O sonho de Francisco. Um catolicismo mais missionário, misericordioso e corajoso

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29 Novembro 2013

Os sonhos podem ser coisas poderosas, especialmente quando articulados por líderes com a capacidade realista de traduzi-los em ação. Esse foi o caso, há 50 anos, do famoso discurso "I Have a Dream", de Martin Luther King Jr., e também parece ser a ambição da nova e contumaz exortação apostólica do Papa FranciscoA alegria do Evangelho.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 26-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com efeito, o documento de 224 páginas, intitulado em latim Evangelii gaudium e divulgado pelo Vaticano nessa terça-feira, é uma declaração de visão sobre o tipo de comunidade que Francisco quer que o catolicismo seja: mais missionário, mais misericordioso e com coragem para mudar.

Francisco começa com um sonho.

"Sonho com uma opção missionária", escreve Francisco, "capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação".

Em particular, Francisco pede uma Igreja marcada por uma paixão especial pelos pobres e pela paz.

O tema da mudança permeia o documento. O papa diz que, ao invés do "temor de falhar", o que a Igreja deve temer vez é "encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis" e "hábitos em que nos sentimos tranquilos".

Embora Francisco tenha divulgado uma carta encíclica intitulada Lumen fidei, em junho, esse texto se baseou amplamente em um esboço elaborado por Bento XVI. A alegria do Evangelho, concebida como uma reflexão sobre o Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização de outubro de 2012, representa, portanto, a verdadeira estreia do novo papa como autor.

A reação inicial sugere que se trata de uma proeza.

O texto desponta com os já familiares flashes da linguagem caseira de Francisco. Descrevendo um tom otimista como uma qualidade cristã definidora, por exemplo, ele escreve que "um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral".

Em outro ponto, Francisco insiste que "a Igreja não é uma alfândega". Ao invés, diz, "é a casa paterna, onde há lugar para todos". Em outro ponto, ele brinca que "o confessionário não deve ser uma câmara de tortura", mas sim "o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível".

Francisco reconhece que realizar o seu sonho irá exigir "uma reforma da Igreja", estipulando que "aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes".

Embora ele não trace um plano abrangente de reforma, ele vai além de meras sugestões no sentido de indicações bastante contundentes de direção:

- Ele pede uma "conversão do papado", dizendo que quer promover "uma saudável descentralização" e admitindo candidamente que, nos últimos anos, " temos avançado pouco" nesse fronte.

- Ele sugere que as conferências episcopais devem receber "um estatuto […] que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal". Com efeito, isso equivaleria a uma reversão de uma decisão do Vaticano em 1998, de João Paulo II, de que somente os bispos individuais em conjunto com o papa, e não as Conferências Episcopais, têm essa autoridade.

- Francisco diz que a Eucaristia "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos", insistindo que "as portas dos sacramentos" não devem "ser fechadas por uma razão qualquer". A sua linguagem poderia ter implicações não só para os católicos divorciados em segunda união, mas também aos pedidos de que se recuse a Eucaristia a políticos ou a outros que não defendam a doutrina da Igreja sobre alguns assuntos.

- Ele pede uma liderança colaborativa, dizendo que bispos e pastores devem usar "organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canônico e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir a todos, e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-lo[s]".

- Francisco critica as forças dentro da Igreja que parecem ansiar por uma "implacável caça às bruxas", perguntando retoricamente: "Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?".

- Ele adverte contra a "cuidado exibicionista" com a liturgia e a doutrina, em oposição a garantir que o Evangelho tenha "uma real inserção" entre as pessoas e envolva "as necessidades concretas da história".

Em duas matérias específicas, no entanto, Francisco exclui a mudança: a ordenação de mulheres ao sacerdócio, embora ele peça "uma presença feminina mais incisiva" em papéis de tomada de decisão, e o aborto.

Francisco diz que, com relação à defesa da vida do nascituro, "não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão", porque ela está "intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano".

A linguagem mais dura do papa vem em uma seção do documento que argumenta que a solidariedade com os pobres e a promoção da paz são elementos constitutivos do que significa ser uma Igreja missionária.

Francisco denuncia o que ele chama de um "confiança vaga e ingênua" no livre mercado, dizendo que, entregue à sua própria sorte, o mercado muitas vezes fomenta uma "cultura do descartável", em que certas categorias de pessoas são vistas como descartáveis. Ele rejeita o que ele descreve como uma "tirania" econômica "invisível, às vezes virtual".

Especificamente, Francisco convida a Igreja a se opor a espalhar a desigualdade de renda e o desemprego, assim como a defender uma maior proteção ambiental, contra os conflitos armados.

No fim, A alegria do Evangelho equivale a um forte apelo por um catolicismo mais missionário, no sentido mais amplo. A alternativa, alerta Francisco, não é agradável.

"Não se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade", escreve. "Isso não é senão um lento suicídio".

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