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O índio é moderno

O notável processo nacional que a Bolívia vive, com um ressurgimento do indígena que segue transformando esse país andino e selvático, em sua estrutura política e sua respiração cultural, não existiria sem o acompanhamento de uma filosofia nova e original baseada no antigo-vivo, nem de uma independente fortaleza de suas ciências sociais. A estela do pensador aimara Fausto Reinaga(1906-1994) é fundamental para compreender o que acontece e o que veio ocorrendo na Bolívia no último quarto do século passado. De formação e militância marxista, em 1960 Reinaga evolui para um pensamento original (A revolução indígena, 1970; O pensamento amáutico, 1978; O pensamento indígena, 1991). Fundador do Partido Indígena Boliviano, estaria sem dúvida orgulhoso do que o seu país conseguiu hoje.

 
Fonte: http://bit.ly/1nhygBE  

A reportagem está publicada no jornal mexicano La Jornada, 11-06-2011. A tradução é de André Langer.

Novos pensadores indígenas e decoloniais, como os sociólogos aimara Esteban Ticona e Silvia Rivera Cusicanqui, são fruto de uma tradição intelectual fortalecida. Ojarasca [suplemento mensagem do La Jornada] apresenta passagens de duas entrevistas recentes com Silvia Rivera Cusicanqui, apenas como uma incitação para os leitores. Provocadora combinação de consciência katarista [referência ao índio insurgente Tupac Katari, que liderou rebelião contra os colonizadores espanhóis no final do século XVIII], anarquismo aimara e feminismo com acento indígena, com a atenção posta em todos as referências contemporâneas. Rivera Cusicanqui (La Paz, 1949) é historiadora, participou da fundação da histórica Oficina de História Oral Andina nos anos 1980. Autora de Oprimidos mas não vencidos, considerado um clássico da sociologia no continente, participa do movimento katarista e das lutas dos cocaleiros. Como se fosse pouco, é professora universitária emérita e comparte cátedra no Programa Andino de Direitos Humanos da Universidade Andina Simón Bolívar, com sede no Equador.

Em uma entrevista publicada na revista madrilense Diagonal, Emma Gascó e Martín Cúneo (24 de maio), perguntam: o que resta da colonização na sociedade boliviana? Silvia Rivera Cusicanqui responde: “Tudo. O senso comum é um senso comum colonizado, incorporou a valorização positiva do europeu e do norte-americano, e a desvalorização do que é próprio. Embora agora isso esteja mudando. As pessoas se sentem orgulhosas de serem indígenas, mas há elementos, como a escola, que não foram realmente repensados, a partir de uma perspectiva de descolonização. Segue havendo reforma educativa, vigente desde 1994, promovida pelo Banco Mundial, dentro de um esquema de multiculturalismo light que não permite uma política para maiorias. Todos esta gente fala das etnicidades como uma questão de minorias. Na Bolívia, em 2001, 62% se identificaram com algum povo indígena”.

Para Rivera, “há uma visão reacionária nas igrejas, escolas, universidades e na classe política em geral, que têm uma distância cotidiana do mundo indígena”. E embora as expressões “mais brutais de racismo quase sempre são guardadas, há formas sutis que se podem detectar na linguagem, no gesto, coisas relacionadas com a invisibilidade”. Isso dá “uma pauta da internalização do racismo” na Bolívia. “Nos próprios setores populares, que sofreram discriminação na infância, procuram que seus filhos já não falem o aimara e encaminham-nos para uma modernidade entre aspas. Esta situação está mudando, não é tão grave como há alguns anos. Há uma resistência maior, maior capacidade de opor-se a esses maus-tratos cotidianos: as trabalhadoras do lar se organizaram, há muitíssimas empresas comunitárias, camponesas, exportadoras de quinoa, lã, alpaca, que são ‘comunários’ indígenas. Há também uma valorização maior dos saberes indígenas e, sobretudo, dos alimentos e do enorme potencial que a Bolívia tem no cuidado agroecológico da terra”.

Apesar de ser uma crítica consistente e contínua do atual governo do presidente Evo Morales, reconhece: “Este momento é um guarda-chuva que nos protege da chuva ácida neoliberal e permite que cada qual faça o seu. Há muita prática da micropolítica, coletivos contraculturais de todo tipo, publicações, hip-hop, reciclagem, quantidade de pequenas iniciativas autogestionárias, populares, que são o que mais vale deste processo que estamos vivendo. Antes isso era pouco menos que trabalhar na clandestinidade. Atualmente, podes também protestar, fazer mudar um ‘gasolinazo’. Existe a percepção de que há um poder em nossas mãos, que é o da sociedade sobre o Estado”. Não obstante estes avanços, “o colonialismo econômico é avassalador, porque as transnacionais fazem o que bem entendem” no país andino.

