África será celeiro que alimentará o mundo, segundo Banco Mundial e ONU

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16 Outubro 2013

O Banco Mundial e a ONU estão convencidos de que a África poderá se transformar no grande celeiro que alimentará o resto do planeta. Entretanto, algumas vozes alertam que isso poderia ter implicações negativas para a segurança alimentar da própria população africana. A pergunta que soa cada vez mais em determinados círculos políticos e econômicos é: uma região onde a fome e a escassez continuam presentes deve vender quantidades maciças de alimentos?

A reportagem é de Miguel Ángel García Vega, publicada no jornal El país e reproduzida pelo Portal Uol, 13-10-2013.

O continente africano, e em particular a África subsaariana, é uma zona de amplos contrastes. Enquanto a seca extrema e a fome atingem países como a Namíbia, um recente trabalho da Fundação Mo Ibrahim, que promove o bom governo na região, destaca que dos 15 países do planeta onde a produção agrícola mais cresceu entre 2000 e 2008 sete são africanos: Angola (13,6%), Guiné (9,9%), Eritreia (9,3%), Moçambique (7,8%), Nigéria (7%), Etiópia (6,8%) e Burquina Fasso (6,2%). Como interpretar situações tão díspares? Em 2050, a população africana duplicará e serão 2 bilhões de pessoas a atender. A África terá capacidade para alimentar os 54 países que a formam e ao mesmo tempo um planeta que exige cada vez mais alimentos?

"É claro que a África poderia ser o celeiro do mundo!", exclama Mercy Wambui, perita da Uneca (Comissão Econômica da ONU para a África). "Mas antes tem de ocorrer uma série de mudanças internas. Começando por uma gestão mais eficaz dos recursos." No entanto, o terreno é sólido. "A África possui 60% das terras [a maior extensão do mundo] potencialmente cultiváveis do planeta", explica Aaron Flohrs, sócio especializado nessa região da consultoria McKinsey. De fato, segundo o Anuário Estatístico da FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura), 79% dos campos que poderiam ser cultivados no continente estão sem trabalhar. E a administradora de fundos de investimento Fidelity afirma que só são explorados 10% dos 400 milhões de hectares de terra cultivável situados entre o Senegal e a África do Sul. O suficiente, segundo essa firma, não só para alimentar os africanos como para satisfazer a crescente demanda mundial.

"O potencial é enorme, mas é preciso promovê-lo com políticas de desenvolvimento sustentável", reflete Wambul. Dizem os especialistas que para consegui-lo é preciso romper o ciclo da agricultura de subsistência (85% das explorações africanas ocupam menos de dois hectares), investir em infraestrutura que apoie o crescimento do setor (estradas, pontes, represas) e atingir economias de escala. Mas essas são ideias que parecem tiradas de um manual de economia; a vida na África impõe seus próprios ensinamentos.

A África gera por ano 700 milhões de toneladas de produtos agrícolas, que lhe trazem US$ 313 bilhões, segundo o Banco Mundial. Ou seja, a agricultura representa 15% de sua riqueza.

Entretanto, a exportação de alimentos básicos caiu de 3,8% em 2003 para 3,5% em 2012. É o que revela a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês).

Um dos países africanos com maior desenvolvimento agrícola, a África do Sul é um importador líquido de alimentos. Como é possível? Thabo Ncalo e Humphrey Gathungu, responsáveis pela administradora de fundos Stanlib Africa Equity Fund Managers, dão várias pistas. "Muitas explorações ainda dependem da chuva e carecem de sistemas de irrigação próprios. Além disso, a produção aumentaria drasticamente se utilizassem fertilizantes e melhores técnicas de plantio", afirmam. Mas nem tudo é questão de rendimentos, mas também de economia. As perdas que ocorrem no final da colheita se transformaram em um mal endêmico. Só em cereal oscilam entre 15 e 20% de tudo o que é colhido. É uma quebra que conta. "Uma redução de 1% nesse tipo de perda pode se transformar em um ganho anual de até US$ 40 milhões", calculam os analistas Ncalo e Gathungu.

Há tempo que a FAO avisa que no mundo são desperdiçadas 1,3 bilhão de toneladas de alimentos por ano. Um terço do total. Além disso, a organização adverte que em 2050 o planeta precisará de 71 milhões de hectares de plantações adicionais para alimentar-se. A África e seu celeiro terão então que entrar em cena premidos pela necessidade. Poderão responder ao desafio?

