Militares ameaçam religiosos em Goiás. Entrevista especial com Tomás Balduí­no e Geraldo Labarrère Nascimento

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28 Junho 2011

Assassinatos sem fundamento, um grande número de desaparecidos e uma infinidade de pessoas agredidas sem motivo. Todos esses abusos têm sido praticados pela polícia de Goiás. Alvo de denúncias tanto por parte da população quanto por parte da Igreja local, os militares têm não apenas defendido sua forma violenta de atuar como têm criado estratégias de ameaças que vão desde plantar informações inexistentes quanto pressionar bispos para transferirem os religiosos que têm defendido as vítimas da polícia. Sobre isso, a IHU On-Line conversou com D. Tomás Balduíno e Pe. Geraldo Nascimento. As entrevistas foram realizadas por telefone.

Dom Tomás e Pe. Geraldo nos atenderam logo depois da coletiva em que apresentaram para a imprensa um documento que reúne as denúncias e aponta para a criação, por parte dos militares, de um grupo de extermínio que tem atuado com ferocidade por Goiás. "Há um grupo chamado Ronda Tática Militar – Rotam que usa carros pretos e são treinados para exterminar. Sabemos de jovens que foram incetivados a seguir carreira militar pelos pais e, depois, as famílias tiveram que retirá-los da corporação porque se tornaram homens violentos. Esse grupo é terrível. Tem um aparato que dá muito medo", explicou D. Tomás.

Tomás Balduíno (foto acima), frei dominicano, é bispo emérito da diocese de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Geraldo Labarrère Nascimento (foto ao lado), padre jesuíta, é diretor da Casa da Juventude de Goiânia, membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Conselho Municipal de Assistência Social.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que diz o documento apresentado, hoje, durante a coletiva de imprensa convocada pela Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil?

Dom Tomás Balduíno – Há pessoas que estão sendo ameaçadas porque denunciaram a criação de um grupo de extermínio formado por militares. O documento fala sobre a forma como as ameaças acontecem e quem são os que ameaçam. Muitas famílias denunciaram e alguns foram presos em fevereiro deste ano. No entanto, as ameaças continuaram mesmo depois disso e, com medo, as pessoas se calaram para não se exporem.

Assim, muitos padres e religiosos, sabendo da pressão vivida por essas famílias, tomaram a frente nas denúncias. Estes estão atualmente recebendo ameaças que vêm na forma de pressão em relação aos superiores para que transfiram esses religiosos que têm realizado as denúncias.

IHU On-Line – Quem são esses militares?

Dom Tomás Balduíno – Há um grupo chamado Ronda Tática Militar – Rotam que usa carros pretos e são treinados para exterminar. Sabemos de jovens que foram incetivados a seguir carreira militar pelos pais e, depois, as famílias tiveram que retirá-los da corporação porque se tornaram homens violentos. Esse grupo é terrível. Tem um aparato que dá muito medo. O escândalo foi tão grande aqui em Goiânia que eles chegaram a ocupar a Assembleia Legislativa, fardados e armados, durante uma sessão em que estavam sendo denunciados.

IHU On-Line – Como foi a coletiva? Como a imprensa recebeu as informações do documento?

Dom Tomás Balduíno – Fiquei muito surpreso, pois muitas pessoas compareceram. E só ontem comunicamos a imprensa a respeito da entrevista coletiva. Vieram os três principais jornais, mais duas TVs importantes... A imprensa se interessou porque distribuímos uma nota sobre o documento que apresentamos. Com isso, tivemos apenas que comentar e explicar como nasceu a Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. A nota deixa claro que o nosso objetivo é reivindicar a mudança da política de segurança. Queremos uma segurança cidadã e não policial, pois esta permite a criação de grupos de extermínio.

Padre Geraldo Nascimento – Eu não pude participar da coletiva. A organização achou melhor eu não aparecer. Isso porque a estratégia nossa é de tirar o foco de apenas algumas pessoas, pois muita gente vem sendo ameaçada.

IHU On-Line – Pe. Geraldo, por que o senhor tem sido ameaçado?

