Catolicismo e as mulheres: os ventos da mudança

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07 Março 2014

"Mudar o diálogo e a mentalidade das opiniões da Igreja Católica sobre as mulheres irá atraí-las", escreve Lorena O'Neil, redatora e editora no portal de notícias OZY, em artigo publicado no jornal USA Today, 26-02-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Calcanhar de aquiles na Igreja Católica? Sim, ele tem a forma de uma mulher.

Não há como negar que o humilde Papa Francisco mudou a opinião de algumas pessoas sobre a Igreja para melhor, mas para muitos há ainda aquela questão da igualdade feminina no Vaticano, a saber: Por que as mulheres não podem exercer o sacerdócio também?

Francisco acertou ao afirmar repetidamente o quanto é importante que as mulheres se tornem líderes e tomadoras de decisão na Igreja Católica e o quanto os católicos precisam de uma teologia feminista mais profunda. Ele destacou que “Maria é mais importante do que os apóstolos”. Mas alguns veem nisso apenas retórica, quando se compara com a clareza com que ele afirmou que as mulheres não podem ser ordenadas. 

“Com relação à ordenação de mulheres, a Igreja se pronunciou e disse não”, falou o pontífice enquanto retornava do Brasil. “O Papa João Paulo II assim disse com uma fórmula que foi definitiva. A porta está fechada [nesse sentido]”.

Robert McClory, um correspondente do National Catholic Reporter, declarou que é interessante notar o quanto o Papa Francisco se resguarda ao falar, associando sua fala cautelosamente com João Paulo II. “A porta está fechada e trancada”, diz McClory. “Mas o papa pode abrir a porta, se assim quiser. Ele tem as chaves”.

Então, no que isso resulta? Como o papa irá promover mudanças? De modo bem de devagar. D-e-v-a-g-a-r. (Lembre-se, estamos falando aqui da Igreja Católica...).

“As pessoas dizem: ‘Ora, ele não está ordenando mulheres, portanto tudo isso é irrelevante’. Eu não acho que isso seja irrelevante”, diz Lisa Cahill, professora de teologia e ética na Boston College e autora de “Sex, Gender & Christian Ethics” [Sexo, gênero e ética cristã]. Cahill explica que aquilo que o papa está fazendo reflete uma “mudança mais holística e cultural dentro da Igreja Católica”. Ele não está alterando as leis católicas, mas sim costumes, expectativas e o que é visto como aceitável. Semelhante à forma como vem transformando os bispos.

A ordenação de mulheres pode não estar no topo de sua lista, mas talvez o pontífice esteja considerando-as através de seu foco sobre a pobreza e a fome global. Isso e suficiente?

Pensar sobre este assunto implica falar sobre o papel das mulheres na Igreja e reunir as ideias das pessoas, ou possivelmente nomear mulheres para papéis que tradicionalmente nunca as tiveram à frente. “Eu acho que ele está fazendo uns testes para ver como as pessoas reagem em relação a algumas destas propostas”, diz McClory.

E ele pode estar pesando as preocupações globais, sugere Cahill. Enquanto a ordenação de mulheres é de grande importância para católicos nos EUA e nos países ocidentais como um todo, onde elas são vistas como iguais, este não é o caso na maioria dos demais países em que o catolicismo existe.

A professora de teologia Alice L. Laffey faz observação semelhante num artigo seu, em que diz: “Em todo o mundo, as mulheres e seus filhos constituem a maior porcentagem dos seres humanos que vivem na miséria. A preocupação principal delas não é mulheres ordenadas, mas alimento, saúde, educação e segurança física. A preocupação genuína do papa para as vidas reais dos pobres e sofredores abraça, calorosamente, as mulheres”. Em outras palavras, o pontífice está considerando as mulheres através de seu foco na pobreza global e na fome.

Isso é suficiente? Não seria melhor se pudesse haver mudança mais substantiva, concreta, oficial, como fazer uma mulher cardeal (o que não acontecerá) ou, talvez, seguir nas pegadas do início da era católica e permitir diaconisas? É claro que seria melhor. Na verdade, o Papa Francisco por tantas vezes fala sobre o “serviço” das mulheres, mais do que uns poucos analistas da Igreja observaram, o que pode ser um sinal para um futuro possível (e distante) para as mulheres se tornarem diaconisas, termo que deriva do grego “diakonos”, que significa “servo”.

Por enquanto, os católicos têm que se contentar com mudanças lentas, sutis, que, para dar os créditos ao papa, já estão ocorrendo. Um cardeal norte-americano, Sean O’Malley, recentemente disse que ele e seus colegas estão “ansiosos para ter mais leigos envolvidos, em particular mais mulheres em posição de responsabilidade no Vaticano”.

A retórica continuada do papa e de seus cardeais sobre a importância feminina ajudará a tornar menos surpreendente o ver mulheres em papéis de liderança, uma mudança que estava a caminho mesmo antes do papado atual. E embora o seu pedido por uma teologia feminista mais profunda indique que ele compreende que a doutrina da Igreja sobre os papéis das mulheres esteja fora do compasso, a sua experiência como pastor mostrou-lhe que elas já estão executando operações rotineiras na Igreja, nas escolas confessionais, paróquias e organizações de serviço social.

Uma mudança como esta na liderança dentro da Igreja faz-se importante, especialmente para a saúde futura da instituição. Como diz Cahill, ter mais mulheres líderes mudaria o ambiente. “Há uma cultura neste país em torno da igualdade assim como há certa expectativa quando a isso”, diz Cahill. Pelo fato de que esta cultura não se reflete tanto na igreja, isso acaba afastando as mulheres, em especial as jovens”.

Mudar o diálogo e a mentalidade das opiniões da Igreja Católica sobre as mulheres irá atraí-las, mantê-las na Igreja e criar um ambiente em que a liderança feminina seja aceitável e esperada.

Já é tempo de começarmos a nos perguntar: O que Maria iria fazer se aqui estivesse?

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