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Por: Jonas | 05 Maio 2014

“No grão do corpo que a terra goiana acolhe, crescem as ramagens de novas florações. Do meio de antigos silêncios, Tomás, o Dom, derramará suas bênçãos sobre nossas plantações. Também agora, quando os jequitibás lamentam, todos esperamos pela chuva”, escreve Jelson Oliveira, em nome da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, em homenagem a Dom Tomás Balduíno.

Eis o artigo.

Dom Tomás vestiu chapéus e cocares bem antes das mitras e solidéus. Carregou enxadas e foices nas mesmas mãos com as quais erguia báculos e cruzes. Aprendeu, viveu e ensinou que o poder evangélico é sempre um exercício de serviço.  Por isso, dançou com os indígenas, caminhou com os sem-terra, montou jegues, cavalos e aeronaves, sentou com presidentes, empinou bandeiras, abraçou árvores e gentes ao redor do mundo. Despertou raivas, desgostou uns tantos, provocou muitos. Tinha a suavidade de antigos amigos e a aspereza dos grandes profetas. Resistiu o que pôde. Agarrou-se à vida com todos os seus instintos. Agora, na doença. Antes, na saúde, na jovialidade e na sanidade de sua longa vida dedicada à causa da terra.
 
Aquele menino de Posses, nascido Décio, levava no embornal do espírito, quase sem esforço, o que de melhor a Igreja latino-americana produziu no último século. Veiculava seus símbolos com maestria. Difundia suas teologias de forma tão potente que era impossível resistir. Sua pesada cadência soube comunicar as lições do Evangelho da única forma viável: como quem ditava uma carta de amor, forte, viva, comovida. Era homem culto. Sabedor de línguas, nomes e seus artefatos. Mas sua verdade principal era dita com a simplicidade dos grandes mestres. Sua palavra despojada e incandescente, tinha a força de ventanias. Usava-a para puxar antífonas, agilizar agendas, cobrar atitudes, lançar campanhas, sarar feridas, abrir flancos de esperança no meio da escuridão. Entre os pobres e suas organizações, sua palavra dirimia intrigas, favorecia o diálogo, consertava mal-entendidos, pacificava. Entre as cercas e nos gabinetes, ela era espinhosa, direta, livre, surpreendente. Sim, Dom Tomás era, como bom dominicano, um homem da pregação, da palavra evangélica, encantatória, encarnada. Tinha escola: Domingos, Las Casas, Montesinos... Tomás encarnou, como poucos, na palavra e na vida, as lições de seus mestres. Falava ao coração. Estava persuadido por Deus.
 
A floresta foi seu dicionário. Marabá, Araguaia, Conceição, Goiás, Tocantins. A dureza dessas geografias impediu digressões e frouxidão. Foi firme sempre. Reteve as causas do povo como suas. A cabeça em chamas. O olho em arrebol constante. Pudera: viajou sempre em direção ao sol. Até que assim, no meio da noite, adentrou na fresta da luz. A fissura do tempo o recolheu calmo para dentro da terra. Para dentro do mundo. De volta para o centro, para o ventre, para a confluência de tudo. De volta para Deus.
 
Dizem que a melhor forma de homenagear uma vida que se vai é dando continuidade a seus projetos. Dom Tomás deixou muitos, porque sonhou até o fim. O complemento de sua vida não é outro senão o lançamento de uma nova agenda, de uma outra causa, de mais uma luta. Ferido, o corpo dorme. Viva, a voz tremula nos ares, vaporosa, aberta, intensa, instigada pelos desafios que ele tinha assumido para si e que agora nós temos obrigação de fazer nossos. Eis a nossa cumplicidade.
 
No grão do corpo que a terra goiana acolhe, crescem as ramagens de novas florações. Do meio de antigos silêncios, Tomás, o Dom, derramará suas bênçãos sobre nossas plantações. Também agora, quando os jequitibás lamentam, todos esperamos pela chuva.

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