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Frei Tito de Alencar Lima: plenamente cristão

Nesse momento, em que setores da sociedade voltam a sua atenção para o que significou o golpe civil e militar no Brasil, por ocasião da exibição do filme “Batismo de Sangue”, no último dia 05 de abril, dentro da programação do “Projeto Testemunhos de Fé vistos pelo Cinema”, organizado pelo CEPAT/CJCIAS em parceria com a Pastoral da PUCPR e o IHU, recebemos por intermédio do professor Angelo Ricordi (PUCPR), que foi quem comentou o filme, um depoimento do ex-frei dominicano Paulo Botas, que conviveu com frei Tito. Em sua opinião, Tito “foi plenamente cristão em todas as suas contradições, pois foi um homem que buscou, sem mistificações, a verdade da sua vida e existência pagando o preço das suas escolhas, até as últimas consequências”.

Eis o depoimento.

Conheci e convivi com frei Tito de 1967 a 1971, quando o vi em Paris pela última vez. Ele viveu todos os dilemas do seu tempo. O dilema político, por ter sido simpatizante do Partido Comunista, no Ceará, antes de se converter ao realismo cristão e radicalizar essa conversão na vida religiosa dominicana. Por essa experiência anterior com o Partido Comunista, Tito questionava permanentemente a escolha feita por um grupo de dominicanos de ser um apoio logístico à guerrilha urbana e à luta armada proposta pela Aliança Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. Tito não admitia protelar o confronto das contradições entre a prática de guerrilha urbana e a prática evangélica para um futuro qualquer, como apregoavam pragmaticamente alguns frades integrantes desse grupo de apoio à luta armada.

Viveu o dilema afetivo de calar o seu coração e não confessar a sua paixão pela mulher amada tão próxima a ele no convento das Perdizes. E finalmente viveu o dilema da opção religiosa. No entanto, este, tanto quanto o da ação política, ele os decidiu poucos dias antes de ser preso e barbaramente torturado. Ele já havia resolvido romper tanto com a célula dominicana da ALN quanto com a Ordem Dominicana para tornar-se irmãozinho de Foucault, no Nordeste, radicalizando ainda mais a sua opção religiosa.

Quando estava no Hospital Militar à beira da morte por causa das torturas sofridas e da sua tentativa de aniquilar a sua vida, Tito foi visitado por dom Lucas Moreira Neves, então bispo auxiliar de São Paulo e dominicano como ele. O cardeal de São Paulo, dom Agnello Rossi, estava em Roma. Todos esperavam ansiosos pelo testemunho de dom Lucas sobre as torturas de Tito. No entanto, no seu depoimento à Auditoria Militar, declarou que, “ao visitá-lo, Tito estava bem” e sequer mencionou a sua hospitalização. Justificou-se ao Provincial dos Dominicanos, frei Domingos Maia Leite, que o acompanhara, que “havia sido prudente para preservar as relações da Igreja com o governo militar”...

Na reunião da CNBB, de 1970, dom Candido Padim, que havia escrito uma análise jurídica criticando a Doutrina de Segurança Nacional, exigiu o testemunho de dom Lucas aos bispos presentes, Lucas, mais uma vez omitindo-se da verdade, recusou.

Mas... Tito continuou a trajetória do seu dilema e contradição. Trocado por um embaixador, foi banido do Brasil, exilando-se em Paris. A “Resistência Brasileira no Exílio”, com o consentimento do grupo dominicano, organizou e encontros para que narrasse a sua tortura, detalhe por detalhe, em auditórios repletos de militantes de esquerda, intelectuais e religiosos e religiosas de todos os naipes. Forjavam dessa maneira, aos olhos europeus, uma “Igreja Perseguida no Brasil”, ocultando que os militantes da ALN foram presos por falha de segurança de sua própria organização. Tito internalizava, a cada nova narrativa, seus carrascos e aprofundava a sua dor no exílio e no banimento.

Fragilizado física e psicologicamente, Tito, finalmente, resolveu o dilema da sua existência quando, num ato extremo de coragem e liberdade, fez uma entrega absoluta da sua vida... até a morte, nos campos de um convento dominicano de Lyon.

Ele foi plenamente cristão em todas as suas contradições, pois foi um homem que buscou, sem mistificações, a verdade da sua vida e existência pagando o preço das suas escolhas, até as últimas consequências.

Tito foi simplesmente um homem... sem veleidades de heroísmo nem auréolas de santidade. Que não sejamos nós a trair a sua vida e memória, transformando-o num espectro do que nunca foi e nem poderá ser para atender nossos desejos, frustrações ou aspirações políticas e religiosas.

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