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O que fazemos para garantir segurança alimentar?

"Temos grandes rios de exclusão que, em futuro próximo, machucarão a produção de certos alimentos se não forem conduzidos às nossas mesas por afluentes menos encorpados, que existem em leitos que estamos deixando minguar", escreve Rui Daher, em artigo publicado por Carta Capital, 11-3-2014.

Eis o artigo.

Há 1,3 milhão de famílias assentadas em quase 10.000 projetos de reforma agrária. Contam com nenhum planejamento, pouca ação e focos dispersos de produção.

Apesar de tê-la tangenciado, não estava bem na agricultura familiar o cais de atracação da última coluna.

Muito menos se fosse para tratá-la de forma banal, focando disponibilidade de recursos ou contraposta à agricultura empresarial.

Perfil assim já está consolidado, embora pleno de lacunas. Por temerem os movimentos sociais que reivindicam reforma agrária, federados e confederados ruralistas acharam melhor aceitar a importância do segmento.

Não basta. O tema é multifatorial, complexo, e não pode estar restrito aos 21 bilhões de reais em recursos ou à responsabilidade por 70% dos alimentos produzidos para o mercado interno.

Era outro o caminho pretendido na semana passada: a transposição de produtores de certas culturas agrícolas a quem poderá assumi-las no futuro desta Federação de Corporações, onde há mais de meio século rola desenfreado êxodo, não apenas geográfico, mas também funcional.

Para exaltar conquistas volumétricas, chorar má infraestrutura, denunciar estragos ambientais, há grande oferta entre aparelhos estatais, ex-ministros da Agricultura na FIESP, ONGs e associações empresariais, bem como consultores que opinam na mídia tradicional.

Teclas de grandeza e queixume são marteladas sobre quaisquer partituras, por maus pianistas. O que se mantém imperceptível é o falar sobre homens e mulheres que curvam as costas para colocar plantinhas na terra.

Temos grandes rios de exclusão que, em futuro próximo, machucarão a produção de certos alimentos se não forem conduzidos às nossas mesas por afluentes menos encorpados, que existem em leitos que estamos deixando minguar.

Desde os anos 1960, a população rural largou o campo ou, permanecendo, parou de trabalhar em atividades agrícolas.

Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, entre 1970 e 2006, o pessoal ocupado nas lavouras caiu 7%, enquanto a população brasileira quase dobrou.

As quedas mais significativas foram nas regiões Sul e Sudeste (25%). Maior utilização de tecnologia, avanço na mecanização, concentração em grandes áreas e culturas, expansão urbana, novos empregos, e por aí vai. Nas demais regiões houve pequena ampliação (10%, na média).

No início dos anos 2000, no estado de São Paulo, mais de 50% dos moradores da zona rural não mais se dedicavam às práticas agrícolas.

Não é tendência exclusiva do Brasil, mas nos EUA, Japão e Europa, a sustentação de renda e a fixação regional são mantidas com ajudas diretas e transferências sociais dos governos.

Nesta potência emergente, reclama-se de tais muletas, com o tal do ensinar a pescar em vez de dar o peixe. O país perto do pleno emprego. Vá entender.

Não é, pois, de estranhar quando o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), em seu Censo Escolar, revela que nos últimos 10 anos, mais de 30 mil escolas rurais foram fechadas. Motivos não faltam. Parte está neste texto, parte procurem na má gestão pública e na insensibilidade da iniciativa privada.

Temos contingentes enormes de assentados, outros esperando terras. Poderiam ser dirigidos e apoiados para produzir os alimentos cujo cultivo rareia em razão de profundas mudanças no perfil da sociedade brasileira.

Somente no estado de São Paulo, coordenados pela Fundação Instituto de Terras (ITESP), existem cerca de 200 assentamentos, em área de 250 mil hectares; 90% deles estão lá há mais de 20 anos. Pouco ou nada produzem.

Percorram 200 km, em torno da megalópole São Paulo, onde o cinturão verde amarela a passos largos, e encontrarão assentamentos mambembes, improdutivos, desassistidos, enredados na burocracia de licitações e leilões, a plantarem sabe o quê?

Cana-de-açúcar, meus senhores. Uma das culturas de maior necessidade de tecnologia e mecanização. Coalhada, na outra ponta, de conglomerados compradores.

Segundo o INCRA, há 1,3 milhão de famílias assentadas em quase 10.000 projetos de reforma agrária, nos vários municípios do País. Nenhum planejamento, pouca ação, focos dispersos de produção, distribuição e comercialização. Raras exceções.

O que estamos fazendo para garantir segurança alimentar, senão a dos comedores de commodities?

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