forma, também não esteve ausente o ódio das classes sociais que controlam os meios de produção, as vias de comunicação e o aparelho político daquela nação andina. Em suma, depois de Evo, a Bolívia esteve várias vezes no olho do furacão.

Porém, há uma figura importante junto ao presidente Evo Morales, que é pouco conhecida pelas maiorias – com exceção do povo boliviano -, ainda que na esfera da esquerda marxista latino-americana e na academia já ganhou espaço há muitos anos. Refiro-me ao vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, Álvaro García Linera. Este acadêmico e político, nascido na cidade boliviana de Cochabamba, em outubro de 1962, formou-se como matemático na Universidade Nacional Autônoma do México, nos anos 1980, para depois estudar sociologia enquanto estava na prisão de San Pedro, na cidade capital de La Paz. Além de ser professor universitário e analista político, participou de diversos movimentos sociais, incluindo o Exército Guerrilheiro Tupac Katari. É vice-presidente desde que Morales assumiu o poder e não há sinal de que deixe de ser em um futuro próximo.

Ainda que o trabalho político de Álvaro García Linera seja fundamental, pois, como destacaram não poucas pessoas próximas ao governo boliviano, não há reunião importante em que o vice-presidente não esteja presente, interessa-me ressaltar seu papel como pensador dos problemas sociais e, sobretudo, o caráter marxista que ele assumiu, ainda que o espaço desta coluna não permita dar conta disso tudo. O próprio tamanho de sua abundante bibliografia, que abarca desde trabalhos sobre a tomada de poder na Bolívia até reflexões sobre o Manifesto do Partido Comunista, impede a tentativa de se fazer uma resenha de toda a sua obra. Por isso, falaremos apenas do que García Linera chamou, em seu livro Las Tensiones Creativas de la Revolución, a quarta tensão: o socialismo comunitário do bem viver. O próprio autor destaca que: “Uma última tensão que impulsiona a dialética e o processo de nossa revolução é a contradição criativa entre a necessidade e a vontade de industrialização das matérias-primas, e a necessidade imprescindível do Bem Viver, entendido como a prática dialogante e mutuamente vivificante com a natureza que nos rodeia”.

García Linera nos recorda que o processo de nacionalização dos recursos naturais não pode se completar, nem sequer expandir, caso não se proceda a uma segunda fase de industrialização. Procedendo desta maneira, o Estado aumentará suas receitas e poderá destinar os recursos necessários para responder aos graves problemas da sociedade boliviana; assim como também a industrialização criará uma capacidade produtiva nacional, um manejo tecnológico e um conjunto de saberes científicos. Isto proporcionará as bases para superar os obstáculos do modelo primário-exportador boliviano.

No entanto, esta transformação econômica gera uma série de consequências que significam uma agressão à natureza, que a longo prazo também incide sobre o ser humano e que o próprio Fidel Castro chegou a chamar a atenção da humanidade sobre os perigos que se apresentam pela notável deterioração ambiental, entre os quais se encontra a própria extinção do homem. Porém, diferente dos ecologistas do sistema, que não querem destacar as causas essenciais do desastre, o vice-presidente boliviano não oculta que a tragédia ecológica não é alheia ao capitalismo: “Toda atividade industrial tem um custo natural, sempre foi assim, mas o que o capitalismo faz é subordinar as forças da natureza, desvirtuá-las e degradá-las a serviço do valor de troca, do lucro privado, não se importando se destrói o núcleo reprodutivo da própria natureza. No fundo, o capitalismo é suicida, pois em sua ação devoradora e devastadora destrói a natureza e, a longo prazo, também o ser humano”.

Evitar o holocausto ecológico sem que isto signifique retornar à idade das cavernas - como destacou o célebre presidente uruguaio, José Mujica -, é uma tarefa das forças socialistas. Para isso, é necessário retomar a experiência do que Álvaro García denomina a comunidade agrária: precisamos assimilar dialeticamente a forma como as forças produtivas comunitárias e a ética trabalhista agrária agregam uma visão diferente da que tem o capital para se relacionar com a natureza. Esta visão consiste em considerar as forças naturais como membros de um organismo vivo, do qual o ser humano e a sociedade significam uma parte dependente e que, por isso, as tecnologias e saberes sobre a natureza devem se dar no contexto de uma atitude dialogante e reprodutora da totalidade natural. Nesta ótica, a natureza é concebida como a prolongação orgânica da subjetividade humana, cabendo garantir sua continuidade criadora, uma vez que apenas dessa maneira se garantirá a continuidade da vida humana. Desta forma, será possível evitar o colapso da humanidade.

Certamente, existem outras visões sobre este mesmo problema, mas é indubitável que a visão de García Linera tem características que a fazem uma proposta séria. Uma delas, e talvez não seja a menor de todas, é que sua proposta não saiu apenas da reflexão em uma aula universitária ou de um cubículo de pesquisador, mas, sim, é resultado de muitos anos ao lado dos movimentos sociais bolivianos e do presidente Evo Morales. Lenin, outro teórico e dirigente preparado na intensa luta, já havia dito: “Uma acertada teoria revolucionária apenas se forma de maneira definitiva em estreita conexão com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário”.

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