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Por: André | 06 Novembro 2013

A conversa iniciada pelo Papa na revista La Civiltà Cattolica continua a mais vozes. Aqui estão dois exemplos: um esclarecimento eminente sobre Bergoglio “místico” e a carta aberta de um teólogo de NovaYork.

 
Fonte: http://bit.ly/1cCj54n  

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 05-11-2013. A tradução é de André Langer.

A entrevista do Papa Francisco à revista dos jesuítas de Roma La Civiltà Cattolica se parece cada vez mais com a “ouverture” de um concerto a mais vozes. Um concerto que está em pleno andamento, quer porque desenvolve motivos apenas indicados pelo Papa ou porque se enriquece com contrapontos.

Nessa entrevista, por exemplo, ao confirmar seu ser e sentir-se plenamente jesuíta, Jorge Mario Bergoglio havia se distanciado da imagem corrente de Santo Inácio de Loyola como severo asceta da Contra Reforma: “Eu, pessoalmente, sou e me sinto mais próximo da corrente mística, a de Louis Lallemant e Jean-Joseph Surin. E Fabro era um místico”.

Para alguém não iniciado no assunto, este comentário é de difícil compreensão. Pois bem, La Civiltà Cattolica ocupou-se de explicar o significado em um artigo na edição de 02 de novembro, escrito pelo jesuíta Giandomenico Mucci e intitulado: “O Papa Francisco e a espiritualidade inaciana”.

Cada artigo da La Civiltà Cattolica é publicado, desde sempre, com o controle prévio das autoridades vaticanas, um controle que Pio XII exercia pessoalmente e que os Papas sucessivos delegaram à secretaria de Estado, mas que agora tende a voltar às mãos de Francisco, ao menos no que diz respeito às questões que mais lhe importam e que lhe dizem respeito pessoalmente.

De fato, é difícil imaginar que a La Civiltà Cattolica tenha descrito a espiritualidade inaciana do Papa Bergoglio com tanta segurança e riqueza de detalhes sem que ele o tenha confirmado.

O padre Mucci explica que “é justo distinguir duas correntes, que é possível distinguir e definir historicamente no interior da única espiritualidade inaciana”.

A primeira é descrita da seguinte maneira: “A corrente ascética funda-se sobre a meditação discursiva e sobre o exercício metódico de cada uma das virtudes. Inculca os grandes princípios da vida espiritual, mas insiste no esforço de combater, um após o outro, os defeitos, desenvolvendo uma após a outra as virtudes”.

A segunda: “A corrente mística, ao contrário, insiste, depois da rigorosa ascese inicial, na docilidade diante da ação do Espírito Santo. A luta contra os vícios e a prática das virtudes ocupam um segundo plano”.

Continua o padre Mucci: “Ambas as correntes têm pleno direito de cidadania na Companhia de Jesus, e os autores tanto de uma como de outra são todos discípulos de Santo Inácio. Ao longo dos séculos, e até nossos dias, as diretrizes oficiais da Companhia privilegiaram a primeira corrente, talvez porque foi julgada espiritualmente a mais segura, não propensa a favorecer essas ilusões que sempre, ou quase sempre, se aninham onde se fala de mística sem discernimento. No entanto, a corrente mística nunca foi proscrita ou desaconselhada. Tampouco teria sido possível fazê-lo, porque, por um lado, seus autores gozaram e seguem gozando de estima universal e, por outro, esta corrente produziu frutos de santidade. Basta pensar nos santos mártires do Canadá que foram alunos de Lallemant. E, hoje, o Papa declara-se aluno deste autor”.

Em outra passagem do artigo, o padre Mucci dá explicações suplementares sobre o significado da mística: “A mística, em seu significado teológico mais amplo, é a disposição do espírito humano de receber as luzes e as moções do Espírito Santo, causadas por uma atividade diferente da atividade humana comum. Estas luzes e moções colocam em prática os dons do Espírito Santo, já infundidos por Deus na alma. A vida mística, assim entendida, é a docilidade habitual ao Espírito de Deus”.

É, portanto, o que foi Santo Inácio: um místico, mais que um asceta. E é o que é o Papa Francisco. Para entender seus atos, a mística inaciana é uma chave de leitura da qual não se poderá prescindir.

* * *

Mas, além de explicações como a que acabamos de ler, a entrevista de Francisco à La Civiltà Cattolica está dando vida também a intervenções que acrescentam perguntas às perguntas.

