"Via institucional deu lugar à mobilização de rua"

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19 Maio 2014

Professor de políticas públicas da USP e um dos autores do livro 20 Centavos: a Luta Contra o Aumento, o filósofo Pablo Ortellado é um dos acadêmicos que acompanharam mais de perto as manifestações de junho de 2013. Em entrevista ao Valor, ele diz ver nos protestos a um mês da Copa do Mundo uma ligação com as manifestações de junho de 2013

A entrevista é de Guilherme Serodio, publicada pelo jornal Valor, 16-05-2014.

Segundo ele, há uma mudança de métodos dos movimentos sociais e sindicais em que a interlocução institucional está sendo substituída pela mobilização de rua. Na sua visão, o governo ainda não aprendeu a dialogar com os movimentos que estão na rua.

Eis a entrevista.

Quem está na rua nos atos mobilizados este mês e ontem, especificamente?

Tudo está ligado ao que aconteceu em junho. Essa explosão de mobilização social que vemos tem a ver com o fato de junho ter servido como um exemplo. Foi uma mobilização de rua vitoriosa. A luta pela redução da passagem mostrou que a mobilização de rua consegue ter efetividade muito grande. Essa maneira de abordar os problemas sociais tinha sido abandonada nos anos oitenta, quando os movimentos sociais enveredaram pela via institucional e terminaram convergindo no Partido dos Trabalhadores (PT) e em outros esforços institucionais. Junho reabriu essa outra via, o que permitiu que diversos atores políticos se mobilizem aproveitando essa convergência de Copa do Mundo e eleições. A Copa aumenta a visibilidade internacional das mobilizações e as eleições são um momento onde os políticos estão particularmente suscetíveis à pressão.

Há novos atores nos protestos deste mês?

Você tem esses atores mobilizados contra a Copa, mas tem também o movimento sem-teto, particularmente na cidade de São Paulo, e categorias profissionais que estão aproveitando essa conjuntura favorável para pedir basicamente aumentos salariais, nem sempre lutando dentro dos sindicatos. A confluência desses atores, às vezes até de maneira articulada, é uma novidade. Desde o final dos anos 80 o entendimento era que para ter ganho significativo era preciso apostar na via institucional. Desde negociação sindical até a eleição de deputados e representantes em cargos executivos houve uma enorme aposta nessas vias institucionais. Em junho, um processo paralelo, que se acreditava meio perdido, foi retomado por novas gerações que não viveram o processo dos anos 80. E eles tiveram uma vitória muito expressiva: 70% dos residentes em cidades com mais de 200 mil habitantes tiveram redução do aumento da passagem. Isso inspirou mobilizações de todos os tipos, inclusive de movimentos sindicais que há muito não se mobilizavam.

Foi uma retomada?

Exato. Como os garis, vemos várias categorias em que a base dos trabalhadores está pressionando por ações grevistas ou mobilização de rua e nem sempre a direção sindical acompanha. Fazem essa opção porque observaram que é uma ação que dá resultado político efetivo. O Brasil se desmobilizou. Em São Paulo, dos anos 1990 para cá não havia nenhuma força política capaz de colocar 10 mil pessoas na rua. Em qualquer sociedade democrática, colocar 10 mil pessoas na rua é trivial. O grau de mobilização muito baixo da sociedade brasileira tinha a ver com a opção que o movimento social fez pela via institucional, que desarmou a mobilização característica dos anos 1970. Agora vemos o ressurgimento.

Qual o ganho dos movimentos no panorama político?

Agora se recoloca o protesto no horizonte político. Não é casualidade o fato de que quem introduziu isso seja um movimento recente como o Movimento Passe Livre, um movimento de jovens, de uma geração que não passou pelo processo de institucionalização e reconstruiu a mobilização desvinculada de partidos políticos, ou até em oposição a eles. Os próximos dois meses serão um teste para saber se a mobilização garante conquistas para além da redução da passagem. As categorias de trabalhadores sabem o que querem, mas as mobilizações de Copa têm um grande desafio pela frente: tirar uma pauta positiva. Há coisas no horizonte como a reforma da polícia e a questão das passagens vai ressurgir, em particular nos lugares onde houve aumento. Mas, por enquanto, são possibilidades.

A classe média deixou a mobilização?

Não vejo isso. De junho para cá houve faíscas de mobilização no Rio e em São Paulo. Muitas eram mobilizações de jovens urbanos. Manteve-se uma mobilização social superior ao que tínhamos antes de junho. Tudo indica que a gente vai ter um nível de mobilização muito alto de agora até o fim da Copa.

O governo foi inábil no diálogo com os movimentos?

Foi muito inábil porque o PT não entendeu ainda o principal legado: que ele vai ter que conviver com movimentos sociais independentes. O PT está acostumado a fazer acordos político que precedem e até impedem mobilizações. Esses novos movimentos não têm essa lógica. O partido ficou perdido. A única chave com que eles conseguem lidar com o movimentos é a chave da oposição. Mas não é isso, são apenas independentes. O recente diálogo com a Secretaria-Geral da Presidência começa numa tentativa de acordo. Quando não acontece, tratam os movimentos como inimigos políticos. Isso gera mais antagonismo com o governo. E outros partidos grandes, PMDB ou PSDB, não têm tradição de diálogo com movimentos sociais em geral.

O governo não soube tratar a Copa como um evento inclusivo?

A Copa e a Olimpíada são sempre acompanhadas de protestos desde os anos 90 ao menos, porque ganharam uma dimensão econômica muito grande que permite com que a organização desses eventos extraia dos governos garantias absolutamente antidemocráticas. O grande erro foi pensar que era possível fazer um evento dessa natureza sem gerar um antagonismo social.

Os protestos terão a mesma dimensão do ano passado?

Isso é completamente imprevisível. Mas não consigo imaginar que a gente terá nas cidades grandes menos de 20 mil pessoas em protestos durante a Copa. Daí para cima depende de fatores imponderáveis: como a imprensa vai reagir, como o governo vai reagir, como a polícia vai reagir. Pode acontecer um novo ganho de dimensão. Uma pesquisa da Confederação Nacional do Trabalho mostrou que 15% dos brasileiros estão dispostos a sair às ruas contra a Copa. É um nível de mobilização muito elevado. Esse cenário não pode ser descartado.

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