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Proibição da China a milho dos EUA esquenta debate sobre transgênicos

A rigidez da China em relação a importações de milho geneticamente modificado está golpeando a indústria de agronegócios dos Estados Unidos, que se vê impedida de vender grande parte do principal produto agrícola americano no seu mercado de mais rápido crescimento.

A reportagem é de Jacob Bunge, publicada pelo jornal The Wall Street Journal e reproduzida pelo jornal Valor, 14-04-2014.

Desde meados de novembro, a China vem recusando repetidamente os carregamentos de milho dos EUA, afirmando que detectou a presença, em alguns deles, de transgênicos desenvolvidos pela Syngenta AG que não foram aprovados pelo governo chinês.

A devolução dos carregamentos vem prejudicando as grandes negociadoras de grãos, como a Cargill Inc., e gerando frustrações entre executivos americanos com o que chamam de regulamentos obscuros da China, num momento em que aumenta o poder do país asiático como importador. A China é o mercado de milho de mais rápido crescimento do mundo.

Alguns analistas do setor nos EUA suspeitam que a China está usando as preocupações com o produto da Syngenta para ocultar motivações comerciais.

Na primeira avaliação completa do impacto da política chinesa nos EUA, a Associação Nacional de Grãos e Rações afirma que os carregamentos recusados somam cerca de 1,45 milhão de toneladas. O volume é muito maior que as 545.000 toneladas que o governo chinês divulgou e as cerca de 900.000 toneladas mencionadas na mídia.

A proibição das entregas já custou US$ 427 milhões às empresas de grãos, na forma de perda de vendas ou redução de preços na revenda para outros países do produto destinado à China, segundo um relatório da associação, que se baseou em dados das empresas exportadoras.

A entidade afirma ainda que as exportações de milho americano para a China desde janeiro caíram 85% em relação ao mesmo período de 2013, para apenas 171.000 toneladas.

Executivos do setor dizem que o problema vem prejudicando os exportadores americanos numa hora em que enfrentam a concorrência crescente de outros países, como Brasil e Ucrânia.

"É um momento divisor de águas", diz Gary Martin, presidente da Associação Norte-Americana de Exportação de Grãos, que também representa os negociadores de commodities dos EUA e cujos membros contribuíram com dados para o estudo. "É realmente dramático que os EUA não possam fornecer para o mercado chinês."

A Cargill, um das maiores companhias de agronegócios do mundo, afirmou esta semana que as devoluções na China tiveram um peso determinante no declínio de 28% no seu lucro do trimestre mais recente em relação a um ano atrás.

As grandes fornecedoras de sementes, incluindo Syngenta, Monsanto e DuPont Co, geralmente compartilham com empresas de comércio internacional, como Cargill e Archer Daniels Midland Co., o desejo de cultivar e vender o maior número possível de sementes. As negociadoras abraçaram o uso pelos agricultores de sementes geneticamente modificadas, que foram lançadas nos EUA em 1996 e que, segundo seus defensores, ajudam a aumentar a colheita.

Mas as produtoras de sementes e as empresas comerciais estão agora discutindo quem deve arcar com os custos dos carregamentos recusados.

A Associação Norte-Americana de Exportação de Grãos, que inclui a ADM e a Cargill, vem exigindo que as empresas de sementes arquem totalmente com os riscos e responsabilidades de vender seus produtos. Ela também se opõe ao lançamento de novas sementes transgênicas que não tenham aprovação nos principais mercados. Grupos de produtores de grãos pediram que a Syngenta parasse de vender estas sementes até que a China aprove o produto.

A Syngenta não atendeu a esses pedidos e introduziu, neste ano, uma nova semente de milho que a China não aprovou. A empresa não quis comentar sobre quem deve arcar com a responsabilidade financeira pelos carregamentos devolvidos.

O caso ilustra as grandes divergências internacionais sobre sementes geneticamente modificadas, concebidas para torná-las mais resistentes a pragas e certos herbicidas.

Os críticos dizem que o cultivo de plantas geneticamente modificadas causam um aumento no uso de alguns químicos potencialmente prejudiciais à saúde. Alguns países, particularmente na Europa, impõem mais restrições a sementes transgênicas do que os EUA, onde essas sementes são usadas em 90% das culturas de milho.

A China já aprovou alguns tipos de transgênicos, mas seu processo de aprovação leva mais tempo que o de outros países, dizem executivos americanos. A China também permite que as autoridades portuárias recusem um carregamento inteiro de milho caso um único grão tenha um gene não aprovado, dizem exportadores americanos.

A China, há muito um importador considerável de soja, de repente se tornou, também, um grande comprador de milho. O país importou um total estimado de 5 milhões de toneladas de milho estrangeiro no ano passado, comparado com 47.000 toneladas em 2008, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

A China começou a recusar o milho americano em novembro, depois que testes detectaram que alguns carregamentos continham o Agrisure Viptera, uma cepa da Syngenta concebida para produzir proteínas resistentes a pragas como a lagarta do milho.

A Syngenta vem vendendo o Viptera desde 2011 para agricultores nos EUA, Brasil e Argentina, com a aprovação dos governos desses países. A empresa sueca afirmou que solicitou a aprovação do produto à China em 2010.

O Ministério da Agricultura da China informou que está avaliando a solicitação, que estava incompleta. A Syngenta afirmou que enviou informações adicionais em março.

Alguns membros da indústria agrícola dos EUA suspeitam que o governo chinês tem razões comerciais. Autoridades chinesas manifestaram preocupação com a dependência excessiva que o país teria do milho americano, que responde por mais de 90% das importações chinesas do produto. Quase todo o milho consumido na China, porém, é produzido no próprio país, que também registrou uma safra volumosa no ano passado.

"É 100% [raciocínio] econômico", diz Karl Setzer, analista de mercado da cooperativa MaxYield, do Estado de Iowa. "Se a China estivesse sofrendo uma escassez de milho ou realmente precisasse de milho, isso não seria um problema, porque eles provavelmente teriam importado [a variedade da Syngenta] nos últimos três anos."

Um porta-voz da embaixada chinesa nos EUA diz que o país examina suas importações de acordo com leis e regulamentos pertinentes e que o processo de avaliação de sementes geneticamente modificadas "é aberto e transparente".

Cerca de 12% da produção de milho dos EUA é destinada à importação, mas o rápido crescimento da China dá ao país uma influência desproporcional sobre os preços.

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