A crise das pastorais sociais e a crise da humanidade. Entrevista especial com D. Guilherme Werlang

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18 Maio 2011

A partir da 49º Assembleia da CNBB, um novo presidente para a Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz foi eleito. Trata-se de D. Guilherme Werlang. Atuante na área das pastorais sociais, ele concedeu por telefone a entrevista a seguir para a IHU On-Line, em que fala sobre sua história, sobre a eleição que lhe colocou no cargo de presidência dessa comissão e, ainda, analisou a chamada crise atual das pastorais sociais. "A própria linguagem, o próprio método de trabalhar, ele deve evoluir, modernizar-se, acompanhar o movimento social do conjunto da sociedade e isso sempre causa uma insegurança. É a busca de uma nova postura, de uma nova identidade, de um novo paradigma. Tudo isso a fim de que possamos ser uma resposta atualizada para o homem e a mulher do século XXI, nesse ano de 2011. Já olhando para frente, para as próximas décadas", afirmou.

A entrevista foi feita em parceria com o Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT.

Dom Guilherme Werlang é bispo de Ipameri-Goiás, além de ser novo presidente dessa comissão episcopal pastoral.

Confira a entrevista.

On-Line – O senhor poderia nos falar um pouco de sua história?

Dom Guilherme Werlang – Nasci em agosto de 1950, em Santa Catarina, no município de São Carlos, na comunidade de São Sebastião. Meu pai é o José Audino Werlang, minha mãe Irena Werlang. O pai e a mãe nasceram no Rio Grande do Sul. Minha família mora até hoje no município de São Carlos, em Santa Catarina. Eu, segundo conta minha mãe, desde criança, assim que aprendi a falar, falava que queria ser padre. E, de fato, com oito anos já fui coroinha, com 12 anos e meio entrei no Seminário dos Missionários da Sagrada Família, na cidade de Maravilha-SC, que nós chamávamos de Educandário Nossa Senhora de Fátima, isso em 1963. Em 1965, fui a Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, onde fiz o ginásio, na Escola Apostólica da Sagrada Família. Fiquei lá quatro anos.

Em 1969, fui a Rio Pardo-RS, onde fiz o ensino médio. Entre 1972 e 1974 cursei Filosofia na Universidade de Passo Fundo – UPF e morava, então, no seminário local. Em 1975, fiz o noviciado em Catuípe, perto de Ijuí-RS. Em 1976, estudei Teologia na PUCRS, sendo que em 1977 trabalhei na Formação em Santo Ângelo, no Seminário da Sagrada Família. Fui ordenado padre em 2 de dezembro de 1979.

Em 1980, trabalhei no Seminário de Santo Ângelo como formador e entre 1982 e 1984, em Jataí-GO. Em 1985, retornei ao Rio Grande do Sul, para ser formador no Instituto Missioneiro de Teologia em Santo Ângelo. Em 1987, fui reitor do Seminário de Rio Pardo-RS e, depois, em 1990 fui da Pastoral Vocacional dos Missionários da Sagrada Família, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. De 1993 até o início de 1999, trabalhei novamente na cidade de Jataí como pároco e, depois, em 1999, fui nomeado Mestre de Noviços em Porto Alegre. Trabalhando lá fui fazer um curso de formadores, no Rio de Janeiro e, durante esse curso, fui nomeado bispo de Ipameri-GO, onde estou até hoje. Essa é um pouco da minha história.

IHU On-Line – A que o senhor atribui a sua eleição para a Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, a antiga linha 06, da CNBB?

Dom Guilherme Werlang – Eu já fazia parte dessa comissão há quatro anos, junto com mais outros cinco bispos e o então presidente, que era o D. Pedro Luiz Stringhini. Na época, fui chamado para fazer parte desta comissão porque, enquanto bispo aqui em Goiás, trabalhei na Comissão Pastoral da Terra. Depois, quando a CNBB criou o mutirão da Superação da Fome e da Miséria, ainda com o falecido D. Luciano Mendes de Almeida e o D. Mauro Morelli, fiz parte da primeira turma. Então, na verdade, já são oito ou nove anos que estou acompanhando, de alguma forma, essa comissão de pastorais sociais. Assim, a própria comissão, as pastorais sociais, foram apresentando vários nomes, entre os quais estava o meu, para poder continuar esse serviço, que é algo que sempre caracterizou bastante a Igreja no Brasil. Quer dizer, essa opção preferencial pelos pobres. E, entre as diversas dimensões que a Igreja tem, uma dessas cuida mais desse setor das pastorais sociais. Temos 22 pastorais sociais que se subdividem em outras tantas na realidade do nosso povo brasileiro.

