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14 Novembro 2013

Em um anúncio de televisão veiculado atualmente, duas crianças desenham suas famílias. Uma delas desenha papai, mamãe e seus irmãos, todos com celulares colados ao ouvido. O que o comercial quer transmitir é uma oferta com acesso ilimitado ao celular. Use o celular o quanto quiser! E-mail, vídeos, Facebook, Instagram, WhatsApp!

A reportagem foi publicada pelo jornal El País, reproduzida pelo Portal Uol, 13-11-2013.

Passamos muitas horas colados a uma tela. Por trabalho, mas cada vez mais por prazer, porque é útil para nos comunicarmos, nossa prioridade. Comprovar se recebemos uma nova mensagem eletrônica (coisa que costumamos fazer várias vezes por dia, obsessão recentemente batizada de "infobesidade"), manter várias conversas em grupo pelo WhatsApp, consultar confissões e notícias através do Facebook, Twitter e outras redes sociais...

E o fazemos a todo momento: enquanto vemos televisão, comemos ou mesmo em plena sessão de teatro (alguns teatros optam às vezes por permitir o uso do celular durante a apresentação para que compartilhem o que veem nas redes sociais). Todos (ou a maioria) caímos vítimas do influxo digital. Os menores também.  Nos EUA e na Alemanha, os adolescentes passam 7,5 horas diárias usando meios digitais.

Alguns autores alertaram sobre os efeitos que esses processos têm na mente. Foi o que fez Nicholas Carr, que decidiu abandonar a vida ultrainformada e mudou-se para as montanhas do Colorado, onde não havia telefonia celular e a Internet pegava mal, com sua obra "Superficiais: o que a Internet está fazendo com nossas mentes" (editada em espanhol pela Taurus, 2011). E também Manfred Spitzer, diretor da Clínica Psiquiátrica Universitária de Ulm e do Centro de Transferência de Conhecimentos para os Neurônios e a Aprendizagem, com a Demência Digit@l.

O primeiro resumiu assim os efeitos da Internet sobre si mesmo: "Perco o sossego e o fio, começo a pensar que outra coisa fazer. Sinto-me como se estivesse sempre arrastando meu cérebro descentralizado de volta ao texto. A leitura profunda que costumava vir naturalmente se transformou em um esforço". Isso está acontecendo com mais pessoas? É difícil para você mergulhar em um livro, ou deixou de fazê-lo para verificar suas mensagens no Facebook? Spitzer, por sua vez, escreve o seguinte em seu livro (editado em espanhol pela Ediciones Barragán): "A afirmação de que a competência nas novas tecnologias tem uma correspondente repercussão positiva não foi absolutamente demonstrada até agora. Também é idiota que justamente a neurociência suspeite do contrário. E alguns estudos demonstram que o cérebro cresce justamente onde é mais utilizado. E o anunciado ao contrário também é válido. Se não se utilizar o cérebro, ele se atrofia".

Spitzer preocupa-se com como o aumento da tecnologia afeta o cérebro das crianças. Sua opinião é que ter mais acesso a essas telas não lhes é benéfico: "A utilização de computadores em idades muito precoces na creche pode motivar transtornos de atenção, e em uma idade posterior, ainda em idade pré-escolar, pode levar a transtornos da leitura".

Na Federação de Editores da Espanha, porém, não creem que os menores leiam menos. "Diante do tópico generalizado, é o setor mais leitor", diz Antonio Maria Ávila, secretário da federação, cujo Anuário 2012 conclui que 84,6% dos menores leem em seu tempo livre. "E é lógico que estão 100% escolarizados. Mas há dois tipos de leitura, uma prática e outra mais descontraída. O que acontece ao ler digitalmente, através de um tablet ou do computador, é que a pessoa sente mais necessidade de comentar o que lê com todos os que puder".

Eva Martín, madrilenha de 13 anos, concorda com Ávila. Ela joga Minecraft no computador, usa "muito" o Facebook e o Twitter, mas também lê quase todas as noites um livro na cama. "Tenho tempo para ler e me comunicar com o WhatsApp. São coisas diferentes. Gosto de mergulhar na leitura. Agora estou lendo 'As Lágrimas de Shiva', que é misterioso e interessante. Pediram no colégio. E escrevi um conto de 28 páginas sobre um menino que encontra um anel mágico que é a porta para uma casa muito estranha."

Nota-se a mudança nas escolas? Segundo Amparo Torralbo, professora de língua e literatura no colégio Joaquín Araujo, de Fuenlabrada, nota-se a mudança em sua maneira de escrever. "Lembro-me da primeira vez que vi 'catalão' escrito com k. 'Que burrice!', pensei. Vemos erros enormes que podem se dever às novas tecnologias e vejo que afeta os meninos, sua expressão, porque logo colocam uma abreviatura".

Em troca, mantém o nível de leitura, afirma a professora. "Leem o mesmo que antes, mas de outra maneira, o 'baixam' em vez de comprar o livro fisicamente. Mudam o suporte. Mas que leiam ou não depende mais de seus gostos e interesses. Embora muitos tenham uma dependência total do celular." Torralbo tem um filho adolescente que gosta de jogar videogame e, como muitos pais, ela lhe impôs limites: só pode jogar no fim de semana.

