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Por: Jonas | 29 Outubro 2013

O arcebispo e reitor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina, Víctor “Tucho” Fernández (foto), é um dos teólogos preferidos do papa Francisco e foi peça chave do então cardeal Jorge Bergoglio para a redação final do documento de Aparecida, em 2007. É uma referência plena da “teologia popular”, elaborada pelos teólogos argentinos Lucio Gera, Juan Carlos Scanone e Rafael “El Viejo” Tello. Nesta entrevista, explica em que se distingue esta linha eclesial da “teologia da libertação”.

 
Fonte: http://goo.gl/qIwhDL  

A entrevista é de Patricio Downes, publicada no sítio Religión Digital, 28-10-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Qual é sua história pessoal com a fé?

Minha fé tem a ver com isso que é invisível aos olhos e que escapa da lógica do interesse ou do consumo. Tem a ver com um sonho de amor e liberdade que eu encontro num rosto humano: Jesus.

Quem mais inspirou sua vida sacerdotal?

O sacerdócio permite unir uma intensa busca de Deus com uma grande dedicação aos demais. Os sacerdotes que me surpreenderam foram aqueles que souberam relacionar estas duas coisas de maneira admirável. Contudo, os testemunhos mais belos que recebi foram dos leigos, sobretudo de algumas mulheres com uma generosidade e uma fé pouco comuns.

Como foi trabalhar com o cardeal Bergoglio, em Aparecida?

Era um espetáculo vê-lo se movimentar em Aparecida, perceber sua capacidade para estabelecer consensos, para criar clima, para provocar confiança. Para mim, que sou ansioso, destaca-se a sua paciência e a sua capacidade para esperar os momentos adequados. Ali, aparece a sua convicção de que, mais do que procurar resultados imediatos, é preciso gerar processos. Em relação ao documento de Aparecida, ele não estava muito preocupado com uma redação impecável, mas que o documento fosse uma síntese de espiritualidade e compromisso social e missionário. Um tema que o inquietava era o da religiosidade popular, porque se preocupava que a Igreja não valorizasse suficientemente a fé e os valores dos pobres.

O que significa a teologia do povo? Por que disse que Francisco possui um “brilho nos olhos” quando usa a palavra povo?

A teologia do povo se diferencia tanto das análises marxistas, como dos olhares liberais. Por isso, não cai bem para nenhuma dessas duas perspectivas. Implica em não considerar os pobres como meros objetos de uma libertação ou de uma educação, mas como sujeitos capazes de pensar com suas próprias categorias, capazes de viver legitimamente a fé da sua maneira, capazes de gerar caminhos a partir de sua própria cultura popular. A expressão “povo” se diferencia da expressão “massa”, porque supõe um sujeito coletivo capaz de gerar processos históricos. Alguém pode contribuir com algo, mas sempre respeitando sua identidade e seu estilo.

Aparecida é uma peça chave no papado de Francisco?

Seguramente. Por duas razões. Porque o documento tem muitas coisas dele, mas também porque ele se deixou interpelar por inquietações que outros bispos expuseram, em Aparecida, e que ele assumiu como próprias.

Uma pintura sobre uma parede, na Itália, saudava e comemorava o “Papa do Concílio Vaticano II”. Se for assim, em que aspecto você percebe mais isto?

O Concílio procurou incentivar uma saída da Igreja para o mundo, sem perder sua identidade, mas, sim, procurando proximidade, diálogo e caminhos fecundos de encontro com todos. Alguém insistiu mais do que este Papa, com palavras e gestos, em que a Igreja precisa sair de si e evitar toda autorreferencialidade?

Nessa linha conciliar, o pontífice Bergoglio avança para uma maior colegialidade?

O acento na colegialidade é outro aspecto típico do Concílio Vaticano II. No meu ponto de vista, esta não se expressa numa comissão consultiva de oito cardeais, mas num processo de necessária descentralização. A respeito dos organismos da Cúria Romana, ele acaba de dizer que “correm o risco de se tornarem organismos de censura” e que “quem deve estudar os casos são as conferências episcopais locais”. Isto possui grandes consequências. Ele disse que o Sínodo dos Bispos deve ser revisado para que seja realmente participativo e, dias depois, substituiu a pessoa que estava responsável desse assunto. Avança sem pressa, mas sem parar.

Quais são as novidades esperadas de Bergoglio como Papa?

Possui os valores de um autêntico líder, que o mundo estava necessitando. Isso também permite que a maioria o escute e o compreenda quando fala de temas que contradizem as tendências culturais atuais.

Por que alguns se irritam com esta teologia do povo ou pelo Espírito Santo atuar no povo?

Há setores da sociedade e da Igreja com uma forte consciência de classe. Sentem pertencer a um setor de pessoas especiais, bem formadas, iluminadas, possuidoras da verdade sobre tudo. Repetem constantemente uma série de slogans com esquemas mentais intocáveis, e apenas por isso acreditam que são os mestres de uma massa inculta e descerebrada, que deveria aplicar o que eles apontam de sua cátedra elevada. Para este tipo de gente, sejam de direita ou de esquerda, é impossível pensar que os pobres tenham algum tipo de sabedoria, alguma verdade, alguma capacidade para opinar, algo a contribuir.

