Ideais da Primavera Árabe caem no esquecimento com descrédito da democracia

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12 Agosto 2014

Depois das revoltas de 2011, o mundo árabe pareceu estar se movendo em direção à democracia, mas o ressurgimento recente de líderes que exercem o poder pela força ilustra o quão profundas ainda são certas divisões --e quão desesperadas as pessoas estão por estabilidade.

A reportagem é de Shadi Hamid, publicada pela revista Der Spiegel e reproduzida pelo portal UOL, 10-08-2014.

Na tensa escalada até as revoltas de 2011, os árabes pareciam repudiar a ditadura. Pesquisa atrás de pesquisa demonstrava que mais egípcios, jordanianos e marroquinos do que norte-americanos ou poloneses, por exemplo, acreditavam que a democracia era a melhor forma de governo. Mas a "democracia", em termos abstratos, poderia significar qualquer coisa, desde que fosse positiva. Uma coisa é acreditar na democracia e outra bem diferente é praticá-la.

No Egito, a perda da fé não só na democracia, mas na própria noção de política, foi particularmente notável. Um número significativo de egípcios apoiou o golpe militar de 3 de julho de 2013, e depois ignorou --ou pior, apoiou-- o assassinato em massa de seus compatriotas em 4 de agosto de 2013. Mais de 600 pessoas foram mortas em poucas horas, à medida que as forças de segurança tentavam dispersar apoiadores da Irmandade Muçulmana de dois acampamentos de manifestantes no Cairo. Isso aconteceu há um ano exatamente - e continuará sendo uma mancha negra na história do país. Isso foi, em certo sentido, o que a Primavera Árabe conseguiu desencadear --não só o caos, mas algo mais sombrio.

Antes de começarem a titubear, os autocratas da região, quer na Tunísia, Síria ou Iêmen, gostavam de lembrar os ocidentais que, a despeito de sua brutalidade --ou talvez por causa dela--, eram eles que mantinham a paz e garantiam a estabilidade. Como o presidente egípcio Hosni Mubarak disse em um discurso televisionado apenas dez dias antes de ser deposto: "os acontecimentos dos últimos dias exigem que todos nós, como povo e liderança, escolhamos entre o caos e a estabilidade." Em certo sentido, ele e seus colegas autocratas estavam certos --havia uma barganha. Estes, afinal, eram Estados fracos, divididos pela religião, ideologia, seitas e clãs.

Sem muito aviso, as revoltas trouxeram à tona as tensões e conflitos internos que sempre estiveram borbulhando sob a superfície. Antes das revoltas, os árabes governavam pela força países difíceis de controlar, com fronteiras arbitrárias e identidades incertas. Eles prometiam estabilidade pelo preço da liberdade - e foi uma barganha que durou décadas.

Questões de identidade

No leste europeu, as transições democráticas se tornaram possíveis quando a ideologia dominante foi desacreditada pela morte da União Soviética. Enquanto isso, na América Latina, as principais divisões eram em grande parte econômicas. Durante as transições no Brasil, Chile e Argentina, a oposição de esquerda pôde garantir às elites do regime que os interesses delas fossem protegidos. No Oriente Médio não houve, nem poderia haver, uma resolução desse tipo.

Embora as queixas econômicas estivessem à frente para os manifestantes tunisianos e egípcios, elas foram rapidamente suplantadas por questões de identidade. Os principais partidos e movimentos, quer islâmicos ou liberais, tinham pouco a dizer sobre a economia além do evidente. Quem, afinal de contas, poderia discordar de lutar contra o desemprego e combater a pobreza? As divisões ideológicas em relação ao Islã dominaram o debate cada vez mais ríspido entre a inteligência secular, de um lado, e uma aspirante contra a elite islamita, do outro.

As fundações da sociedade e do Estado ainda eram muito questionadas, e as revoltas árabes só tornaram essas questões mais difíceis de responder. Havia uma falta básica de consenso quanto ao significado e propósito do Estado-nação moderno e também quanto ao papel da religião na vida política.

A absoluta ferocidade deste confronto levou um número crescente de "liberais" e "democratas" a abraçarem os militares --e particularmente um general carismático chamado Abdel-Fattah el-Sissi --como protetor e salvador do Estado egípcio. E Sissi desempenhou o papel muito bem. Ele foi criado pelos militares, subindo na hierarquia durante o regime de Mubarak para se tornar chefe da inteligência militar. Em suas aparições públicas, ele se apresentava como um patriarca severo cuidando de seus filhos rebeldes. Muitos egípcios --demais até-- retribuíram o favor. Eles queriam a volta de um governante forte.

"Isso é uma coisa que nós vivemos"

Quando eu, como pesquisador norte-americano, falava com meus amigos na região sobre a importância de respeitar os resultados democráticos mesmo que se discordasse deles, havia uma distância básica. Como me disse uma vez um amigo jornalista: "isso é uma coisa que você estuda; e isso é uma coisa que nós vivemos." Eram eles que tinham que viver com as consequências das eleições. No Egito, o sentimento era particularmente dissonante considerando a experiência recente sob o comando militar - um ano e meio conturbado em que o Exército administrou calamitosamente o país.

Mas durante o ano da Irmandade Muçulmana no poder, essas memórias começaram a desaparecer. Liberais, esquerdistas e até mesmo revolucionários esperavam que os militares zerassem e reiniciassem o processo político. Eles eram contra o que viam como uma tomada gradual de poder dos islamitas sobre o Estado egípcio --desde os tribunais e redações até o labirinto da burocracia-- aparentemente a serviço de uma reformulação forçada da sociedade egípcia. Com tanta coisa em jogo, os perigos de um golpe militar pareciam não importar tanto.

