Paris se indigna pela expulsão de Leonarda

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Por: Jonas | 19 Outubro 2013

A direita e os social-democratas são figurinhas equivalentes, menos no discurso. As palavras os distinguem, os fatos os igualam. Como nos anos mais quentes do mandato do ex-presidente conservador Nicolas Sarkozy, os socialistas também expulsam menores, cujos pais são indocumentados - por conseguinte, tampouco eles -, e vão buscá-los na própria porta do colégio. Esse foi o destino de Leonarda, no início de outubro, uma estudante kosovar de 15 anos, que foi detida quando participava de uma excursão escolar ao projeto da Peugeot, junto com seus companheiros do Colégio André Malraux, em Pontarlier, ao leste da França.

 
Fonte: http://goo.gl/sDUlEj  

A reportagem é publicada no jornal Página/12, 18-10-2013. A tradução é do Cepat.

A polícia foi buscá-la no ônibus. Fazendo-a descer diante de todos os seus companheiros, arrastou-a e, em seguida, expulsou-a por ser indocumentada, junto com sua mãe e seus cinco irmãos. Foi enviada para Pristina, Kosovo.

A família de Leonarda Dibrani não tinha autorização para residir na França. Havia procurado todos os recursos para obter a residência, mas fracassou. Quando Sarkozy fazia o mesmo, a oposição socialista gritava até os céus. A memória é tão curta como a geometria variável com que se aplica a lei. As condições degradantes em que foi expulsa a jovem, há três anos escolarizada na França, provocaram uma crise interna dentro do Partido Socialista, ao mesmo tempo em que levaram às ruas milhares de estudantes em protesto pela expulsão.

A história costuma dar muitas voltas. As manifestações dos estudantes funcionaram como um espelho invertido dos anos 1980, uma época em que, com os socialistas na liderança, milhares de pessoas manifestavam-se na França contra o racismo da direita sob o lema “Touche pas à mon pote” (“Não toque em meu companheiro”). Os mesmos lemas são vistos agora, mas contra a esquerda no poder. Ninguém escapa do impecável benefício da manipulação do tema dos estrangeiros como objeto de promoção eleitoral. Nos protestos de rua, o alvo principal dos cartazes e slogans foi o atual ministro francês do Interior, Manuel Valls, o membro mais popular do governo por sua dureza em tudo o que diz respeito aos imigrantes. “Valls fora”. “Não à educação mediante a expulsão”, diziam muitos cartazes. No ano passado, antes de ser eleito presidente, François Hollande tinha se comprometido a colocar fim às chamadas “detenções administrativas” de menores de idade e famílias com crianças. O então candidato socialista havia dirigido uma carta à Rede Educação Sem Fronteiras (RESF) e ao Observatório sobre a clausura de estrangeiros, onde dizia: “A proteção do interessa da criança deve ser prioritária”.

Palavras e palavras triviais. O caso da adolescente Leonarda Dibrani não é o único que se descobriu. No último dia 12 de outubro, um aluno do curso superior, de 19 anos, Khatchik Kachatryan, foi expulso da França após permanecer detido durante várias semanas. O jovem tinha fugido da Armênia, em 2011, junto com seu pai, a quem foi negado o direito de asilo político. De forma mais abrangente, a social-democracia no poder superou a direita no que diz respeito à expulsão de estrangeiro. Demonstrar quem é pior tornou-se um joguinho frutuoso. Em 2012, o ministro do Interior, Manuel Valls, ganhou de seus predecessores: 36.822 expulsões contra 32.912 no ano anterior. O ministro disse: “Neste governo há uma vontade de aplicar uma política humana, justa, mas muito firme em matéria de expulsões”. No governo socialista anterior, de 2001 – de Lionel Jospin –, expulsou-se 9 mil estrangeiros. Com este, o número se multiplicou por quatro. A expulsão de Leonarda Dibrani responde a um processo legal; sua metodologia, no entanto, foi posta em julgamento por parte da sociedade civil e líderes socialistas. Os professores de Leonarda publicaram uma carta aberta, em que expõem sua “estupefação” pela forma como a jovem foi tratada. O texto recorda também que cinco dos menores da família Dibrani “estavam com mais de três anos de escolarização, falam perfeitamente a língua francesa e teriam pleno direito à naturalização com mais dois meses”. As denúncias apontam, hoje, para o ministro Valls. Ele é acusado de ser “cúmplice” dos delineamentos da extrema direita, cujos temas favoritos são a imigração e a prioridade nacional. Há algumas semanas, Valls provocou uma agitação quando associou os ciganos com o crime. A política migratória é impecável, governe quem governar; e a crueldade com certas minorias, um caminho fácil e rápido para ser popular.

Os ciganos, de Kosovo ou de outras partes, foram um prato fácil para o governo conservador de Nicolas Sarkozy. Retomam o mesmo estatuto, com o governo socialista. Não ocorreria a ninguém expulsar os milhares de banqueiros corruptos que vivem em luxuosos departamentos nos Campos Elíseos, nem aos mais que identificáveis milionários das novas máfias do Leste da Europa. Porém, ser latino, africano, magrebe ou cigano é outra história. Aí, sim, a lei funciona. Com uma extrema-direita posicionada pelas pesquisas de opinião na liderança, próximo às eleições municipais do ano que vem, os poucos caminhos que restam para fazer política é fazer sombra a suas ideias.

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