Você mencionou aspectos do Papa como sua “constante e sentida valorização da piedade popular”, a “opção pelos pobres”, uma mudança de linguagem e uma opção mais missionária. A Igreja caminhará nesse rumo?

Não sei. As dificuldades para assumir estes desafios não são intelectuais. Tem a ver, especialmente, com os hábitos pós-modernos. Todos nós estamos preocupados com nossos espaços de tempo livre, comodidade, segurança pessoal, e tanto a proximidade com os pobres como um dinamismo missionário exigem um esforço generoso que muitos não estarão dispostos a assumir.

Haverá um relançamento do Concílio Vaticano II, nesta nova época da Igreja? Houve uma disputa interna na Igreja que o freou por meio século?

Nos últimos anos, houve setores que colocaram um forte acento na segurança doutrinal, na reputação da Igreja e em sua autopreservação, sentindo-se representados por algumas autoridades eclesiais. Para dizer a verdade, os setores que tinham como projeto algo diferente, como o cardeal Bergoglio e tantos outros, foram muito respeitosos com essas opções ou ao menos as acompanharam silenciosamente. No momento, advirto que há setores da Igreja que se sentem ameaçados pelo discurso e o estilo de Francisco, e parece que rapidamente perderam todo o seu afeto com a figura do Papa. Outros setores “conservadores” são mais coerentes, e embora se sintam contrariados em suas próprias inclinações, mantêm um olhar sobrenatural e acolhem as propostas do papa Francisco.

Na mensagem do Papa, o que você diria sobre essas palavras-chave como: “descartáveis, façam agitação, periferias existenciais e deixa-te misericordiar”?

Este Papa usa uma linguagem simples e, além disso, inventa frases e neologismos que não parecem próprios da pureza da língua. Nada disso deve ser interpretado como uma pobreza de conteúdo ou como ausência de reflexão. Qualquer um que o conheceu de perto sabe que sempre foi um homem culto, de pensamento profundo, com um longo olhar que penetra profundo e que cresce na abertura de espírito. Ao mesmo tempo, tem a capacidade de condensar numa frase, num gesto, numa palavra, algo que outros só conseguiriam expressar num alongadíssimo discurso. Isso é próprio dos sábios.

Quando é chamado de “progressista”, isto implica num ataque que os mais conservadores, dentro e fora da Igreja, utilizarão?

Não acredito que a palavra “progressista” seja a mais adequada para interpretá-lo. Em geral, os grandes são difíceis de classificar, porque transcendem os esquemas que os demais usam para entender a realidade. Este Papa é um homem que sempre animou com audácia as novidades, as mudanças, os novos rumos, mas nunca a partir do nada, jamais do vazio. Ao contrário, sabe ver que a história é um húmus, um rico adubo repleto de vitalidade que é preciso continuar explorando. O progressismo puro corre o risco de ficar sem raízes e secar. Outra coisa é mudar e crescer fazendo florescer as melhores novidades a partir daquilo que se recebeu de outros que o precederam e de uma longa história. Esse é o estilo deste Papa.

O que se pode dizer sobre as recentes declarações do Papa a uma revista dos jesuítas?

Por um lado, nessa entrevista, ele não mudou a doutrina da Igreja, porque na realidade continua falando contra o aborto e a favor do matrimônio varão-mulher.  Entretanto, também não se deve tirar a força em relação ao que disse, porque pediu para que não cansemos as pessoas falando sempre desses temas, e que recuperemos um equilíbrio que tenha mais o perfume do Evangelho. A respeito do lugar da mulher na Igreja, ainda não apresentou propostas, mas disse textualmente que é preciso refletir com profundidade “sobre o lugar específico da mulher, inclusive, ali, onde se exercita a autoridade nos vários âmbitos da Igreja”. Colocou o dedo na ferida, porque se referiu ao poder, ao exercício da autoridade por parte da mulher.

Que sacerdotes, religiosos e leigos se espera para esta nova etapa da Igreja? Quer dizer que cada vez será preciso se acomodar menos, como disse Francisco?

Este Papa é um apaixonado por tudo o que seja artesanal, do corpo a corpo, da rede que vai se criando lenta e laboriosamente. Nunca gostou de reuniões e congressos onde se fala longamente acerca do que precisaria ser feito, e menos sobre o que os outros teriam que fazer. Por isso, em Buenos Aires, causava-lhe incômodo as paróquias que faziam grandes organogramas, mas que não atendiam as pessoas ou não iam às ruas e aos lares dos vizinhos. Também não se sente atraído pelos que discutem interminavelmente sem abrir espaço para o nascimento de novos consensos para olhar adiante. Os que se acomodam e não trabalham são para ele os piores inimigos de um bom projeto e do melhor dos sonhos. Seu próprio exemplo nos aponta outro caminho.

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