Padre Geraldo Nascimento – Porque eu faço parte do Comitê Goiano pelo Fim da Violência Policial, criado em 2006. Esse comitê reúne ameaçados, familiares de desaparecidos e executados pela Polícia. Nós fizemos muitas denúncias, tanto em praça pública quanto na grande imprensa. Só no mês de maio desse ano, mais de 50 pessoas foram assassinadas pela Polícia. O índice de violência no estado é muito alto.

IHU On-Line – Como as ameaças contra o senhor foram feitas?

Padre Geraldo Nascimento – Não houve ameaça direta. Ela chegou a nós através do arcebispo que foi procurado por uma fonte que não se identificou. Sabemos que era alguém mais católico que faz parte da polícia e levou as informações até a Igreja.

No dia 15 de fevereiro desse ano, alguns policiais foram presos depois de serem denunciados por abuso de poder pela Polícia Federal. Dos 19 militares presos, 17 foram encaminhados ao Presídio de Segurança Máxima do Mato Grosso e dois ficaram aqui. Estes dois fugiram, mas foram presos novamente. As ameaças contra mim se deram depois dessas prisões.

Essa pessoa que procurou o arcebispo avisou que o que eles vão fazer contra nós não é execução. Irão fazer se passar por acidente ou assalto seguido de morte. Ele ainda falou: "Tomem muito cuidado com coisas plantadas, como drogas, vídeos pornôs, material envolvendo pedofilia". Houve já uma tentativa de arrombamento da Casa da Juventude de Goiânia CAJU e um homem misterioso entrou lá com um revólver na cintura. Esses fatos confirmaram a denúncia que o arcebispo recebeu. A leitura que fizemos foi de que esses homens não querem mesmo nos executar, mas deram o recado de que estão por perto e nossas estruturas são vulneráveis. Por isso também eles têm facilidade para entrar. Certamente, para eles não é vantajoso fazer alguma coisa contra nós nesse momento. Mas com os meninos de rua com os quais trabalhamos, a Polícia pode "mexer", torturar, bater, dar choque a qualquer momento, em qualquer lugar.

IHU On-Line – Quem mais tem sido ameaçado?

Dom Tomás Balduíno – Da Igreja, pelo menos cinco pessoas estão sob ameaça. Estamos evitando dar detalhes porque está tudo correndo em segredo de Justiça, ainda que todos saibam os motivos e de onde vêm as ameaças.

IHU On-Line – Quando essas ameaças começaram?

Dom Tomás Balduíno – Desde o final do ano passado as pessoas vêm recebendo ameaças. Porém, mesmo depois da prisão de alguns elementos, as ameaças continuaram.

IHU On-Line – O que está por trás das ameaças?

Dom Tomás Balduíno – A Polícia quer o caminho livre para agir de forma violenta e não serem denunciados por isso. Eles acham que a forma como agem está correta. Claro que ainda acontece corrupção por trás disso, mas não aparece de forma tão clara. Quem contraria essa forma de agir é visto como um elemento que precisa ser executado. Como é mais difícil eliminar um bispo, um religioso, eles pressionam para que este seja transferido.

IHU On-Line – Qual a postura da CNBB regional Centro-Oeste em relação a estas denúncias?

Dom Tomás Balduíno – Agora a Regional tomou a posição de defender, muito em função do trabalho de D. Guilherme Werlang que é presidente da Comissão Dominicana de Justiça e Paz da CNBB. Ele assumiu essa luta.

Padre Geraldo Nascimento – Essa comissão está dando todo o apoio, assim como a CNBB regional. Porém, de modo geral, há retração. Havia, antes da eleição atual, uma certa reserva com respeito à CAJU. Muitos não queriam saber dos meninos de rua. Há um grupo que tem muito compromisso com o governo e, por isso, não pode se colocar numa atitude em defesa da vida.

IHU On-Line – Qual a postura do governo do estado de Goiás em relação às ameaças que essas pessoas estão sofrendo?

Padre Geraldo Nascimento – O governo nomeou uma comissão especial de defesa da cidadania para investigar desaparecimentos – não execuções. Ele fez isso no mesmo dia das prisões, em fevereiro. Faço parte dessa comissão que trabalhou durante 120 dias. Nós revimos todos os processos de desaparecimentos. A maior parte deles foi mal-conduzido porque se tratava de investigar policiais, o que a Polícia busca não fazer.

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