As primeiras afetadas. Resposta da Associação de Mulheres Católicas Feministas Cristãs ao questionário do Sínodo sobre a Família

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Por: André | 24 Janeiro 2014

Consideramos muito positivo o fato de que o Papa Francisco queira que se pergunte a todas as Igrejas locais e que todos os crentes falem, debatam abertamente sobre estes temas; de modo especial, consideramos positivo, e certamente uma novidade cheia de esperanças, que as primeiras afetadas, as famílias, possam ter uma palavra não dirigida nem interpretada sobre estes temas, aos quais, por outro lado, se alude sem eufemismos e sem tabus.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Eclesalia, 17-01-2014. A tradução é de André Langer.

Queremos oferecer a nossa resposta enquanto Associação de Mulheres Teólogas Feministas Cristãs, aceitando com esperança o convite do Papa Francisco. Responderemos por capítulos.

1. Conhecimento dos documentos do Magistério da Igreja em relação à família

A maioria dos crentes considera que os documentos do Magistério sobre a realidade familiar são escritos distantes, irreais, auto-referenciais, com uma linguagem pomposa e vazia; documentos feitos a partir de posições dogmáticas rígidas, desconectadas da realidade familiar que seus autores desconhecem, documentos em que há mais condenações que orientações plausíveis e permeadas de esperança.

Os obstáculos ou fatores de dificuldade que impedem a recepção do Magistério e da doutrina da Igreja não são tanto os fatores culturais, como se diz, quanto os que se encontram na própria estrutura eclesial. A maioria dos cristãos pensa que falta, a estes documentos e seus autores, experiência e envolvimento na vida familiar direta e que estão muito distantes da vida diária na qual as famílias têm que lutar e resolver situações dolorosas, difíceis e angustiantes. A maioria dos cristãos não encontra nestes documentos nem luz nem ajuda para suas vidas e seus problemas reais.

Na maioria destes documentos, utiliza-se as Escrituras de forma descontextualizada e desconhecedora dos estudos histórico-críticos; é utilizada para apoiar certas posturas dogmáticas prévias que acabam por tornar inócua a palavra nova e crítica do Evangelho e se vacina contra qualquer questionamento profético e crítico. Muitas vezes, esse uso descontextualizado das citações da Escritura segue a letra e trai o espírito da boa notícia do Evangelho, como quando se apela ao Evangelho para proibir o divórcio em qualquer caso. Algumas vezes, na prática, esse uso descontextualizado das Escrituras é pernicioso para as mulheres no que se refere ao seu lugar na família, na comunidade e na Igreja. Um exemplo é o uso dos códigos domésticos sem menção alguma ao contexto cultural em que surgiram (Ef 5,21-6,9; Col 3,18-4,1; 1 Tm 2,8-15; Tt 2,1-10; 1 Pd 2,13-3,7).

2. Casamento segundo a lei natural

Continua-se utilizando o conceito de lei natural, quando este conceito é muito discutido há décadas. Uma lei natural interpretada a partir de uma filosofia concreta que está em franca discussão, inclusive na teologia católica. Faz-se necessário uma discussão e revisão desta categoria e sua substituição por uma mais adequada, que consiga reunir a capacidade e a iniciativa humana, posta por Deus no ser humano, e a presença divina na sua criação.

O ser humano, ao longo da história, não deixa de mostrar que o processo, a criação, a busca, a superação, a melhoria, o ensaio e o erro fazem parte da sua natureza humana, das circunstâncias nas quais vai se fazendo, nas quais vai melhorando; e é na história, com o que ela tem de provisória, onde se realiza ou se destrói. É verdade que o ser humano pode ofuscar essa imagem de Deus que os crentes acreditamos que está em cada pessoa, mas também é verdade que não pode deixar de buscar e provar, porque deixaria de ser humana.

Aplicado este tema ao casamento e à família é preciso dizer que o casamento é uma instituição que foi se modificando ao longo do tempo e que, ainda hoje, é culturalmente diversa. Como é do conhecimento de todos, no seu princípio, o cristianismo aceitou as formas culturais do casamento de cada lugar.

Detectamos, nos documentos eclesiais e em suas práticas pastorais, uma ideia muito fechada e estreita do que é e deve ser a família. Pensamos que seria melhor olhar primeiro a realidade da “família” e ver que é múltipla, diversa e em transformação. A “família” evoluiu muito em suas formas e em sua problemática e não é possível aproximar-se dela a partir de um padrão que pertence a outra época, na qual houve tipos de famílias diferentes, com aspectos positivos, mas com outros muito negativos. As famílias atuais são plurais em suas formas e, nem sempre, as formas mais tradicionais procuram pessoas mais saudáveis. Há casamentos feitos no religioso que são um inferno; a violência machista se dá em lares tradicionais, ao passo que em outros lares menos tradicionais há amor, respeito, valores humanos e cristãos. O segredo não parece ser a adequação às normas “tradicionais” (tradição que costuma ser um horizonte temporal bem limitado). É necessário detectar os ambientes familiares e as circunstâncias que fazem dos lares lugares de crescimento, de abertura aos outros e sementeira de valores humanos e cristãos.

