''Os cristãos correm o risco de desaparecer do Iraque.'' Entrevista com Fernando Filoni

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13 Agosto 2014

Os rios de petróleo presentes nas entranhas do Iraque continuam sendo uma maldição. Muito mais do que ouro negro. Desde 2003, essa condenação custou a vida de 405 mil pessoas e agora também deu origem ao pior dos pesadelos. O genocídio de cristãos (junto com o de outras minorias). "Eu sempre disse que, se não fosse o petróleo, nunca alguém teria ido morrer na areia."

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 11-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal Fernando Filoni voltou de uma longa conversa com Francisco em Santa Marta; rezou na capela e agora está controlando as últimas coisas antes de partir para Bagdá, continuando depois para Erbil, no território curdo.

O enviado escolhido pelo papa é o cardeal que melhor conhece o território iraquiano, tendo sido núncio lá em 2003, enquanto caíam as bombas. "Que certamente não eram inteligentes, como depois se viu."

Eis a entrevista.

O que o papa lhe disse nesse domingo à tarde?

Eu o encontrei muito, muito preocupado. Sente sobre si o drama dessa pobre gente forçada a abandonar tudo para não morrer. Centenas de milhares de pessoas em fuga, sem nada. Não podendo participar pessoalmente, encarregou a mim para ir até eles. Mas é como se ele mesmo o fizesse.

Com que ânimo o senhor se prepara para fazer essa viagem?

Esta missão simbólica nasce para levar um pouco de esperança, para gerar confiança. Não podemos ficar parados enquanto essas comunidades antiquíssimas (não nos esqueçamos de que os cristãos sempre fizeram parte do tecido do país) se preparam para viver uma temporada dura, duríssima.

Haverá lugar para eles no Iraque no futuro?

Pedimos isso a cada dia que passa. É uma incógnita que causa dor e dilaceração. É uma questão que o patriarca caldeu com todos os bispos se fazem. A presença dos cristãos se enfraquece cada vez mais. Dramaticamente. E é um destino que une os cristãos a outras minorias. Se desaparecessem, seria uma perda para todos.

O Papa Wojtyla tinha razão quando dizia que a guerra de Bush Jr. traria apenas devastação.

Não é questão de quem tem razão ou não. Até porque, depois, nesses dez anos, houve atentados sobre atentados, erros sobre erros, outros problemas, fraquezas várias, até levar o país a uma fragilidade substancial. Não adianta nada olhar para o passado desse modo. No máximo, é preciso reconhecer como não se conseguiu reconstruir uma convivência entre grupos e entidades.

O senhor está dizendo que as responsabilidades, se o Califado avançar, devem ser igualmente subdivididas entre norte-americanos e iraquianos?

Bem, não se pode pensar que essa força, o Isis, se materializou de um dia para o outro, colocando todos em crise. No mínimo, é preciso ver há quanto tempo essa realidade jazia sob as cinzas. Quem a sustentou, quem não fez nada para impedi-la.

No fim, justamente na pátria de Abraão, ganhou corpo o genocídio contra os cristãos...

Genocídio: uma palavra muito pesada que implica erradicação, eliminação. No entanto, não diz respeito apenas aos cristãos, mas também a outras realidades. Todas as minorias consistentes estão em dificuldade.

Por que, em sua opinião, os norte-americanos decidiram defender Erbil e os cristãos em fuga para impedir o genocídio, mas depois não fazem nada para ajudar os cristãos na Síria, que certamente não se encontram em melhores condições?

Essa é uma pergunta que você não deveria fazer a mim. Mais uma vez, o petróleo é determinante.