“O adversário a ser enfrentado na Europa é muito mais forte do que na América Latina”. Entrevista com Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia.

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Por: Caroline | 17 Abril 2014

O vice-presidente boliviano analisa os desafios dos governos de esquerda latino-americanos, as novas direitas e a falta de perspectivas de mudanças na Europa. A entrevista é de Luiz Giménez San Miguel, publicado por Público.es, 13-04-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/6210OT

“Nesta viagem pela Europa detectei uma grande insatisfação, uma vontade de mudar as coisas e uma busca incessante por caminhos que permitam organizar a economia, a sociedade e a vida de outra forma”. Estas são as impressões de Álvaro García Linera (foto) (Cochabamba, 1962), vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, sobre o velho continente. Seu giro pela Europa terminou nessa quarta-feira em Madrid, onde permaneceu por apenas uma hora para participar da Conferência “Reflexões latino-americanas sobre a democracia na Europa” na Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense.

Como dirigente político, García Linera acompanhou os movimentos sociais e a Evo Morales em seu longo percurso até a presidência da Bolívia, momento em que iniciou-se o processo de mudança neste país, que somou-se a outras experiências como a da Revolução Cidadã, no Equador, ou do Chavismo, na Venezuela. Matemático por formação estudou sociologia quando estava na prisão, devido sua militância no Exército Guerrilheiro Túpac Katari, uma organização de orientação indigenista-maoísta. Como acadêmico, com o passar do tempo, tornou-se um dos mais renomados especialistas em Ciências Sociais do continente, lecionando aulas em diversas universidades e também tendo sido analista político em meios de comunicação. Neste sentido, tem sido o principal teórico que passou a inspirar o direcionamento do Movimento para o Socialismo (Instrumento Político para a Soberania dos Povos) que governa a Bolívia desde 2005.

Junto a ele estivaram presentes na Complutense os politicólogos Pablo Iglesias e Íñigo Errejón, que estudaram sua obra e compartilham com ele, como bem lembraram, “a concepção de que o compromisso e o trabalho intelectual devem estar juntos”, algo que ainda “causa pavor às universidades europeias”. Centenas de estudantes, assim como imigrantes que carregavam bandeiras bolivianas e wiphalas, lotaram o ato. E ali quis se dar uma lição magistral sobre como não se deve reduzir a democracia a mecanismos formais de votos: “A democracia como participação da sociedade nos assuntos coletivos é uma concepção que a entende como um movimento revolucionário”. Partindo dessa concepção, Linera fala de “revoluções democráticas” e “democracias revolucionárias” na América Latina.

Após o ato, Linera recebeu o jornal Público em seu quarto de hotel. Tinha pouco tempo, pois antes de embarcar no avião para a Bolívia, queria passar por várias livrarias. Optou por sua faceta intelectual, antes da de governante, para abordar as questões sobre os movimentos políticos que vivem na América Latina e Europa. Para responder as questões utilizou um tom muito pausado. E manteve os olhos fechados para elaborar seu discurso.

Eis a entrevista.

Depois de mais uma década desde que as forças progressistas começaram a surgir na América Latina, pondo fim a era neoliberal, quais são os principais desafios para estes governos na atualidade?

Hoje estes governos encontram-se com duas vias possíveis para seguir. Uma é sua estabilização. Ocorreu um processo, houve uma modificação nas coligações dominantes no Estado, modificou-se a narrativa da organização social, transformaram-se as instituições e reorganizou-se o uso do excedente econômico. E, agora, o objetivo é de que isso se mantenha. Deixa-se a revolução e consagram-se os direitos. A segunda opção é o aprofundamento. Uma revolução pode aprofundar-se somente se ela se reinventar e se expandir, tanto geograficamente como nas atividades necessárias aos procedimentos democráticos.

Equador, Venezuela e Bolívia estão nesse debate. Quais das duas vias deveram seguir? Não apenas uma questão de vontade, mas de vitalidade das forças sociais, de sua capacidade de organização. No caso da Bolívia há uma deliberada inclinação para o aprofundamento e a expansão do processo. É uma dinâmica que combina normalização e aprofundamento. Normalização em alguns aspectos, como a relação com o empresariado local; mas o aprofundamento em outros, como na relação com os Estados Unidos ou com as empresas estrangeiras e o impulsionamento dos direitos sociais.

Em todos esses processos na América Latina houve um importante papel desempenhado pelas lideranças. E isto implica a dificuldade da continuidade política sem o líder, como pôde-se observar na Venezuela.

É o velho debate do papel dos indivíduos na História, como já discutia Plejanov. É o ímpeto social que transformou pessoas comuns em pessoas influentes. Eles não construíram o movimento, o movimento os levou a essa situação, os empurrou. A sociedade cria seus líderes a sua própria maneira, a sociedade é a que os obriga a assumir estes papeis. O líder não cria o movimento, o movimento está acima do líder e vai além dele, existe anteriormente a ele. Todavia, mais a frente os movimentos entraram em uma nova fase, na qual dependem do líder. O próprio movimento em sua unidade e horizonte requer a presença do líder.