Observar a realidade múltipla da família deveria abrir a mente e conceber de outra maneira o modelo familiar, ampliar os esquemas que se têm sobre o que é e deveria ser uma família, repensar o que é o mais importante que se possa exigir para dizer que estamos diante de uma família de verdade; algo que fez, na realidade, a maioria das mães e pais, avós e avôs, aos quais coube mudar seu modelo familiar, aquele em que foram educados e socializados; aprenderam a detectar possibilidades e perigos. Eles aceitam, caso virem amor e responsabilidade, que seus filhos/as vivam sem se casarem ou que se casem no civil; aceitam o casamento homossexual de seus filhos (por que não chamá-los de casamentos, se veem neles os mesmos sentimentos e responsabilidades que nos seus próprios?). Querem apaixonadamente os seus netos/as tidos e adotados por estes casais.

A sociedade deixou de ser hipócrita em relação aos filhos de mães solteiras, às relações extra-matrimoniais ou homossexuais. Majoritariamente, sabe-se diferenciar quando algo é sério e quando não é, quando faz bem às pessoas e quando as destrói.

3. A pastoral no contexto da evangelização

Fez-se um esforço na preparação para o casamento, mas as circunstâncias profissionais e sociais não permitem determinados horários. O ideal seria um tratamento mais personalizado.

Acreditamos que se faz necessário uma reflexão conjunta que parta da realidade das famílias, com a consciência de que estamos em um mundo diferente ao de há meio século, um mundo com seus perigos e com suas grandes possibilidades; é necessário que as famílias, todas elas, tenham uma palavra real para dizer.

A transmissão da fé deve contar com as mudanças da sociedade, com os obstáculos e as oportunidades. Hoje não se pode tratar os filhos como eram tratados em épocas passadas, nas quais o cabeça da família era pai e patrão. É necessária a vivência dos valores cristãos, mas estes podem ser vividos de formas diversas e com acentos diversos. É preciso ajudar as famílias a encontrar caminhos para transmitir os valores evangélicos aos mais jovens.

Pensamos que este é também o trabalho de toda a comunidade cristã, pois, atualmente, os filhos buscam por sua própria conta, ultrapassando os limites do lar familiar. Talvez a coisa mais importante seja dar-lhes uma socialização com uma base sólida nos valores do Evangelho e uma sensibilidade para as necessidades dos mais desfavorecidos, ajudando-os a abrir-se a Deus. Na sociedade atual, não se pode conceber a vida de fé familiar da mesma forma que há 50-70 anos. É preciso diferenciar o fundamental e nuclear que constrói a pessoa, como pessoa humana e cristã, das formas mais anedóticas.

A melhor maneira de transmitir a fé é o exemplo do casal que se quer e se abre aos outros, que é uma linguagem que todo o mundo entende.

4. Pastoral em situações matrimoniais difíceis

A pastoral pode aprender de mães, pais, avós e avôs que aprenderam a aplicar critérios de amor, plenitude, alegria, humanização, acolhida, inclusividade, etc., nas relações ou em modelos familiares não comuns para o esquema tradicional (filhos casados, separados ou divorciados e recasados, com filhos de outro parceiro ou parceira que aprendem a conviver e a se quererem acima dos vínculos de sangue; filhos homossexuais casados e com filhos adotados, pelos quais se sacrificam e que crescem felizes..., filhos adotados ou acolhidos que são queridos e cuidados da mesma forma que os naturais.). Estes pais e mães, avós e avôs que mudaram seus esquemas tradicionais de família partem da realidade e do critério evangélico e profundamente humano: “por seus frutos os conhecereis”. Querem o melhor para os seus filhos/as e isso os leva a enfrentarem com abertura as mudanças e as novas realidades familiares. Mudanças que, em muitos casos, têm as mães como agentes de mudança social, conciliadoras de situações comprometidas, acolhedoras de filhos e filhas em suas opções pessoais, por mais que difiram das próprias expectativas.

Há situações de violência ou não entendimento que levam e aconselham a dissolução do vínculo matrimonial. O melhor seria facilitar uma situação na qual pudessem refazer suas vidas. Não se pode negar os sacramentos às pessoas divorciadas, separadas e recasadas, quando isso não se faz nem com os violadores, os ditadores ou os defraudadores.

5. Uniões com pessoas do mesmo sexo

A primeira coisa a ser feita é escutar a quem se declara homossexual e crente. Escutar estas pessoas e casais com respeito, mente e coração abertos. Escutar o que necessitam e depois fazer planos juntos. É ruim a prática do “tudo para eles, mas sem eles”, tanto para os casais e famílias do mesmo sexo, como para todas as demais situações. Cada vez mais, esta realidade deixa de estar escondida e vem à tona.