O setor agrícola africano cresce a um índice limitado entre 2% e 5% anuais. Parte desses níveis baixos ainda tem um forte potencial de melhora. E terra onde fazê-lo não falta. "Moçambique, Nigéria e Zâmbia dividem as maiores extensões de campos subutilizados do continente", explicam na Fidelity.

As possibilidades se estendem aos territórios do sul, centro e leste. Países como República Democrática do Congo contam com um vasto celeiro (52% de todas as terras do país são cultiváveis) não utilizado devido às guerras civis e aos conflitos sociais. E isto nos leva a outra consideração. As estratégias agrícolas, para que tenham êxito, devem ser respaldadas por boas políticas de governança, e aqui o continente falha. Também fraqueja na gestão da água, que segundo os especialistas do banco Citigroup "é o verdadeiro desafio na África subsaariana", onde só 4% das plantações são irrigadas. Um desafio que, por exemplo, exige realizar investimentos em infraestrutura para ampliar a irrigação.

É uma leitura do problema que combina com a que o Banco Mundial registrou no trabalho "Growing Africa: Unlocking the Potential of Agribusiness" [África em Crescimento: Destravando o potencial do agronegócio], publicado em março passado. A instituição pensa que a África poderia criar um mercado de alimentos em 2030 de US$ 1 bilhão se abrisse as portas para a entrada maciça de capitais, empresas e tecnologia estrangeiras. Mas a proposta encontra a oposição de várias organizações não-governamentais, já que essa ideia, segundo afirmam, transita justamente na direção contrária. "A quem beneficia esse mercado, se for controlado por especuladores financeiros de Londres, Nova York ou Pequim?", pergunta-se Henk Hobblink, coordenador da organização Grain. "Utilizar prioritariamente as terras agrícolas para exportar, enquanto há pessoas que passam fome no continente, é um crime. E expulsar os agricultores de seus campos para dá-los a investidores estrangeiros para que produzam mais também é um erro."

Esta última frase de Hobblink transfere o texto para o fenômeno do acúmulo de grandes extensões de terras (e de água) na África. A ONG Grain denuncia que 60 milhões de hectares do continente (pouco mais que o tamanho da Espanha) foram postos nas mãos de estrangeiros para exploração, deixando de fora as populações rurais que tradicionalmente trabalharam as terras como meio de subsistência. É muito recomendável para entender a magnitude do problema dar uma olhada no detalhe das mesmas em landmatrix.org, o único portal do mundo que compila as transações. Há 819 registradas em todo o planeta. Nada menos que 383 correspondem à África, 46% do total. A Espanha só aparece em uma operação de 15 mil hectares, no território de Moçambique.

Uma em cada oito pessoas no mundo passa fome

"O monopólio das terras e os investimentos estrangeiros para transformar a África no celeiro do mundo não são novidade. É um disfarce de neocolonizadores de gravata a cavalo do livre mercado: cultivam açúcar, cacau, café, borracha - diziam então - e sairão da miséria. Cultivem soja, palma africana ou qualquer coisa que a agroindústria ou nossos automóveis precisem - dizem hoje - e verão como o progresso choverá. Mentiras criminosas", afirma categoricamente Gustavo Duch, coordenador da publicação "Soberania Alimentar".

Sem dúvida a África precisa de investimento em seus campos, mas com um modelo que inclua seus agricultores, e não que os exclua. Os consultores da McKinsey calculam que na África subsaariana são necessários 38 bilhões de euros por ano para que o sistema agrícola funcione melhor. Apesar de tudo, há otimismo. "Chegou a hora de a agricultura africana ser um catalisador do fim da pobreza", observa Makhtar Diop, vice-presidente do Banco Mundial para a região africana.

Essa instituição acredita que a África poderia ser um dos principais exportadores do mundo de açúcar, milho, soja, arroz e biodiesel e ter o mesmo êxito que tiveram em uma época a América Latina ou o Sudeste Asiático. Também dá sua lista para a África subsaariana: óleos vegetais, cereais para o gado, horticultura, aves de granja e arroz.

