Vacaria busca argentinos e índios para colheita da maçã

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14 Fevereiro 2014

Os quase dez quilos de erva-mate trazidos na bagagem serão o ponto de contato mais próximo com a terra natal que o grupo de 40 argentinos que desembarcou na semana passada no Rio Grande do Sul terá até meados de março. Eles chegaram a Vacaria, quase na fronteira com Santa Catarina, para trabalhar como safristas nos pomares de maçãs em um dos principais polos de produção da fruta no país. A alguns quilômetros daqui, em uma das três fazendas da Rasip, o braço agrícola do Grupo Randon, parte dos 275 índios trazidos de aldeias do Mato Grosso do Sul já estão a campo, ainda reconhecendo o novo terreno e aprendendo que a brutalidade no corte da cana, função pela qual praticamente todos passaram, não se aplica na colheita de maçãs.

A reportagem é de Bettina Barros, publicada pelo jornal Valor, 13-02-2014.

Índios e argentinos são figuras inéditas na colheita em Vacaria. Com dificuldade em atrair mão de obra para os pomares, o município enfrenta mais uma safra difícil, com um déficit em torno de 15 mil trabalhadores - um quarto da população local. Por razões que vão do desinteresse dos jovens pelo trabalho braçal até a migração para a construção civil e a atratividade dos benefícios ao desempregado, a escassez de gente fez com que os recrutadores das fazendas fossem cada vez mais longe encontrar trabalhadores para esta safra.

"Até os anos 80 contratávamos só gente de Vacaria. Nos anos 90, partimos para Rio Grande do Sul, depois Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Agora temos de ir além", diz Celso Zancan, diretor da Rasip, terceira maior produtora da maçãs do Rio Grande do Sul. Para a safra 2013/14, que começou a ser colhida semana passada, foram contratados 1.152 colhedores para os mil hectares de pomares - entre eles os 275 índios das etnias Terena e Guarani- Kaiowá, de Dourados e redondezas.

Com apenas 87 hectares plantados, o argentino Carlos Pozed, há 30 anos no Brasil, resolveu trazer compatriotas. Houve dois anos de "namoro" com o sindicato dos trabalhadores rurais de Missiones, na Argentina, diz ele. O primeiro ônibus veio na terça-feira passada com 40 homens. Outro ônibus fretado com igual número de pessoas está previsto para chegar em breve, o que deve suprir a maior parte dos 150 trabalhadores temporários necessários. "Tive de trazer três representantes do sindicato argentino para que eles vissem com os próprios olhos que a gente precisa de mão de obra aqui", diz.

A escolha por argentinos foi facilitada pela conjuntura atual argentina e, em especial, de Missiones. A 600 quilômetros de distância de Vacaria, a província tem sentido mais acentuadamente as turbulências econômicas do país. Com forte base na produção de erva-mate, Missiones vem perdendo produtores depois que o governo de Cristina Kirchner tabelou os preços da bebida. Com teto de preço e inflação alta, muitos preferiram deixar de plantar e buscar outra alternativa de renda. Ou seja: sobra mão de obra na província.

"Enfrentamos um desemprego de 10% em Missiones, acima da média nacional de 7%", afirma o argentino Rodolfo Maximiliano Gigena. "O Brasil é atualmente para os argentinos o que os Estados Unidos são para mexicanos", diz.

A mão de obra externa não chega a estranhar a quem é de Vacaria. De acordo com produtores, o município gaúcho é o terceiro maior empregador do país no mês de fevereiro, quando a colheita da maçã atinge seu ápice. O próprio Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município confirma que a cidade não tem condições de oferecer anualmente 15 mil pessoas para a colheita da maçã. "Todos os anos tem que trazer gente de fora", diz Anita Boschi, do departamento de assalariados do sindicato.

Um dos motivos que leva a isso é a própria característica da cultura. Há hoje no Brasil basicamente duas variedades da fruta - Gala e Fuji, que respondem por 95% da oferta nacional. O problema é que elas são colhidas só entre o início de fevereiro e meados de abril. Isso leva a uma demanda concentrada e alta de trabalhadores para um curto período. No resto do ano a necessidade cai e fica em 4 mil a 5 mil trabalhadores, no máximo.

"Como não é possível manter todos trabalhando por mais tempo, as pessoas não têm interesse nos pomares", afirma Leandro Bortoluz, presidente da Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã (Agapomi). "Outro problema é que o trabalhador não quer ser registrado só por 45 dias [o contrato padrão da safra da maçã]. Ele prefere continuar recebendo o seguro-desemprego. Isso atrapalha muito".

Segundo José Bueno, coordenador do Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Vacaria, há, de fato, casos de disponibilidade de empregados para cargos em aberto. Ele não cita números, mas diz que a implantação do novo sistema do Sine no Rio Grande do Sul, em 2010, tende a amenizar essa questão. "Antes, a pessoa chegava aqui para protocolar o pedido de seguro-desemprego e não era possível checar se havia vaga na área dela. Agora essa verificação de oferta e demanda é imediata, online. Se há vaga, já encaminhamos o trabalhador para o emprego", diz ele.

O êxodo para as cidades maiores - um fenômeno global -, o aumento da área plantada com pomares no município (de 10 mil hectares para 14 mil hectares em uma década) e o aquecimento da economia brasileira também ajudam a explicar o quadro. "O sujeito sabe que se não trabalha em pomar, encontra outra coisa fácil. A construção civil levou muita gente", diz o argentino Pozed, ecoando a percepção generalizada entre fruticultores de Vacaria.

Como toda migração de mão de obra, Vacaria contabiliza benefícios e malefícios. Sem os safristas de fora, a colheita da maçã do município, de quase 250 milhões de toneladas e responsável por 24% da oferta nacional, apodreceria nos pomares. Com eles, o custo da produção sobe um pouco mais com o transporte - ida e volta à cidade natal, uma exigência legal - e regulamentação de documentos. "E a cada ano, o problema se repete. A taxa de retorno na safra seguinte é inferior a 50%", diz Zancan, da Rasip. "A agricultura se torna cada vez mais a última opção para o trabalhador".

A chegada dos safristas de fora, no entanto, mostra que trata-se de uma questão de referência. Em seu primeiro dia de trabalho, o terena Telino Machado, o Techo, explicou ao Valor que chegou a Vacaria porque ouviu de outros índios que o "emprego é bom". Acostumado ao trabalho do corte de cana desde os 13 anos, ele diz que lidar com maçãs é mais fácil. "No corte da cana o pessoal não respeita muito. E aqui faz mais dinheiro", diz ele.

Segundo a Agapomi, os colhedores recebem, em média, um salário fixo de R$ 850 mais bonificação por produtividade. Se for um bom colhedor, o rendimento pode chegar a R$ 1.500, R$ 1.700. "Na cana a gente nunca receberia isso", diz Techo. No caso dos argentinos, o negócio é mais interessante: com o câmbio favorável, cada R$ 1 mil recebidos nos pomares equivalem a 4 mil pesos depois da fronteira.

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