Os riscos eram simplesmente muito grandes, e para aqueles que de fato vivem em uma "democracia", aquilo não parecia nada tão entusiasmante quanto os observadores ocidentais faziam crer. Era, em vez disso, bastante assustador.

O retorno dos generais --que culminou na ascensão de Abdel-Fattah el-Sissi à presidência-- foi mais surpreendente no Egito, mas também em outros lugares a desilusão com a democracia, e com a confusão que a acompanhou, espalhou-se. Na Líbia, Síria, Egito e Tunísia, a queda dos ditadores significou o enfraquecimento do Estado e um vácuo de poder cada vez maior, que os grupos radicais islamitas, como o Ansar al-Sharia na Líbia, estavam mais do que dispostos a aproveitar. Enquanto isso, o Congresso Nacional Geral eleito lutava para impor sua autoridade em meio a milícias armadas que iriam, de tempos em tempos, cercar o prédio do parlamento para desviar os votos a seu favor.

A egipcianização da Líbia

A Líbia deveria ser diferente --as divisões ideológicas eram menos pronunciadas. Parecia improvável que a Irmandade Muçulmana fosse capaz de repetir o feito de outros partidos islamitas pela região, que haviam subido rapidamente ao poder. Lá não havia uma elite secular tradicional como no Egito ou na Tunísia, e até os partidos "seculares" como a Aliança de Forças Nacionais de Mahmoud Jibril estavam bastante confortáveis falando a língua da religião e da sharia. Grupos como a Irmandade Muçulmana simplesmente tinham menos tração porque não se sobressaíam tanto - as divisões regionais e tribais tinham precedência. Mas isso foi naquela época. À medida que a Irmandade Muçulmana, que era capaz de reivindicar uma coerência organizacional que os demais não podiam, cresceu e ganhou mais força, os temores de uma tomada do Estado por parte dos islamitas cresceram junto com ela.

A "egipcianização" do conflito líbio trouxe outro general, Khalifa Heftar, a uma posição de proeminência. Heftar disse falar em nome de algo chamado "Conselho Supremo das Forças Armadas", compartilhando do nome do corpo militar que havia derrubado o presidente Mohammed Morsi apenas um ano antes. Valendo-se de outra dica do Egito, Heftar apareceu na televisão em fevereiro para anunciar um plano para salvar a Líbia das milícias e políticos islamitas. Em maio, depois de conseguir mais apoio, forças leais a Heftar atacaram o prédio do Congresso Nacional Geral.

Como Sissi, Heftar é a nova face e a nova voz da era pós-Primavera Árabe, apresentando-se como um salvador forte trazendo a boa nova da estabilidade e da segurança depois de um processo democrático desestabilizador. Nesse aspecto, o Egito foi uma inspiração para seus vizinhos, mas não necessariamente da forma como se poderia esperar.

Divisão regional crescente

As divisões "islamitas-seculares" eram reais antes, mas pelo menos pareciam ser localizadas. O papel ---e a força relativa-- dos partidos islamitas variavam bastante por todo o norte da África. Mas a ruptura que definiu o golpe no Egito --apoiado pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos-- deu a esses conflitos uma projeção regional cada vez maior, refletindo uma disputa desigual contra o Qatar e a Turquia, cada vez mais isolados, do outro lado. Antes do golpe de 3 de julho de 2013, os líderes do partido Ennahda da Tunísia estavam dispostos a se distinguir e distanciar de seus colegas no Egito, que, para eles, prejudicavam a causa islamita. Contudo, depois que os militares derrubaram Morsi, a indignação dos islamitas tunisianos se tornou palpável --eles simpatizaram, é claro, com a situação da Irmandade, especialmente depois dos assassinatos em massa de apoiadores de Morsi em agosto de 2013. Mas eles também temiam um cenário igual ao do Egito em seu país, com a oposição secular ameaçando mais protestos em massa se o Ennahda não recuasse.

Hoje, os afiliados e descendentes da Irmandade se uniram de uma forma que não acontecia há décadas. Inúmeros encontros e conferências foram realizados em Doha, Istambul e outras capitais para discutir estratégias, táticas, lições aprendidas e, em geral, qual será o próximo passo para o "projeto" islâmico aparentemente em declínio. Movimentos que há muito tempo estavam comprometidos com uma participação política pacífica agora precisam lutar, como no Egito, com uma minoria de membros - e uma minoria um pouco maior de apoiadores que estão se voltando para o uso da violência anárquica contra regimes repressores, que se manifesta no lançamento de coquetéis Molotov, incêndio de carros da polícia e ataques a oficiais de segurança. Na Síria e na Líbia, a violência é por si só uma forma de política, e os afiliados da Irmandade lá se aliaram com grupos armados ou formaram suas próprias milícias.

Existe agora uma sensação comum de solidariedade islamita e luta contra um ambiente regional e internacional hostil. Todos os ramos locais da Irmandade já enfrentaram momentos de crise existencial antes, mas esta é a primeira vez que o desafio se estendeu para tantos ao mesmo tempo. Foi isso que a Primavera Árabe tornou possível, para melhor e para pior. Tendo sucumbido às tentações de proeminência e poder, os islamitas de toda a região estão pensando mais uma vez, e de forma diferente, sobre a situação a longo prazo. Eles já passaram por isso. Dois meses antes do início das revoltas árabes, conversei com Hamdi Hassan, chefe do bloco parlamentar da Irmandade Muçulmana, durante uma eleição na qual o regime de Mubarak não permitiu que o movimento conquistasse nem uma cadeira.

Eles pareciam resignados com seu destino, mas, ao mesmo tempo, acreditavam que a história, e Deus, estavam ao seu lado. "No tempo de vida da humanidade, 80 anos não é muito; é como oito segundos", disse Hassan.

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