''O papa tem um projeto claro'', diz o braço direito papal

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10 Abril 2014

Mas aonde esse homem quer ir? Já está bastante claro que Francisco tem um projeto e que os seus movimentos, mesmo os mais simples, não são casuais. Mas não há muitos intérpretes confiáveis, porque, no fundo, Bergoglio continuou sendo um solitário e um tomador de decisões, como ele mesmo reconheceu na recente entrevista a um grupo de jovens belgas: "Fui nomeado superior muito jovem, eu tinha 36 anos, e cometi muitos erros com o autoritarismo. Depois, aprendi que é preciso dialogar, ver o que os outros pensam. Mas não aprendi de uma vez por todas... eu ainda erro". Inevitavelmente, desde que se tornou papa, surgiram bergoglianos como cogumelos, mas as suas exegeses são de pouco fôlego.

A reportagem é de Marco Burini, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 09-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Victor Manuel Fernández, ao invés, é um dos poucos que vale a pena ouvir com atenção. Teólogo, biblista, reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, em Buenos Aires, há muito tempo é um dos homens mais confiáveis de Bergoglio; de fato, assim que pôde, nomeou-o bispo. Uma consagração, em todos os sentidos, do seu braço direito na obra de Aparecida, a última conferência do Celam, em 2007, quando Bergoglio liderou os trabalhos dos bispos latino-americanos, conquistando in loco uma liderança continental que se revelou, depois, decisiva no conclave.

E justamente porque Bergoglio já tinha se tornado um alvo muito grande, como muitas vezes acontece nos ambientes eclesiásticos, os seus inimigos se dedicaram a um dos seus homens de confiança, obstaculizando-o de todas as formas. É o próprio Fernández que conta isso na bela biografia de Elisabetta Piqué, Francesco. Vita e rivoluzione.

Mas Fernández, assim como Bergoglio, não é um vitimista e não arma vinganças. Ao contrário, lendo a sua longa entrevista com Paolo Rodari (Il progetto di Francesco. Dove vuole portare la Chiesa, Ed. Emi), percebe-se a ironia da história – alguns a chamam de Providência – que toma homens praticamente já aposentados (Bergoglio) ou em desgraça (Fernández) e os coloca no centro dos acontecimentos.

E – isso é que é bonito – não os encontra desorientados ou esvaziados, mas sim prontos para ir. Para onde? Para uma reforma da Igreja que Francisco delineou na Evangelii gaudium, e que Fernández resume assim: "Parece- me que o mais importante não é a simplificação das estruturas da Cúria Romana, mas sim o desenvolvimento de formas de participação alternativas (sínodos, conferências episcopais, consultas com os leigos etc.), que, nos últimos anos, foram mais de fachada do que reais".

É evidente que Francisco, continua Fernández, "quer converter a Igreja para que ela se torne um espaço de participação viva e fervorosa, lugar de troca de ideias livre do medo, de conversação amável e sincera, de escuta, onde todos possam se expressar e ser levados em consideração".

A Igreja como lugar de liberdade, porque, como dizia Rahner, "a liberdade não é apenas um método para realizar alguma coisa, mas é simplesmente a coisa mesma". Então, é preciso a paciência de permanecer na coisa, na Igreja como povo de homens e de mulheres livres, sem correr logo para a tradução sociopolítica: a Igreja de baixo, a democracia eclesial e assim por diante.

O fato de que, para se esquivar do controle da opinião pública moldada pela mídia, é preciso uma opinião pública na Igreja, era a tese que o próprio Rahner sustentava nos anos 1960. E que o coirmão jesuíta que se tornou papa traduz nos termos de uma conversação amável, sincera e igualitária. Que se diferencia da fofoca mundana.

Assim como a sinodalidade, palavra-chave da reforma bergogliana, não é imediatamente traduzível por democracia. É, ao invés, uma mudança de perspectiva, recuperar o olhar excêntrico que tinha caracterizado as primeiras comunidades cristãs.

Por outro lado, na sua primeira visita a uma paróquia, no dia 26 de maio passado, o bispo de Roma presenteou um aforismo que esconde um programa de governo: "A realidade é melhor compreendida a partir das periferias, não do centro". Uma intuição amadurecida em anos e anos para cima e para baixo em Buenos Aires, como verdadeiro animal urbano, como padre callejero que, entre uma estação e outra do metrô, além de recolher as confidências dos passageiros e debulhar o rosário, tinha tempo para se concentrar em uma teoria do mundo e da redenção da humanidade variada que o povoa, aquela magicamente descrita nos romances Ernesto Sabato e de Juan Carlos Onetti (muito mais significativos do que Borges, independentemente do que o próprio Bergoglio pense a respeito).

Porque a esse papa, como bem explica Fernández, o que está no seu coração é o povo, a ponto de ter construído ao seu redor uma teologia alternativa às habituais inclinações.

"A teologia do povo se diferencia tanto das análises marxistas quanto dos pontos de vista liberais. Por esse motivo, ela não agrada a nenhuma das duas perspectivas, que a consideram uma espécie de populismo. Quando se trata de atacar a teologia do povo, os marxistas e os liberais de direita encontram-se de acordo", observa o teólogo argentino.

Com efeito, a impressão é de que Bergoglio e os seus já passaram a vida se esquivando de um bipolarismo mortífero que, no fundo, é um jogo de soma zero para um crente que quer pensar com a própria cabeça, em vez de terceirizá-la à ideologia de plantão.

Porém, não se trata – como lembra Francisco na Evangelii gaudium – de ansiar por "uma doutrina monolítica defendida por todos sem nuances", mas sim de apreciar a variedade que "ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho" (n. 40).

E aos adoradores dos monólitos, Fernández reserva este golpe: "Até dois anos atrás, algumas pessoas não aceitariam nenhum tipo de discussão sobre as palavras do papa, enquanto agora se entretêm escrevendo e difundindo todo tipo de crítica sobre o Papa Francisco. Esse não é um olhar de fé, mas sim uma batalha ideológica: eu defendo o papa se ele defende o que eu penso".

Esse papa não agrada? Agrada demais? É um valor negociável ou não? O critério da fé é outro. E não se chama Pedro.

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