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Por: Jonas | 20 Dezembro 2013

Francisco é um ícone jornalístico em concordância com os tempos atuais, em que os gestos estimulam uma enorme fascinação e em que a midiatização é a cultura corrente na vida política. Como no catolicismo, os símbolos e as imagens estão no centro da política contemporânea. Palavras e cenas, facilmente reproduzidas no mundo digital, atraem mais a atenção do que questões doutrinais ou análises das práticas financeiras do Vaticano”, analisa Silvio Waisbord, professor na Escola de Mídias e Assuntos Públicos, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, em artigo publicado pelo jornal Página/12, 18-12-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Desde que seu fundador Henry Luce decidiu que a revista Time elegeria “o homem do ano”, em 1927, reflexo de sua própria atração pelo poder que aspirava pertencer, a seleção tornou-se um forte termômetro de opções jornalísticas. A eleição do papa Francisco reflete a predisposição da imprensa norte-americana em decifrar o mundo com uma chave própria. Raras vezes a cobertura internacional é uma oportunidade para entender o mundo em sua complexidade, porque reflete principalmente preocupações locais. É uma visão “sobre nós” mais que “sobre outros”; é um sintoma do acostumado umbiguismo que projeta interesses particulares sobre o mundo, mais do que em explorar sua diversidade.

A seleção de Francisco se encaixa nestes parâmetros. A revista Time justifica a decisão porque o Papa mudou “o tom e o temperamento” da conversa sobre temas contemporâneos. Mais do que um diálogo global, esta é uma “conversação” (ou monólogos em estéreo) da “guerra cultural” que absorve os Estados Unidos há décadas. As palavras do Pontífice sobre o aborto, a homossexualidade ou a ordenação sacerdotal de mulheres atraíram enorme atenção em razão de sua ressonância em temas centrais no debate norte-americano.

Suas expressões foram utilizadas para levar água para diferentes moinhos políticos. A esquerda reivindica pronunciamentos papais sobre o casamento igualitário, a invasão dos direitos reprodutivos e o impacto dos escândalos sexuais da Igreja como confirmação de seus argumentos. Ressalta a humildade de Francisco frente à ostentação e a petulância dos líderes contemporâneos; agradece sua compaixão diante da falta de humanidade do mundo atual. Diz-se que até os ateus rezam pelo Papa. A direita cultural, ao contrário, especialmente seus figurões midiáticos, como Rush Limbaugh e Glenn Beck, desacreditam sua autoridade e o chamam de “marxista”. A direita mercantilista desmereceu a crítica franciscana das desigualdades sociais e do consumismo, fazendo brilhar seu dogma preferido a respeito do capitalismo: sua inesgotável e exuberante criação de riqueza.

Pesquisas recentes confirmam a enorme popularidade do Papa para além do público católico. Uma alta porcentagem de pessoas de diversas filiações religiosas e posições políticas possui uma opinião favorável. Sua “imagem positiva” não apenas supera consideravelmente Bento XVI, mas é notavelmente mais alta entre aqueles que têm simpatias pela esquerda. Essa crescente popularidade não se traduz, no momento, em um aumento da participação na missa, em um país com alto índice de participação nos serviços religiosos, se comparado com os padrões do mundo ocidental.

Essa percepção pública coincide com a cobertura positiva de Francisco no mainstream dos meios de comunicação como “o Papa do povo”. Esse não é um dado menor em um país onde a Igreja Católica foi historicamente objeto de notícias negativas, seja pelo preconceito estendido ou, mais recentemente, pela sucessão de escândalos de abusos sexuais. Poder-se-ia entender esse tom como reflexo das simpatias “liberais” (no sentido anglo-americano da palavra) em temas sociais do jornalismo, como costumam insistir os críticos da direita. Tal leitura esquece que o jornalismo está mais interessado em “fatos que geram notícias” e em símbolos do poder, do que em questões de catecismo ou políticas da Santa Sé, e que é propenso a sentimentalismos populistas que dissimulam sua obsessão pelas elites.

Francisco é um ícone jornalístico em concordância com os tempos atuais, em que os gestos estimulam uma enorme fascinação e em que a midiatização é a cultura corrente na vida política. Como no catolicismo, os símbolos e as imagens estão no centro da política contemporânea. Palavras e cenas, facilmente reproduzidas no mundo digital, atraem mais a atenção do que questões doutrinais ou análises das práticas financeiras do Vaticano. Qualquer reforma da Igreja, tema de corrente especulação, circula pelos trilhos de forma mais lenta do que a vertigem da cobertura noticiosa.

Os gestos do Papa absorvem a cobertura midiática: são o centro de intermináveis exegeses de observadores armados com o manual do Barthes básico. Os sinais de uma nova sensibilidade papal, da humildade pessoal à misericórdia, foram objetos de longas e entusiasmadas leituras. Interpretar símbolos não requer conhecimento profundo da doutrina católica. Consciente da onipresente lógica midiática, o Vaticano produziu constantes “eventos noticiosos” à medida do jornalismo obcecado pela política simbólica da mão de Greg Burke (aclamado como o “gênio” das relações públicas papais). A imprensa que o Pontífice critica ferrenhamente por fazer a cobertura da Bolsa e ignorar pessoas que morrem de frio é a mesma imprensa atraída pelos símbolos, mais do que por questões profundas sobre o catecismo ou as reformas financeiras. Resta ver se o jornalismo manterá a mesma atenção, assim que diminuir a novidade dos sinais dados por Francisco.

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