Penso que a eleição é em decorrência desse trabalho que já estamos fazendo dentro dessa Comissão Pastoral. E destaco que não é um trabalho de apenas um bispo, mas de um grupo. No caso, formado por seis bispos que trabalham em nome de todos os demais (bispos) da CNBB. Além desses, nós temos os bispos referenciais nas diversas pastorais sociais em todas as regionais da CNBB e temos padres, irmãs e irmãos religiosos, e muitos leigos e leigas que, na base, estão à frente dessas comissões.

IHU On-Line – Muitas afirmam que as pastorais sociais encontram-se em crise, com dificuldades de articulação e mobilização. Qual é a avaliação do senhor? A que pode ser atribuída a crise das pastorais?

Dom Guilherme Werlang – A crise é normal que aconteça uma vez que a sociedade e a comunidade são dinâmicas e, às vezes, a própria transitoriedade das coisas faz acontecer isso. Na verdade, as pastorais sociais estão bem organizadas, muito vivas, muito atuantes, mas sempre se devem buscar novas formas de se fazer esse trabalho. Existir uma crise não é necessariamente uma coisa ruim. Uma crise busca novas respostas para novos momentos. E a sociedade com um todo, não só a sociedade brasileira, atravessa essa crise de identidade de busca de novos paradigmas, de novos parâmetros, diante de novas situações, diante de uma geopolítica mundial. E, evidentemente, que as pastorais sociais se encontram no meio disso.

Atualmente, uma grande transformação social acontece. Nesses últimos anos a quantidade de pessoas que ainda estão na pobreza absoluta ainda é alta; outras passaram para a classe média, e houve uma significativa modificação no seu desenho, na sua composição. As pastorais sociais acompanham isso. Depois, de tempos em tempos, as próprias lideranças tendem a se renovar. A própria linguagem, o próprio método de trabalhar, ele deve evoluir, modernizar-se, acompanhar o movimento social do conjunto da sociedade e isso sempre causa uma insegurança. É a busca de uma nova postura, de uma nova identidade, de um novo paradigma. Tudo isso a fim de que possamos ser uma resposta atualizada para o homem e a mulher do século XXI, nesse ano de 2011. Já olhando para frente, para as próximas décadas.

IHU On-Line – Como o senhor interpreta o Brasil de hoje? No que avançamos e quais são ainda os grandes desafios que precisam ser enfrentados?

Dom Guilherme Werlang – Creio que o Brasil tem avançado bastante na conscientização da sua cidadania. Mas nós, de fato, vamos precisar lutar muito, porque nosso país é incipiente, ainda existe muita coisa a fazer para sermos protagonistas e sujeitos na construção de uma nova história. Toda a questão política, toda a questão econômica, é um novo quadro que se desenha aqui. Penso que o grande desafio, em que a Igreja também é chamada a contribuir, é a democratização completa do Estado. Essa democratização se expressa em muitos momentos sociais: a participação plena de todo cidadão, de toda cidadã, brasileiros e brasileiras, na vida política, econômica, social, na educação, saúde, no saberes, na cultura.

Penso que todo esse patrimônio brasileiro deve ser mais democratizado. Isso também significa ser mais participativo. Nós não podemos mais esperar que alguém tome as decisões por nós, seja em Brasília, seja nas capitais ou, de repente, do exterior. Precisamos tomar consciência de que as decisões devem ter sempre a participação de todo o povo brasileiro para que, de fato, o Brasil seja um país para todos e para todas, com direitos iguais, justiça igual, acesso igual de todos aos meios essenciais para a vida e para uma vida digna.

IHU On-Line – Qual é avaliação que o senhor faz do governo Dilma Rousseff?

