Bispo é acusado em Kansas, Missouri, por não denunciar abuso

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18 Outubro 2011

Um bispo da Igreja Católica Romana foi indiciado por não denunciar uma suspeita de abuso infantil. Essa é a primeira vez nos 25 anos de história de escândalos de abusos sexuais clericais que o líder de uma diocese norte-americana foi penalmente responsabilizado pelo comportamento de um padre que ele supervisionava.

A reportagem é de A. G. Sulzberger e Laurie Goodstein, publicada no jornal The New York Times, 14-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O indiciamento do bispo Robert W. Finn (foto) e da Diocese de Kansas City-St. Joseph por um júri do condado foi anunciada na sexta-feira. Ele foi acusado de um delito menor envolvendo um padre acusado de tirar fotos pornográficas de meninas recentemente, ainda em 2011. Ambos se declararam inocentes.

O caso causou um alvoroço entre os católicos de Kansas City neste ano, quando Dom Finn reconheceu ter conhecimento das fotografias em dezembro passado, mas não as entregou à polícia até maio. Durante esse tempo, afirma-se que o padre Shawn Ratigan continuou participando de eventos da Igreja com crianças e tirou fotos lascivas de outra jovem.

Uma década atrás, os bispos norte-americanos comprometeram-se a denunciar abusadores suspeitos às autoridades – uma política também recomendada no ano passado pelo Vaticano. O próprio Dom Finn tinha feito tal promessa há três anos como parte de um acordo legal de 10 milhões de dólares com vítimas de abuso de Kansas City.

Embora a acusação seja apenas de uma contravenção, os defensores das vítimas saudaram imediatamente a acusação como um avanço, dizendo que até agora os bispos norte-americanos evitaram a instauração de processos, apesar de os documentos mostrarem que, em alguns casos, eles estavam cientes do abuso.

"Isso é fantástico para nós", disse Michael Hunter, diretor do capítulo de Kansas City da Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Padres (SNAP, na sigla em inglês) e vítima de abuso sexual por um padre. "É algo que eu pessoalmente esperava ver há anos, alguma responsabilização real. Estamos muito satisfeitos que o advogado de acusação daqui teve a coragem de fazer isso". O bispo sinalizou que iria lutar contra as acusações com todas as suas forças. Ele disse em um comunicado: "Iremos de encontro a esses anúncios com uma resolução firme e uma defesa vigorosa".

A acusação anunciada na sexta-feira pela promotora do condado de Jackson, Jean Peters Baker, estava sob sigilo desde o dia 6 de outubro, porque o bispo estava fora do país. Ele retornou na quinta-feira à noite.

Em uma coletiva de imprensa, Baker disse que o caso não possuía motivos religiosos, mas tinha a ver com a obrigação sob a lei estadual de denunciar o abuso de crianças. "Trata-se de proteger as crianças", disse ela.

Se for condenado, Dom Finn enfrentará uma eventual multa de até 1.000 dólares e uma pena de prisão de até um ano. A diocese enfrenta uma eventual multa de até 5.000 dólares.

O padre acusado de tirar as fotos lascivas, Pe. Ratigan, era uma presença frequente em uma escola católica elementar perto de sua paróquia. O diretor enviou uma carta à diocese em maio de 2010 reclamando sobre o comportamento do Pe. Ratigan com as crianças. Então, em dezembro passado, um técnico de informática descobriu as fotos no laptop do padre e levou o computador à diocese. Um dia depois, o Pe. Ratigan tentou se matar.

A diocese disse que um membro do clero, Mons. Robert Murphy, descreveu – mas não entregou – uma foto de uma menina, nua da cintura para baixo, para um policial que atuava em um órgão independente de revisão dos abusos sexuais para a diocese. O oficial disse que, com base na descrição, a foto poderia corresponder à definição de pornografia infantil, mas ele não achava que iria corresponder, disse a diocese.

Dom Finn mandou o Pe. Ratigan viver em um convento e lhe disse para evitar o contato com menores. Mas até maio o sacerdote havia participado de festas infantis, passado fins de semana nas casas das famílias da paróquia, organizado uma caça aos ovos na Páscoa e presidido, com a permissão do bispo, a Primeira Comunhão de uma menina, de acordo com entrevistas com os paroquianos e uma ação cível movida pela família de uma vítima.

Os pais da escola e os paroquianos – informados apenas de que o padre havia adoecido por envenenamento por monóxido de carbono – ficaram surpresos quando ele foi preso em maio, depois de a diocese ter chamado a polícia. Ele foi indiciado por um júri federal acusado de tirar fotos indecentes de meninas.

O novo indiciamento divulgado na sexta-feira diz que o Dom Finn e a diocese tinham razões para suspeitar de que o Pe. Ratigan poderia sujeitar uma criança a abusos.

Ele citava o "conhecimento prévio das preocupações referentes ao Pe. Ratigan e às crianças; a descoberta de centenas de fotografias de crianças no laptop do Pe. Ratigan, incluindo uma vagina nua de uma criança, imagens de saias levantadas e imagens focadas em virilhas; e violações de restrições impostas ao Pe. Ratigan".

Dom Finn disse em sua declaração na sexta-feira que ele e a diocese haviam prestado "total cooperação" às autoridades. Ele também indicou os passos que havia tomado desde que o escândalo havia se tornado público, incluindo o comissionamento de um relatório para analisar o caso e o reforço dos procedimentos para lidar com as denúncias de abuso.

Esse relatório havia descoberto que a diocese não seguiu seus próprios procedimentos. Ele também revelou que Dom Finn era "muito propenso a confiar" no Pe. Ratigan.

O caso gerou fúria contra o bispo, um ferrenho conservador teológico que já era uma figura polarizadora em sua diocese. Desde que o caso Ratigan veio à tona, houve pedidos generalizados para que ele renunciasse.

O que contribuía para o sentimento de traição era o fato de que, há apenas três anos, Dom Finn negociou ações judiciais com 47 denunciantes em casos de abuso sexual por um valor de 10 milhões e concordou com uma lista de 19 medidas preventivas, entre elas a denúncia imediata de qualquer pessoa suspeita de ser um pedófilo às autoridades policiais e judiciais.

A França pode ser o único país onde um bispo tenha sido condenado por sua incapacidade de supervisionar um padre acusado de abuso, disse Terrence McKiernan, presidente do sítio BishopAccountability.org, um grupo de defesa das vítimas que acompanha casos de abuso.

Um grande júri da Filadélfia indiciou uma autoridade dessa arquidiocese, Mons. William Lynn, por ter fracasso no tratamento dado a casos de abuso. O ex-arcebispo, o cardeal Anthony Bevilacqua, não foi indiciado, mas foi chamado a depor.

 

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