Os entrevistadores aludem a um escrito da autora que vincula o colonialismo à introdução do patriarcado nas culturas originárias, uma ideia estimulante: “Os sistemas de parentesco do tempo incaico eram bilaterais: havia uma esfera masculina e uma esfera feminina do poder, também do estatal”. Isso era “uma simetria baseada em assimetrias complementares, o que indica que o equilíbrio de gênero é um ideal, não uma realidade”.

“A esfera paralela da ritualidade feminina é a que mais sobreviveu, porque os mais controlados na época colonial eram os varões. Além disso, a visão patriarcal dos colonizadores, justamente ao tornar invisível a mulher e pensar que só há um representante da família, de algum modo deixou que as mulheres fizessem suas coisas. Daí que houve uma capacidade de resistir ao patriarcado mediante esta ideia de complementaridade. Agora, isso foi se deteriorando paulatinamente. Eu penso que o sindicalismo e as visões territorialistas da questão indígena são as que estão reforçando essa estrutura patriarcal. As mulheres se casam dentro da unidade da patrilinhagem e deixam sua comunidade.

“Por definição as mulheres tecem relações interculturais com outras comunidades, ao passo que o varão e sua leitura da identidade encontram-se no território. A mulher é a que tira e coloca cultura, é um tecido. O homem guerreiro e a mulher tecedora. Então, o tecido intercultural da mulher permite essas alianças panindígenas e também populares e indígenas, não apenas corporativas da comunidade. Mas esse patriarcado é muito forte no sindicato, e os sindicatos agora mesmo são muito fortes no governo.”

“É mais fácil ser índio do que ser mulher. O machismo está muito mais internalizado nas organizações populares, nas juntas de vizinhos, nos sindicatos, na própria organização indígena. Tu podes ser dirigente apenas enquanto és esposa de um dirigente. Para as mulheres sozinhas não há lugar, coisa que existe nas comunidades. Ao nível da base há mulheres que ocupam o cargo de mallku, o cargo de máxima autoridade, mas nas cúpulas isso já não acontece. O patriarcado é profundo, muito vinculado ao colonialismo. A descolonização tem a ver com repensar todas as relações, também as de hierarquia e a opressão das mulheres pelos homens, que é uma das mais profundas e de maior duração.”

Em agosto de 2010, Verónica Gago, do jornal argentino Página/12, interrogava a socióloga aimara sobre sua proposta de opor a imagem do mestiço, masculino e letrado outra forma de mestiçagem, que chama de ch’íxi. O que isso significa?

“Primeiro, que o índio é moderno”, respondeu Rivera Cusicanqui. “O índio como episteme para entender o mundo, o índio como sintaxe. Pode estar vestida/o como for, mas sua cabeça, sua forma de te olhar nos olhos, sua forma de se relacionar com a família, seus deveres morais em relação à Pacha, suas mínimas orientações no espaço, seguem sendo índias. O mais provável é que essa pessoa esteja vestida com roupa de grife, embora pirateada, falsa. A economia de roupa de grife pirata é realmente fantástica na Bolívia e cobre o mercado no Peru e na Argentina.

“É preciso pensar as estratégias do ilegal, porque o que está equivocado são as fronteiras; está-se vivendo uma reedição do mercado interior potosino do século XVI, a primeira modernidade de mãos dadas com a coca, a prata e as mulheres indígenas”.

Este é seu argumento historicista, disse: “Meu argumento político tem a ver com as comunidades transnacionais de identidade onde logo se reinventa o ser índio/a e de personagem desprezado e sofrido, seus filhos passam a ser outra coisa: começam a dançar ‘diablada’ [dança dos demônios, típica da região de Oruro] do outro lado da fronteira, apesar de que sigam sendo burlados em ambos os lados. Como o grupo Los Mercenarios, que tocam rock, dançam ‘diablada’ e são aimaras nascidos em Buenos Aires. Na Argentina são considerados bolivianos e na Bolívia, infratores das regras do folclore nacional. Estas coisas nunca serão entendidas pelo discurso do originário. Se pensa em uma etnicidade de museu, vai perder 99% dos índios que realmente existem”.

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