Adriana Díaz, 24 anos, lê diretamente do celular. "Se enxerga pior que no papel, mas... é uma novela leve do tipo '50 tons de cinza' que me recomendaram". Díaz dá outra pista: confessa que tem dificuldade para ver um filme inteiro. "É porque duram duas horas, fica difícil manter a atenção... Um seriado passa mais rápido. Creio que perdemos a capacidade de nos concentrar. Tudo se tornou mais rápido, mais em pequenas pílulas."

José Antonio Luengo, psicólogo educacional, dá aulas de técnicas de comunicação em educação na faculdade Camilo José Cela e diz que, embora a crença generalizada seja que estamos piorando, ele não acredita. "É verdade que nossas crianças passam muito tempo presas às telas e aos tablets. Basicamente estão desenvolvendo procedimentos de comunicação diferentes dos comuns, mas que também são importantes. O importante, o que devemos estudar, é se na escola se introduz e se trabalha de forma eficaz na interpretação de textos e na escrita em formato digital. É importante que continuem manipulando o livro em papel, e disso depende que na educação primária leiam textos e façam resumos. Isso se faz e vai continuar sendo feito na escola."

Não é preciso olhar para outro lado porque os adolescentes vivem na era digital e se comunicam com todo mundo, opina Luengo. O especialista acredita que as escolas têm um desafio, que é ensinar habilidades para a leitura digital. "O professor tem que saber que é uma série de habilidades que ele pode aprender. Essa é uma disciplina também para o docente, e para a qual não estamos suficientemente formados."

Apesar de tudo, Luengo acredita que a mudança não está afetando a capacidade de leitura dos mais jovens. "Sim, estão lendo, mesmo que seja no Facebook, adquirindo as chaves da leitura. E creio que nossas crianças quando elaboram um texto ou fazem um comentário estão pondo suas ideias em preto no branco. O que acontece é que na tela a leitura profunda é incompleta. O problema é que passamos tempo demais nesse tipo de leitura e dedicamos menos à mais sossegada.

A captura não igual quando se lê uma página em papel sem interrupções. Na leitura digital há uma certa dispersão. Você vai de uma tela para outra, o texto o leva a um vídeo e depois a um mapa e a concentração é menor, embora a quantidade de leitura seja maior."

Segundo os especialistas, há um novo fenômeno que afeta cada vez mais pessoas: a atenção parcial contínua. É o que ocorre quando passamos muito tempo diante de uma tela, "que estamos pendentes de muitas coisas, mas sem chegar a concretizar nada", descreve Luengo.

Para lutar contra o fenômeno, ele acredita que devemos buscar um equilíbrio. "O livro em papel nos permite uma vida interior que é indispensável viver e que não é tão fácil de experimentar quando se está diante de uma tela que permite ir de um lugar a outro. É preciso equilibrar a abordagem dos textos. Porque a incapacidade que estamos observando nos alunos os impede de ter esse mundo interior. É importante que interpretem bem o que leem. Digo-lhes 'concentrem-se e leiam, mas voltem à página original e façam anotações do que leram'."

Isidro Moreno, professor de tecnologias da informação e da comunicação na Faculdade de Educação da Universidade Complutense de Madri, inclui uma nova referência: o conhecimento "puzzle". "A Internet e todos os dispositivos móveis fazem com que os jovens interpretem o mundo mediados pelas tecnologias, cria-se um conhecimento puzzle ou uma sociedade mosaico. Meus alunos manipulam os meios com bastante soltura, mas ficam só na parte externa dos meios, não se aprofundam. Não têm tempo, ninguém os preparou e os professores não estão preparados para ver o que há por trás."

"Tudo isso vai em detrimento da leitura clássica, tradicional", continua Moreno. "Mas falta-nos tempo e sossego para sentarmos e ler. E quando se facilita para os mais jovens eles o fazem, mas é preciso facilitar que essa situação ocorra e criar neles a necessidade. Por sorte os jovens são muito inteligentes."

Na Fundação Sánchez Ruipérez fizeram vários estudos (dos quais participaram 300 pessoas) sobre o impacto da leitura digital em menores e adultos. "Desde 2008 defendo que o digital vai mudar a forma de ler", diz Luis González, diretor a fundação, que explica suas conclusões: "Esta fundação crê que o importante não é obcecar-se por quantas pessoas leem. Todos os estudos nos dizem que as crianças leem mais hoje que as de dez, 20 ou 30 anos atrás, tanto em número de livros como em frequência. As pessoas que leem livros eletrônicos dedicam mais tempo a ler que antes. Depois, no caso dos tablets, há outro componente positivo, é que conecta uns com outros, ao contrário dos livros confinados. A desvantagem é que, ao ter a Internet no tablet, aparecem comunicações continuamente e me distraio. A partir de agora vamos ter vários tipos de leitura: uma leitura de navegação muito superficial e essa forma de folhear vai se transferir para a leitura de livros digitais. E depois haverá uma leitura mais pausada".

González lembra da primeira vez que leu em um Kindle: "Sublinhei uma frase e o aparelho me informou que 17 pessoas no mundo tinham sublinhado a mesma frase. Pareceu-me muito poderoso e preocupante".

Ele também se refere à necessidade de buscar um equilíbrio. "A leitura profunda é fundamental porque gera uma capacidade de abstração muito maior, o obriga a manter um conceito ao longo de muitas páginas. Se nos dedicamos só ao imediato, nos desvalorizamos como leitores. Eu hoje me defino como um leitor pós-digital. Pessoas que assumimos isto e nos reencontramos com a leitura no verão nos entregamos a uma leitura mais luxuosa e prazenteira do que quando só tínhamos o papel."

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