É um procedimento típico de qualquer conversa aberta. E sendo esta a modalidade utilizada pelo Papa Francisco para anunciar o programa de seu pontificado, é natural que também as reações não se limitem à escuta, à aceitação, à crítica ou à recusa, mas que intervenham diretamente com ele, em um contínuo diálogo.

Um exemplo, nada banal, de como se pode desenvolver este diálogo encontra-se na intervenção proposta na sequência, publicada na revista dos jesuítas de Nova York, America, após a entrevista do Papa Francisco à La Civiltà Cattolica.

O autor, Robert P. Imbelli, é um sacerdote da arquidiocese de Nova York e é professor de teologia no Boston College. Foi um dos fundadores da Catholic Common Ground Iniatitive dedicada ao falecido cardeal Joseph Bernardin. Escreve também no L’Osservatore Romano.

_____

Uma conversa que continua. Perguntas adicionais ao Papa Francisco, de Robert P. Imbelli

Nos anos 1950, quando comecei a me apaixonar pela música clássica, não faltavam os lendários diretores de orquestras. Mas dois estavam no cume do panteão: o italiano Arturo Toscanini e o alemão Wilhelm Furtwängler.

De Toscanini se dizia que iniciava uma peça com sua “lógica” musical perfeitamente fixada na sua mente, e a execução se convertia em um desenvolvimento ininterrupto e coerente dessa lógica. Pelo contrário, o estilo de Furtwängler se parecia uma incessante conversa entre os músicos e as partes musicais, construindo-se gradualmente até uma dramática, e às vezes surpreendente, conclusão.

A referência do Papa Francisco a Furtwängler, em sua entrevista à La Civiltà Cattolica, acendeu novamente em mim essa lembrança da juventude. A opção preferencial de Francisco pela “narração”, pelo “discernimento” e pela “mística” parece mais em harmonia com o diretor de orquestra alemão do que o italiano. Paradoxalmente, o estilo de seu predecessor alemão, Bento XVI, com sua ênfase sobre o “logos”, parece estar mais em sintonia com Toscanini. Certamente, ambos os diretores – assim como o Papa – respeitam e servem os mesmos textos canônicos. As notas são as mesmas, mas os acentos e os ritmos podem variar sensivelmente.

O jesuíta Antonio Spadaro reuniu-se com o Papa Francisco três vezes e estruturou habilmente as palavras do Papa em um todo unitário. Escreveu dois comentários sobre esta experiência que não são incluídas na estupenda tradução inglesa da entrevista publicada pela America, mas que podem ser lidos na versão impressa da La Civiltà Cattolica.

Em suas frases introdutórias, Spadaro faz esta observação: “É evidente que o Papa Francisco está mais acostumado com a conversa do que com a cátedra”. E, ao concluir suas reflexões, Spadaro opina: “Na realidade, o nosso encontro foi mais uma conversa do que uma entrevista”.

Considero importante citar estas observações, porque situar as afirmações do Papa no gênero da conversa pode facilitar as interpretações que se dão a ela. Foi uma conversa entre dois crentes que compartilham um compromisso, uma visão e uma linguagem comum, e que está sendo ouvida também por um mundo ansioso por detectar qualquer indício de mudança no ensino da Igreja, mas que com frequência é surdo à linguagem mais profunda da fé. Por conseguinte, podemos ver a previsível obsessão dos meios de comunicação laicos em relação às questões do aborto e do matrimônio homossexual – esses mesmos temas sobre os quais eles, por sua vez, acusam a parte da hierarquia de também ser obsessiva.

Muitos já observaram que o Papa Francisco não discute o que já é ensino consolidado do magistério a este respeito. “Já conhecemos a opinião da Igreja – afirma – e eu sou filho da Igreja”. No entanto, é significativo seu reposicionamento destes ensinamentos morais em relação ao centro da questão, que é a proclamação, por parte da Igreja, da boa nova que “Jesus Cristo te salvou!”. Embora ele não use este termo, parece evidente que o que Francisco considera necessidade urgente do nosso tempo é a nova evangelização, uma renovada proclamação do amor e da misericórdia de Deus encarnado e tornados acessíveis em Jesus Cristo.

