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Por: Jonas | 07 Agosto 2014

A história de Enriqueta Estela Barnes de Carlotto foi, até fins de 1977, a história de uma mãe comum de classe média: platense, dona de casa, professora de escola primária, discreta, dedicada ao marido e aos seus quatro filhos. Aquele ano, primeiro com o sequestro de seu esposo, Guido, depois com o de Laura, sua filha mais velha, marcaria uma ruptura em sua vida e na de sua família.

A reportagem é publicada por Página/12, 06-08-2014. A tradução é do Cepat.

Pouco depois, em abril de 1978, com a certeza de que sua filha sequestrada estava grávida de seis meses, aproximar-se-ia pela primeira vez das Avós Argentinas com Netinhos Desaparecidos, como se chamaram antes que a imprensa internacional as rebatizassem como Avós da Praça de Maio. E nada seria igual. Não apenas pela certeza do assassinato de Laura, o enterro de seus restos, o exílio de seus filhos, o terrorismo de Estado no centro de sua existência, mas também porque Estela começou, de forma gradual, uma militância que nunca havia imaginado e que a levaria a percorrer o mundo, a reinventar a instituição para tornar realidade o objetivo das Avós: reencontrar-se com seus netos. Com os anos, sua história pessoal e a das Avós se fundem, são uma só. Até ontem, quando sua presidente voltou a ganhar destaque por sua tragédia pessoal, por sua luta, ao fim coroada com a descoberta de Guido.

Os primeiros movimentos de Estela foram para recuperar seu esposo, sequestrado dias após Laura se mudar de La Plata para Buenos Aires. Entrou em contato com advogados ligados aos militares, que não duvidaram em extorqui-la e se reuniu, pela primeira vez, com o futuro ditador Reynaldo Bignone, irmão de uma amiga. No dia 25 de agosto, após ser libertado, Guido lhe contou que o haviam torturado para saber sobre suas filhas, ambas militantes e na clandestinidade. Também lhe confirmou que os militares assassinavam a suas vítimas com uma injeção nas costas.

O sequestro de Laura ocorreu em fins de novembro de 1977. Seus pais não sabiam que estava grávida. Então, recomeçou a peregrinação e voltou a se reunir com Bignone, que a recebeu com uma arma sobre a escrivaninha. “Veja, senhora. Foi dito para que se entreguem voluntariamente, mas continuam nos desprestigiando no exterior. Aqui, há uma prisão modelo para que se recuperem”, mentiu.

Estela pediu que não a matassem, que caso tivesse cometido algum crime, que a julgassem e condenassem. Bignone deixou claro que isso não era uma alternativa. “Venho do Uruguai, onde os tupamaros que estão em prisões se fortalecem em suas convicções, criam problemas, convencem aos carcereiros. Aqui, não queremos isto. Aqui, é preciso agir”, disse em implícita referência à morte clandestina e covarde.

“Isso foi o cume”, explicou certa vez Estela. “Se a mataram, quero recuperar o corpo, não quero ficar louca, como tantas mães, procurando em cemitérios e sepulturas anônimas”, pediu-lhe. Bignone lhe pediu o sobrenome e todos os dados de Laura.

No dia 31 de dezembro de 1977, receberiam um recado anônimo, que informava que Laura estava bem, em mãos das forças de segurança e com seu companheiro. Em abril de 1978, uma mulher apavorada se aproximou do comércio de Guido para lhe transmitir uma mensagem de Laura. Descreveu o lugar onde esteve sequestrada e disse que Laura estava grávida de seis meses, que daria à luz em junho, e se fosse um menino, o chamaria de Guido.

O último pedido de Laura foi para que o procurassem em Casa Cuna. Longe de imaginar o plano sistemático, Estela se alegrou em saber que sua filha vivia e que esperava um filho e começou a tramitar a aposentaria para poder criar o neto. Ainda tinha a ilusão de que a iam libertar ou colocá-la à disposição do Poder Executivo.

Todos os dias, lia as listas de presos à disposição do PEN, com a esperança de ver o nome de Laura, enquanto Guido a procurava em Casa Cuna, como lhe havia pedido. Foi então que se aproximou de Alicia de la Cuadra e da Avós, que se alegraram em poder contar com uma professora que escrevia cartas e documentos qualificados. As gestões começaram a ser coletivas e vieram as marchas. Na Praça de Maio, entre cavalos e militares, tremia, contou certa vez.

No dia 25 de agosto de 1978, os Carlotto foram citados para um comissariado de Isidro Casanova, para que lhes entregassem o cadáver de Laura. Estela não hesitou em associar o fato com Bignone. “Um sinuoso gesto de horror podre”, diria anos depois.

Em 1980, em São Paulo, em uma visita do Papa, uma sobrevivente lhe falou de uma tal Rita, que tinha sido mãe de um menino e a quem em teoria haviam libertado. Quando lhe disse que o pai tinha um negócio de pinturas, soube que falava de sua filha e lhe explicou que a haviam matado. Depois, apareceria um recruta que foi testemunha de um nascimento no Hospital Militar Central e outro casal de sobreviventes que também havia visto Laura. Em 1985, fez exumar o corpo e os antropólogos confirmaram que havia tido um bebê.

A causa já era coletiva: a procura não era somente por Guido. Com Chica Mariani, impulsionou as primeiras campanhas internacionais.

A luta das Avós a levou a percorrer o mundo. Desde então, tudo foi militância, criatividade diante da adversidade, arquitetar estratégias para receber pistas das crianças roubadas, para encontrá-los, para buscar indícios de suas origens, produzir materiais para denunciar em todos os âmbitos e judicializar casos com a esperança de identificação e da restituição.

Tudo isso, enquanto enfrentavam a história oficial, que durante anos equiparou os desaparecidos com o próprio demônio. Carlotto recebeu inumeráveis prêmios, distinções e doutorados honoris causa. Seu nome associado às Avós, foi mencionado mais de uma vez entre os candidatos ao Prêmio Nobel da Paz. Até um filme conta sua vida, que ontem somou seu capítulo mais importante, o que ela chamou “o prêmio para todos nós que não deixamos de procurar”: o encontro com Guido, por quem lutou durante 36 anos.

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