A abertura dos ortodoxos de Moscou

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Por: Caroline | 09 Novembro 2013

No final de novembro, será a quarta vez que Vladimir Putin visitará o Vaticano, desde o ano 2000. Contudo, o encontro com Francisco (que ainda não foi confirmado oficialmente por Moscou, limitando-se a se referir a certos “acordos pendentes”) já despertou um enorme interesse e curiosidade. Passados 20 anos, a relação com a Santa Sé continua tensa, e talvez Moscou espere que um Pontífice inovador como Bergoglio (que, por vir do Novo Mundo, pode parecer mais distante dos rancores da Guerra Fria) possa ser o homem que leve a uma cautelosa mudança.

A reportagem é de Anna Zafesova, publicada por Vatican Insider, 08-11-2013. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/Praxyx  

Esta esperança pode ser interpretada a partir das linhas da mensagem de felicitações que o Patriarca de toda a Rússia, Kirill (foto) enviou ao novo Papa, enfatizando os “desafios que têm em comum” os católicos e os ortodoxos. Há poucos dias, inclusive, cantou no Vaticano o coro do Sínodo: um pequeno gesto que, na delicada diplomacia entre ambas as Igrejas, não se deve deixar passar despercebido.

As tensões voltaram a surgir no início dos anos 1990, quando a Igreja ortodoxa recorreu à antiga hostilidade com suas acusações de proselitismo contra o Vaticano, apesar da reduzida presença dos católicos. Enquanto Wojtyla sonhava com uma visita a Rússia, em Moscou se aprovavam leis que excluíam os católicos das confissões “históricas” (a ortodoxia, o budismo, o judaísmo e o islã), com todas as consequentes dificuldades legais e burocráticas. A instituição de quatro novas dioceses provocou a ruptura, que culminou com a expulsão de muitos sacerdotes católicos do país e com uma redução quase absoluta do diálogo.

 A figura de João Paulo II, polaco e anticomunista, não ajudava suavizar as tensões, entre os segredos de Fátima (que os ortodoxos consideravam a prova de um plano de conversão forçada) e os sacerdotes polacos aos quais Wojtyla encarregou o trabalho apostólico na Rússia. Com Ratzinger e sua retórica conservadora, o Patriarcado pôde respirar aliviado, mas com o Papa Francisco (que desde os primeiros dias de seu Pontificado rezou por Kirill, o dia de São Cirilo) é com quem se espera uma mudança de direção. O Patriarca louva o compromisso social de Bergoglio, sublinhando sua origem argentina e invocando um compromisso comum na defesa dos valores tradicionais, frente ao “liberalismo agressivo”.
 
Putin terá que enfrentar uma situação delicada. Estabelecer amizade com o Papa do “terceiro mundo” poderia ser útil nas polêmicas entre o Kremlin, os Estado Unidos e a União Europeia. Contudo, o presidente já selou uma forte aliança com o Patriarcado: sua imagem entre os ícones, monastérios e leis contra os homossexuais é a de um paladino da fé, pelo qual os tradicionalistas poderiam não apreciar um grande “feeling” com o Pontífice. Francisco, enquanto isso, adquiriu certa popularidade midiática entre os russos, que comparam sua austeridade com os luxos do clero ortodoxo (memorável é o fortuito caso do caríssimo relógio de Kirill, que foi apagado das fotos publicadas pelo sítio do Patriarcado).