Mas tem capacidade de exportar quem ainda não é capaz de alimentar toda a sua população? A região é um dos maiores consumidores e importadores do planeta de um cereal tão básico quanto o arroz. A metade do que consome vem de fora e os africanos pagam um preço muito alto por ele, cerca de US$ 3,5 bilhões por ano. A África fez um esforço produzindo 5% a mais (26,6 milhões de toneladas em 2012) em relação a 2011. Entretanto, não é suficiente. Também haverá 25 milhões de hectares adicionais de milho em 2013. Mas também não parece bastante.

Em Zâmbia esse cereal já proporciona a metade das calorias da dieta de seus habitantes, que consomem 133 quilos de cereais per capita por ano. Sua dependência é enorme. O que fazer? Recorrer a plantações geneticamente modificadas e sua proposta de agricultura intensiva?

Carlos Vicente Alberto é responsável por Sustentabilidade na Europa e Oriente Médio da Monsanto, principal fabricante de sementes geneticamente alteradas do planeta e também uma das empresas com pior imagem no mundo. Para ele está claro: "As plantações geneticamente modificadas podem contribuir para incorporar tecnologias agrícolas mais eficientes no uso dos recursos (solo, água, energia). Quer dizer, mais produtivas e sustentáveis". Uma visão totalmente refutada pelos grupos de ecologistas. Mas não só por eles. Antonio Hernández, sócio de Internacionalização da KPMG, descarta algumas dessas ideias. "A agricultura intensiva em grande escala também tende a ser intensiva em capital, e não cria postos de trabalho. Ao mesmo tempo, desaloja as pessoas. A consequência? Perdem seu emprego na agricultura de subsistência", avisa. Sem que necessariamente obtenham um posto de trabalho alternativo na exploração agrícola intensiva.

Crianças mal nutridas simbolizam a fome invisível na África

Poucos duvidam, como afirma Mercy Wambul, de que "a África precisa de um milagre para promover sua produtividade agrária e equipará-la ao aumento da população, mas até agora não há consenso de que o uso das sementes biológicas seja a solução".

Os cultivos geneticamente modificados põem sobre a mesa a fragilidade da agricultura na região. Apesar de tudo, muitos economistas veem no continente, e portanto em seu potencial agrário, o último grande mercado do planeta. Além disso, conta com "a classe de consumidores que cresce mais rapidamente no mundo", afirma Michael Lalor, diretor do Centro de Negócios da África em Joanesburgo da auditoria Ernst & Young.

A afirmação leva a uma das questões mais discutidas na África. Está surgindo uma classe média real, em parte como resposta a esse florescimento do consumo?

Em abril de 2011 o Banco Africano de Desenvolvimento publicou um polêmico trabalho (A Metade da Pirâmide: Dinâmica da classe média na África) em que definia essa classe média africana como as pessoas que tinham um consumo per capita diário entre US$ 2 e 20. Com esses parâmetros, eram 313 milhões de africanos. Claro que teve de admitir que 60% de sua classe recém-descoberta gastava entre US$ 2 e 4 por dia. Uma "classe flutuante", disse então, que se desloca acima do limite da pobreza (menos de US$ 2 diários).

O Banco Mundial, por sua vez, assim como algumas das grandes consultorias do mundo, como Deloitte ou McKinsey, admitem a existência dessa classe média estimando-a entre 200 e 300 milhões de pessoas. Outros organismos, como a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos), reduzem o entusiasmo para 32 milhões de pessoas. Embora haja olhares mais céticos. O economista-chefe para a África do banco Citigroup, David Cowan, afirma que "não existe uma classe média africana como tal. Há uma elite emergente e um grupo muito forte de consumidores, que está crescendo sem parar".

Seja qual for a estimativa mais correta, o que parece inegável é que a emergência dessa classe média tem uma repercussão direta sobre a agricultura. "Com maiores rendas", observa Sebastian Kahlfeld, gestor do fundo de investimentos DWS Invest Africa, pertencente à entidade financeira Deutsche Bank, "a demanda de alimentos de maior qualidade crescerá de forma proporcional. De fato, um maior consumo de proteínas, primeiro com carne branca e depois vermelha, precisa de mais produção de rações para a criação de gado. Isto aumenta a pressão dirigida a melhorar as condições de cultivo e da agricultura em geral". Será suficiente para encher o celeiro da África e do mundo? Dentro de poucos anos o saberemos.

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