Relatório da ONU sobre os abusos na Igreja: uma oportunidade perdida. Artigo de Thomas Reese

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10 Fevereiro 2014

O relatório da Comissão da ONU ignora o que o Vaticano tem feito para melhorar as coisas. O Papa Bento XVI fez da tolerância zero a lei universal da Igreja. Teria sido legítimo por parte da comissão perguntar se as políticas da Igreja estão, de fato, sendo aplicadas e se os bispos que não as seguem estão sendo responsabilizados.

A opinião é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, jornalista, em artigo publicado no sítio National Catholic Reporter, 07-02-14. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O relatório da comissão da ONU sobre o papel do Vaticano nos abusos sexuais foi uma oportunidade perdida. Ele poderia ter sido uma peça importante na melhoria da imagem da Igreja na conduta dos casos de abuso sexual; em vez disso, foi uma verborragia editorial.

Qualquer análise da crise dos abusos sexuais precisa fazer três coisas: 1) analisar os fatos históricos de abuso sexual e como eles foram conduzidos pela Igreja; 2) analisar as políticas e os procedimentos em vigor e como eles estão sendo aplicados; e 3) fazer recomendações para melhorias.

O relatório da Comissão sobre os Direitos da Criança da ONU, assim como muitos outros exames da crise, ignora o trabalho duro da etapa 2, o que significa que as recomendações do passo 3 são inúteis.

Quando se trata do registro histórico, a Igreja merece ser repreendida. Ela passou por pelo menos três fases para responder sobre os padres abusadores, sendo que todas revelaram-se desastrosas.

Primeiro, foi a negação. Padres e bispos simplesmente não podiam acreditar que o abuso ocorreu. "Como pode alguém que eu conheço e com quem trabalho ter feito uma coisa tão terrível?" As vítimas não receberam crédito. Agora nós sabemos que a esmagadora maioria das acusações eram verdadeiras.

A segunda etapa tem a ver com o fato de tratar o abuso sexual como um pecado: exigir o arrependimento e a promessa de reforma. Afinal, somos uma Igreja do perdão. Pensou-se que, se o sacerdote fosse afastado da "tentação", indo para outra paróquia, o problema estaria resolvido. Em vez disso, muitos sacerdotes encontraram outras crianças para vitimar e abusar novamente. Em outras palavras, os bispos responderam ao sacerdote pastoralmente, mas ignoraram o risco para as crianças.

A terceira etapa foi lidar com o abuso como um problema psicológico que pudesse ser curado. Os sacerdotes foram enviados para aconselhamento e terapia. Psicólogos incompetentes asseguraram aos bispos que eles poderiam curar os sacerdotes. Eles argumentaram que era essencial, se o processo de terapia fosse dar certo, que os sacerdotes tivessem a chance de voltar ao ministério. Eles tentaram imitar o modelo bem-sucedido de tratar sacerdotes alcoólatras.

Muitos sacerdotes, de fato, pararam de abusar, mas ninguém podia dizer com certeza quais sacerdotes eram confiáveis e quais não eram confiáveis. Embora uma taxa de reincidência de 10% pode ser considerada como um êxito extraordinário no sistema de justiça criminal, ela não é boa o suficiente quando falamos de colocar crianças em risco. Tolerância zero é a única opção segura.

Ao mesmo tempo em que a Igreja estava respondendo inadequadamente aos sacerdotes, ela também estava respondendo inadequadamente às vítimas em pelo menos três maneiras.

O primeiro erro foi ver as vítimas como um problema financeiro. Temendo prejuízos financeiros enormes, os bispos ouviram os advogados e companhias de seguros, que ameaçaram não pagar a diocese a menos que a diocese seguisse as suas estratégias legais. Esses temores eram reais, como se pode ver pelos bilhões pagos em indenizações e pelas 11 dioceses que tiveram que entrar em falência. Infelizmente, enquanto alguns veem esses pagamentos como forma de punir os bispos, na verdade, eles só puniram os doadores diocesanos e as pessoas que podiam ter sido ajudadas com esse dinheiro. Nenhum bispo jamais ficou sem uma refeição por causa de pagamentos.

Mas, novamente, a incompetente assessoria jurídica piorou as coisas. "Não fale com a vítima. Não se desculpe. Bloqueie. Encubra tudo. Ataque a credibilidade da vítima." Muitas vítimas - que teriam resolvido tudo com um pedido de desculpas, com ajuda na cobertura do custo da terapia, e a garantia de que outras crianças não seriam feridas – ficaram ainda mais furiosas pela forma que foram tratadas pela diocese. Elas procuraram advogados para processar.

O segundo erro foi enxergar o abuso como um escândalo. Bispos sabiam que os paroquianos ficariam chocados e horrorizados se descobrissem que seu sacerdote era um agressor. Os meios de comunicação iriam transmitir essas histórias por toda a diocese e talvez até mesmo por todo o país. Isso iria desafiar a fé das pessoas na bondade e na sabedoria do clero. Isso poderia reduzir doações.

Mas, novamente, os bispos pioraram as coisas. Ao invés de expor tudo de uma vez só, as más notícias ficaram gotejando ao longo dos anos de modo que as pessoas eram constantemente lembradas da crise dos abusos. Toda vez que você pensava que tinha acabado, mais informações vinham à tona. Mesmo que a maioria dos casos fosse antiga, parecia que a igreja ainda não tinha se dado conta.