Aqui se pode apreciar a forte evocação do Papa da dimensão mística da vida cristã. Assim como Bento XVI, Francisco insiste no fato de que o cristianismo não pode ser reduzido a um código moral. É, acima de tudo, uma relação com uma pessoa: a pessoa de Jesus Cristo. Análoga é sua opinião de que Inácio de Loyola (que tem um lugar relevante nesta conversa entre dois jesuítas) não é em primeiro lugar um asceta, mas um místico. E que a apreciável prática inaciana do discernimento não é uma técnica que deve ser aplicada mecanicamente, mas “um instrumento de luta para conhecer melhor o Senhor e segui-lo mais de perto”.

Aqui podemos situar também a estimulante apresentação que o Papa faz do beato Pedro Fabro como modelo. Em Fabro surpreende sua capacidade de conjugar “a experiência interior, a expressão dogmática e a reforma estrutural” em uma inseparável unidade. O que vale para Fabro, vale também para Francisco.

Mas a insistência do Papa sobre a centralidade de Jesus Cristo, sobre o discernimento pelo bem do discipulado e sobre Fabro como exemplo em sua capacidade de integrar inseparavelmente elementos da vida da Igreja, corre o risco de ser ignorada por causa do enfoque limitado dos “temas candentes” por parte dos meios de comunicação. Por conseguinte, embora esta conversa fraterna fascine e conquiste, quando é transposta para o contexto exclusivamente laico dos órgãos de imprensa, as palavras podem ser facilmente distorcidas.

Se a revista America me oferecesse a oportunidade de prosseguir a conversa com o Papa Francisco, estas seriam algumas das inquietudes que compartilharia com ele.

Santo Padre, na sua primeira conversa você parece ter sido mais crítico com os “restauracionistas” e os “legalistas” do que com os “relativistas” (que tanto preocupavam o seu ilustre predecessor). Você faz uma breve alusão ao “relativismo” exclusivamente para afirmar que o Deus da Bíblia, que nós encontramos “no caminho”, transcende o relativismo. Penso que muitos ouvintes da conversa tirariam grande proveito de esclarecimentos posteriores de seu pensamento a este respeito. Como podemos falar hoje do Deus revelado em Jesus Cristo como de um “absoluto”?

Você faz, além disso, um poderoso apelo à Companhia que leva o nome de Jesus para que se “descentre” de si mesma e se centre sempre no “Cristo e sua Igreja”. Mas, quais são as implicações de proclamar Cristo como centro? Isto não nos obriga a ultrapassar a narração para chegar ao coração da verdade, para além da prática para chegar ao seu fundamento contemplativo? Conhecendo suas homilias na Capela Santa Marta sobre a Carta aos Colossenses, que proclama Cristo como “a imagem do Deus invisível... no qual todas as coisas subsistem”, posso, certamente, antecipar sua resposta. Mas uma reflexão posterior sobre este tema enriqueceria muito e ajudaria a continuar a conversa, especialmente entre aqueles que se encontram no “átrio dos gentios”.

Relacionado com este último ponto, você expressa sua grande preferência pela “esperança” para além do “otimismo”. Mas, provavelmente, por falta de tempo, você não diz nada mais para descrever esta esperança, salvo falar dela como de uma “virtude teologal” e “em definitiva, um dom de Deus”. Mas sei que um mundo muitas vezes vazio de esperança – e também de otimismo –, deseja conhecer as dimensões e a riqueza desta esperança e escutar “uma razão (logos) da esperança que está em nós”.

Por último, ao final da conversa, Spadaro fez uma pergunta sobre as mudanças do homem na compreensão de si mesmo ao longo dos séculos. Você apoiou o argumento e deu exemplos de diferentes períodos históricos para ilustrar o tema. Ao mesmo tempo, como um sagaz diretor espiritual, você reconhece que os homens e as mulheres estão muitas vezes inclinados a auto-enganar-se. Permita-me dizer-lhe que todos nós obteríamos um benefício considerável de uma ulterior conversa que ilustre esses princípios, com o objetivo de que guiem o nosso discernimento sobre o que constitui o autêntico desenvolvimento humano. Porque, como recordo aos meus alunos, “encontrar a Deus em todas as coisas” é o fruto das primeiras três semanas dos Exercícios Espirituais, não o ponto de partida.

Santo Padre, apesar da sua grande preferência por Furtwängler, penso que não encontre fora de lugar estas inquietações de um apaixonado por Toscanini. Como você nos sugeriu com frequência, é na mistura harmonia das vozes que encontramos melhor o Espírito Santo.

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