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28 Novembro 2013

Não há erro algum no fato de que a nova exortação apostólica do Papa FranciscoA alegria do Evangelho”, publicada nesta terça-feira (26 de novembro) pelo Vaticano, equivale a um pedido de mudança bastante abrangente em várias frentes.

O comentário é de John L. Allen Jr. e publicado pelo National Catholic Reporter, 27-11-2013. A tradução de Isaque Correa.

Francisco aponta para uma reforma em diversas áreas, incluindo uma chamada imediata por “conversão do papado” em direção a uma “sensata descentralização”. O que inclui, ao menos, uma inversão aparentemente clara da política anterior: atribuir a autoridade para o ensino às conferências dos bispos, em contrariedade a uma decisão, de 1998, do Papa João Paulo II negando-lhes precisamente tal papel.

No entanto, há um sentido mais profundo em que “A alegria do Evangelho” está em clara continuidade com o predecessor de Francisco, Bento XVI, particularmente em sua encíclica social, de 2009, chamada “Caritas in Veritate”.

Com efeito, ambos os documentos constituem um assalto frontal não à doutrina ou à disciplina católicas, mas na sociologia católica contemporânea.

Bento XVI quis atacar a real divisão existente entre os fiéis Pró-vida da Igreja e seus membros da Justiça e Paz, enquanto Francisco está, agora, desafiando uma outra divisão frequentemente encontrada: aquela entre os católicos mais comprometidos com a nova evangelização e aqueles que se investem no evangelho social.

Para ser claro, nenhuma dessas fraturas tem algo a ver com o ensino católico oficial, com sua doutrina, que na verdade rejeita tanto uma quanto a outra. No entanto, elas têm tudo a ver com a vida real, com o dia a dia dos fiéis.

Tal como aconteceu com a “Caritas in Veritate”, agora os especialistas irão se debruçar sobre o documento “A alegria do Evangelho”, analisando-o profundamente, buscando desfazer o que a linguagem de Francisco possa ter deixado de implícito.

Em ambos os casos, a verdadeira novidade é que estes documentos são atos de síntese, tecendo em conjunto linhagens de pensamento católico, embora normalmente sejam mantidas em separado. Bento XVI insistia na relação orgânica entre o que chamou “ecologia humana”, com o que ele quis dizer o ensino da Igreja sobre questões tais como o aborto e o casamento, e “ecologia natural”, incluindo o meio ambiente. Tal como Francisco repete em “A alegria do Evangelho”, Bento sustentou que defender o nasciturno e defender os pobres são dois lados de uma mesma moeda.

Mais uma vez, o Papa Francisco está tentando fazer a mesma coisa, unindo dois grupos de reflexão e energia normalmente associados a dois ambientes diferentes. No seu caso, são a “Nova Evangelização”, ou seja, o esforço lançado nos anos de João Paulo II para reacender o fogo missionário da Igreja, e o “Evangelho Social”, referindo-se ao engajamento católico com prol dos pobres, imigrantes e do meio ambiente, assim como a sua oposição à guerra, ao comércio de armas, à pena de morte e assim por em diante.

Francisco dedica uma seção inteira de seu texto ao que chama “a dimensão social da evangelização”. “Se esta dimensão não for devidamente explicitada”, escreve o pontífice, “corre-se sempre o risco de desfigurar o sentido a autêntico e integral da missão evangelizadora”, porque “tanto a pregação cristã quanto a vida devem ter um impacto na sociedade”.

O pontífice dá continuidade a suas reflexões, citando passagens bíblicas a respeito da preocupação para com os pobres, e pontualmente conclui: “É uma mensagem é tão clara, tão direta, tão simples e eloquente que nenhuma interpretação hermenêutica tem o direito de relativizar”.

Papa Francisco tem toda a razão em repreender várias das questões que deveriam ser de preocupação especial do cristão, incluindo a crescente desigualdade de renda, o aumento do desemprego e a situação dos migrantes e refugiados. Ele consegue empunhar um tanto de sua língua afiada ao ridicularizar uma “confiança vaga e ingênua” no funcionamento sacralizado do presente sistema econômico dominante e não deixa dúvidas de que os missionários cristãos devem ser agentes de mudança face a esta “cultura do descartável”.

Fazer os pobres se sentirem acolhidos, como se estivessem em casa, diz ele, representa “a maior e mais eficaz apresentação da boa nova do Reino”.

Ao mesmo tempo em que pede por um maior comprometimento com o diálogo ecumênico e inter-religioso, o Papa Francisco está explicitamente enunciando que a evangelização também significa trazer às pessoas a fé de Jesus Cristo.

Escreve o papa: “Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria?”

Eis a questão: a combinação entre proclamar a fé e vivê-la pode parecer natural e convincente. Porém, não é assim que frequentemente as coisas funcionam nas bases da Igreja.

A partir de minha experiência pessoal, posso dizer que se pode gastar muito tempo em conferências e em simpósios sobre a nova evangelização sem ter que ouvir, digamos, sobre a guerra da Síria, sobre os custos humanos da crise na zona do euro, ou mesmo sobre o impacto do aquecimento global. Da mesma forma, podemos participar de um grande encontro de pastoral social sem ter muito presente os sacramentos, ou uma prática da vida de oração, devoções marianas ou crescimento pessoal.

Sem dúvida, isso é uma generalização. Todavia, qualquer um que tenha alguma relação com a Igreja Católica irá reconhecer o cheiro de verdade aí.

Tanto na Renascença católica em apologética e na evangelização quanto no ativismo social da Igreja, os protagonistas consideram, às vezes, que a outra parte está pronta para uma distração. Frequentemente, os evangelizadores dizem que uma organização não governamental (ONG) ou um partido político podem lutar contra o desemprego, mas só a Igreja pode pregar Cristo. Os ativistas sociais respondem, insistindo que a retórica a respeito de um Deus de amor significa pouca coisa àquelas pessoas cujas vidas estejam violadas pela miséria e injustiça.

Do ponto de vista da doutrina católica, ambos estão absolutamente corretos, o que nos leva a perguntar o que eles podem ser capazes de realizar trabalhando juntos. A promoção daquele espírito de causa comum, alguém poderia dizer, é o coração do documento “A alegria do Evangelho”.

João Paulo II costumava invocar a imagem de uma Igreja que “respira com os dois pulmões”, imagem a qual ele usou para falar sobre a unidade entre o cristianismo ocidental e oriental. Bento XVI tentou aplicar isso na relação entre o trabalho do movimento Pró-vida e aquele da justiça social obtendo resultados limitados, devemos acrescentar,

A ambição mais profunda do documento “A alegria do Evangelho” reside no sonho do Papa Francisco de ter uma Igreja que respire com os dois pulmões, no que diz respeito à missão e à justiça, unindo sua preocupação com a pobreza tanto espiritual quanto a de carne e osso. Em certo sentido, o drama deste papado encontra-se na forma como ele pode ser capaz de realizar tudo isso.

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