Dom Guilherme Werlang – Penso que ainda é cedo para nós fazermos uma avaliação do governo Dilma. Com certeza, se alguns esperavam que ela fosse apenas uma continuidade ou uma teleguiada do Lula, se enganou. Muita gente já está vendo que ela tem luz própria e que vai governar, espero, dentro da realidade e no estilo que ela própria deve ter. Existem alguns problemas que ela deve enfrentar, que não estavam postos ao governo anterior, mas são consequências dele. Porque a história, pelo fato de trocar uma presidência, não faz um corte: é uma continuidade.

Tenho muita esperança que ela consiga cada vez mais inserir os pobres na condição digna de vida. Espero que os programas sociais possam ser cada vez mais inclusivos e não exclusivos. Depois, que as políticas públicas possam ser voltadas não mais a passar pequenas esmolas ao povo brasileiro, mas para que haja mais emprego, para que o povo brasileiro possa por meio do seu trabalho ter a dignidade de poder construir as suas próprias vidas sem precisar depender tanto de programas assistencialistas. Os programas assistencialistas devem se tornar cada vez mais políticas públicas. Tenho esperança que, de fato, nós possamos continuar construindo uma nação mais justa e mais fraterna. Não podemos esperar que a presidenta faça isso sozinha, nem ela com os seus ministros ou com os seus governadores, mas que o Brasil seja de todos os brasileiros, construído por todos e todas.

IHU On-Line – À frente das pastorais sociais, quais serão suas prioridades?

Dom Guilherme Werlang – Em primeiro lugar, nós temos que continuar a fazer o que nós já vínhamos trabalhando: ouvir as pastorais sociais, fazer com que todas elas tenham participação ativa na construção da sua própria história. Temos aí a necessidade de organizar e realizar a 5ª Semana Social Brasileira e essa é uma grande tarefa.

Outras questões: nós vamos ter agora em junho a primeira reunião da nova presidência, junto com os 12 bispos das comissões e também o Conselho Permanente. Será aí que iremos compor a comissão que, por enquanto, presido. Então, escolheremos os outros cinco bispos da comissão e, a partir daí, procuraremos trabalhar juntos visando à construção de um programa dentro daquilo que vinha sendo desenhado, sempre olhando e nos perguntando quais são os novos desafios da atualidade. Não posso sozinho apontar quais as metas; nós temos que trabalhar em conjunto, especialmente reunindo as lideranças das pastorais sociais para ouvi-las e, então, fazermos nosso planejamento para frente.

IHU On-Line – Nas pastorais sociais comenta-se que a CNBB nos últimos anos abandonou o protagonismo que exercia junto à sociedade com uma "agenda social", e enveredou-se na defesa de uma "agenda moral". O que o senhor pensa sobre isso?

Dom Guilherme Werlang – Nós que estamos lá dentro não sentimos exatamente isso. As pastorais sociais possuem muitas atividades, têm muitas frentes, continuam muito combativas, muito críticas diante da situação. A forma como são veiculadas as questões é que, muitas vezes, pode parecer mais essa posição. Porém, dentro das pastorais sociais, evidentemente existem crises, como nós abordamos antes. Mas é uma crise de toda a sociedade brasileira que se reflete também dentro da Igreja.

As pastorais sociais tem feito um grande trabalho e nós esperamos que isso possa continuar e intensificar-se cada vez mais. Penso que as pastorais sociais talvez tenham perdido um pouco da visibilidade na mídia diante de outras questões que são abordadas, diante de outras coisas que dominam o noticiário.

IHU On-Line – Já foi definido um novo nome para assessorar a Comissão?

Dom Guilherme Werlang – Estou conversando, consultando. Tenho alguns nomes indicados. Ainda temos que falar com essas pessoas. Alguns dependem de certos fatores. Há padres diocesanos que dependem do seu bispo; há padres de congregações religiosas que precisam conversar com seus superiores. Da mesma forma, na vida religiosa feminina, há irmãs religiosas que precisam conversar com a sua congregação. Por isso, ainda não divulgo tais nomes.

IHU On-Line – Está em curso a preparação de uma 5ª Semana Social Brasileira. O que essa Semana Social pretende abordar?

Dom Guilherme Werlang – Temos previsto para agosto uma primeira reunião, em Brasília, para, de fato, começar a delinear essa 5ª Semana. Seu grande tema, que está sujeito à discussão, é a democratização do Estado brasileiro. Esse é o grande assunto, por enquanto assim colocado. Ainda, porém, não detalhamos tudo.

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