O terceiro erro foi ver a crise dos abusos como uma luta pelo poder. Aqui, os bispos viam a "mídia secular e liberal", que se opunha aos bispos nas questões do aborto, casamento gay e contracepção, como uma tentativa de destruir a igreja. Eles viam os procuradores e políticos como que tentando interferir no funcionamento da igreja. Eles viam os advogados das vítimas como aqueles que estavam enchendo os bolsos com grandes pagamentos. Eles viam os católicos liberais insistindo com os assuntos sobre padres casados, mulheres sacerdotes e reformas democráticas na igreja.

Ver a crise como uma luta pelo poder tornou quase impossível para a Igreja fazer a coisa sensata: fazer um bispo admitir seus erros, assumir total responsabilidade e renunciar. A renúncia era vista como uma vitória para os advogados, para a mídia e para aqueles que queriam mudar as práticas da Igreja. Em vez de fazer o melhor para a Igreja, os bispos esperaram até que sua credibilidade estivesse destruída, tornando impossível para a igreja se curar.

Tudo isso foi devastador, especialmente para as crianças que foram abusadas e para as vítimas mal tratadas pela Igreja, mas também foi devastador para a própria Igreja.

Mas o relatório da comissão da ONU ignora o que o Vaticano tem feito para melhorar as coisas. O Papa Bento XVI fez da tolerância zero a lei universal da Igreja. Isso significa que se um padre estiver envolvido no abuso de uma criança ele nunca mais poderá atuar como um sacerdote novamente. Nos dois últimos anos de seu papado, cerca de 400 padres foram demitidos do sacerdócio. Além disso, as igrejas locais devem seguir as leis locais e denunciar o abuso às autoridades civis. O Papa Bento XVI também ordenou que cada conferência episcopal do mundo elaborasse políticas e procedimentos para lidar com casos de abuso sexual.

Teria sido legítimo por parte da comissão perguntar se as políticas da Igreja estão, de fato, sendo aplicadas e se os bispos que não as seguem estão sendo responsabilizados.

Por exemplo, o bispo Robert Finn, de Kansas, Missouri, foi condenado em tribunal por não denunciar um padre. Ele está ainda no cargo. A Conferência Episcopal Italiana decidiu não exigir dos bispos em denunciar padres abusadores às autoridades. Ela deveria dizer para que eles o fizessem. E algumas conferências episcopais não cumpriram o prazo para a apresentação de suas políticas e procedimentos para a revisão. Foi bom que o Papa Bento XVI estabelecesse melhores políticas para a igreja, mas agora o Vaticano precisa ter certeza de que os bispos as estão seguindo.

Além disso, é legítimo perguntar o que mais deveria ser feito. Mais transparência certamente deveria estar no topo da lista.

Em dezembro, o Papa Francisco anunciou a formação de uma comissão internacional para estudar a crise dos abusos sexuais e para que fosse feita uma lista das melhores práticas a serem tomadas. Compartilhar as melhores práticas é uma excelente ideia de forma que o resto da Igreja possa aprender com a Igreja dos EUA e não cometer os mesmos erros que esta última cometeu. Nos primeiros tempos da crise, os europeus pensavam que o abuso sexual era um problema americano. Então, quando ele atingiu a Irlanda e a Inglaterra, ele foi rotulado como um problema "de língua inglesa". Em seguida, ele atingiu os países de língua alemã. Foi trágico assistir todos os bispos desses países repetir os erros dos bispos norte-americanos.

Hoje, temo que os bispos da América Latina e da África achem que isso é um problema "de primeiro mundo". Eles estão prontos para cometer os mesmos erros novamente. Eles dizem não saber de muitas vítimas. Nem os bispos dos Estados Unidos até a década de 1990. Eles precisam ser proativos e não esperar até que o problema exploda sobre eles.

Reconhecer que a Igreja está trabalhando melhor hoje não diminui sua responsabilidade pelo terrível trabalho que fez no passado. Também não significa que não deve procurar constantemente por melhores formas de responder aos abusos dos padres.

O relatório de 16 páginas da comissão da ONU é muito fácil de ser desconsiderado porque foi mal feito. Ele ainda disse que a Igreja deveria usar seu poder para fazer os pais católicos pararem de espancar seus filhos ou de não ouvi-los. Ao tocar em questões como aborto, controle de natalidade e homossexualidade, o relatório só colabora com aqueles na Igreja que se opõem a lidar com esta crise.

O relatório será, sem dúvida, o golpe fatal de qualquer possibilidade de obter que a Convenção sobre os Direitos da Criança seja ratificada pelo senado dos EUA. Isso mesmo, a comissão estava repreendendo o Vaticano sobre uma convenção internacional que os EUA não ratificaram.

O Vaticano poderia ter argumentado legitimamente que, como signatário da convenção, só é responsável por fazer cumprir a convenção no território do estado da Cidade do Vaticano, onde as únicas crianças são os filhos de oficiais da Guarda Suíça. Embora essa resposta seria tecnicamente precisa, considerando o registro passado da Igreja, uma réplica desse tipo simplesmente não colaria.

Tenho orgulho de trabalhar para um jornal que, desde meados da década de 1980, é o líder em expor essa crise na Igreja. Reconhecer melhorias não é desculpa para o passado, nem significa que uma vigilância contínua não é mais necessária. Eu fui enganado muitas vezes no passado por ter sido assegurado de que a Igreja tinha tudo sob controle. Mas seguir em frente agora exige uma melhor análise e melhores recomendações do que aquelas que estavam no relatório da comissão da ONU.

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