A maioria dos batizados, nas democracias ocidentais, aceita a união de casais do mesmo sexo, embora alguns possam mostrar reticências à sua consideração matrimonial ou à sua capacidade de adotar filhos. Caso crermos na graça do sacramento, não se pode negá-lo a quem o pede, máxime quando dizemos que Deus é amor e o amor gerador de vida de muitos casais do mesmo sexo é evidente.

6. Educação dos filhos em situações matrimoniais irregulares

A educação que se dá aos filhos em situações matrimoniais complexas pode ser boa ou ruim ou regular, como no caso das famílias com uma situação menos complexa. Um exemplo: um casal composto por uma separada e um divorciado (de união civil), cada um com um filho de um casamento anterior e com outro em comum, é uma família que começa a ser normal. A vida familiar é, normalmente, de respeito, carinho, solidariedade entre todas elas, educação em valores... provavelmente, o único problema pode ser o tratamento de “irregulares” que tenham que levar como um “estigma”, que devem carregar e que às vezes se usa, precisamente, em ambientes religiosos (leia-se colégios religiosos) para colocar empecilhos à admissão das crianças. Pode haver famílias do tipo da do exemplo que sejam um desastre, é verdade, mas também há famílias abençoadas com o sacramento do matrimônio e papel passado que são um ninho de violência e desumanidade e que não educam os seus filhos nos valores do Evangelho. E o mesmo poderíamos aplicar aos casais que não se casaram ou que o fizeram no civil e às famílias do mesmo sexo.

7. Abertura dos cônjuges à vida

Paulo VI publicou a Humanae Vitae desconsiderando as consultas feitas aos especialistas. É um dos temas que mais afastou os católicos do Magistério. A publicação da Humanae Vitae representou um antes e um depois, já que os leigos decidem diante de Deus e sua consciência os filhos que podem e querem ter e, para isso, utilizam todos os métodos ao seu alcance. O desconhecimento da realidade familiar, os pressupostos filosóficos dos quais parte tornam-na realmente insuficiente e falida. O Magistério deveria confiar mais nos adultos e na generosidade da imensa maioria dos casais e não imiscuir-se em sua consciência.

Segue existindo no Magistério uma concepção negativa da sexualidade que procede de épocas anteriores nas quais primava uma antropologia e uma filosofia muito concretas.

É urgente revisar a ideia de que a sexualidade é apenas válida com vistas à procriação. A sexualidade faz parte do ser humano e contribui para a sua plenitude. A abertura à vida dos esposos pode dar-se e se dá de múltiplas formas. É verdade que alguns casais não querem ter filhos, mas há também muitíssimos que fazem grandes esforços para tê-los. Por outro lado, os casais que, por diversas causas – nem sempre por vontade – não têm filhos podem ser e são casais abertos à vida. A fecundidade não é apenas física; a plenitude que procede da vida de casal, na que a sexualidade é um elemento fundamental e não apenas um meio para procriação, expande-se de múltiplas formas para o bem dos outros, da sociedade.

Seria melhor aceitar o sentir dos fiéis batizados que agem em consciência.

8. Outros desafios e respostas

Muitos perigos que afetam a vida familiar procedem da pobreza ou da violência machista da que são vítimas principalmente as mulheres e as crianças. A Igreja deve denunciar e lutar contra este mal em sua atitude, em sua pastoral... Nada em sua pastoral deve legitimar o domínio ou a superioridade do varão sobre a mulher. Deve revisar toda a sua catequese, ritos, orações... que justifiquem ou legitimem estas condutas. A violência contra as mulheres é um flagelo que se cozinha nas famílias.

As políticas neoliberais, que sobrecarregam os mais fracos, dificultarão significativamente o trabalho dos pais para dar um lar, educação, saúde adequados para os seus filhos. Quantos filhos poderão ter nesta situação que se está criando? É fácil acusar o egoísmo quando não se sabe o que é passar noites em claro e ir trabalhar no dia seguinte, porque a redução da jornada de trabalho é quase um pedido de demissão, nem se sabe os números que se deverão fazer para pagar os livros do colégio ou chegar ao final do mês com um salário de 1.200 euros, com sorte. As leis, na verdade, não apóiam as famílias.

Surpreende o fato de que as perguntas não façam referência às mulheres nem aludam à violência que se exerce contra elas nas famílias (anualmente são cerca de 100 mulheres que são assassinadas, só na Espanha). Dá a impressão de que o temário foi construído a partir de uma visão masculina.

Seria preciso perguntar se o modelo de família que a Igreja apresenta segue estando vigente em muitos países. A mulher, mãe, assexuada, anjo do lar sempre presente, sem espaço, necessidades nem vontade próprias, não reflete a realidade atual das democracias ocidentais.

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