Não deveria ser assim, mas o é. E devemos nos perguntar por que as coisas estão desta forma e como não na maneira pela qual deveriam ser na nossa cabeça. As sociedades se comportam assim por falta de maturidade? Que sociedade em movimento não agiu assim? Não há nenhuma experiência na história em que a sociedade tenha atuado sem esta condensação das vontades dos líderes.

Na sua pergunta há um “dever ser”. E nisso eu estou de acordo, pois sempre podem ocorrem eventualidades. A sociedade, quando entra nessa relação pró-ativa com o líder, acaba por assimilar-se tanto com ele, que chega a depositar sua individualidade e sua coletividade nele. E quando algo acontece com o líder, produz-se um esvaziamento de si mesmo. E isso é o que ocorre na Venezuela.

Henrique Capriles teve que se afastar de seus slogans de esquerda. Fenômenos parecidos são observados no Equador e Bolívia. Há uma nova direita post-neoliberal? É uma operação de marketing ou uma verdadeira transformação destas forças políticas?

Todo processo revolucionário vitorioso instaura um horizonte de época ideológico, simbólico, discursivo e institucional. Pois se não o fizesse, não seria um processo vitorioso. E, ao marcar este horizonte, obrigam a todos os setores de oposição a mudar se não quiserem parecer como marginais. Continuaram sendo conservadores, mas para terem eficácia terão que mudar.

Isto é uma armadilha paradoxal. Se a direita aceita esta nova ordem discursiva, esta ordem mostra seu poder ao integrar este persistente e este, por sua vez, renova sua legitimidade. Ficam absorvidos pelo novo mundo. Entretanto a médio prazo poderão reivindicar o desenvolvimento deste mesmo horizonte, apresentado-se como os melhores continuadores. Isto é o que diz Capriles e a maior parte da oposição venezuelana, assim como cada vez mais setores da direita boliviana.

A pergunta é: O fazem os revolucionários? Se ficarmos estancados e dissermos que o fato já chegou ao seu limite, a oposição aparecerá como a legítima continuadora do horizonte da época. Temos a obrigação de ter capacidade para reinventar o processo, de propor novas metas.

Mesmo que Capriles use o discurso de que o processo é uma vitoria e que é necessária uma exigência para voltar a ter ímpeto de avançar, não queremos que o conservador recalcado apareça como o renovador, nós mesmos é que devemos avançar mais rápido.

Como a experiência das crises latino-americanas pode ajudar a entender o que está ocorrendo hoje na Europa?

Acabo de passar por uma universidade checa muito conservadora. Não me convidaram para falar da pobreza da Bolívia ou os golpes de Estado, como é habitual, mas para perguntar-me sobre o modelo econômico. Estamos surpreendidos: como é possível que estes comunistas populistas desorganizados e primitivos estejam crescendo cerca de 6,8% enquanto a República Checa em 1%, com  mais de cem anos de tradição industrial e sendo membros da União Europeia? A Europa está começando a olhar a América Latina de outra maneira.

O que os movimentos e forças políticas, que estão passando por esse processo de mudança na Europa, podem aprender com a América Latina?

A desnaturalização do neoliberalismo, sua contingência, sua vulnerabilidade. Parece muito simples, mas é uma tarefa de grande dificuldade. Pensar que pudesse entrar na mente dos europeus a ideia de que isto é contingente e arbitrário seria muito. Contudo, para mim, a América Latina mostrou que sim.

De acordo com os meios de comunicação europeus, o resultado de nossos processos é o populismo total, um vômito frente à adversidade. Entretanto é evidente que algo mudou por aqui. O que existia e era imutável no mundo inteiro, os mercados financeiros; a dívida; a privatização e a contração do Estado de Bem-estar; apresenta-se hoje como mutável na América Latina.

Como os europeus podem recorrer a esta experiência? Como poderão romper com o neoliberalismo? Isso depende deles e os farão de acordo com suas próprias tradições. Também dizia o professor Toussaint, esta semana na França, que a superação não pode ser como na América latina, país a país, mas a nível continental europeu.

Outra coisa que ocorreu na América Latina é a recuperação da fé, a recuperação do horizonte e a esperança. Há novos nomes para a articulação de vontades para construir o futuro. Alguns chamam de “socialismo do século XXI”, outros de “Revolução Cidadã”, outros comunitarismo... Seja qual for o nome que receba, é o que permite saber que a frente há um futuro diferente.

O movimento dos indignados foi uma criação muito rica, como o movimento pela água na Bolívia. Mesmo que logo tenha se diluído. Ainda não sabemos para onde irão convergir as águas da ação coletiva na Europa, mas o adversário a ser enfrentado é infinitamente mais forte que na América Latina.

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