Algo realmente aconteceu no ''momento místico'' do papa

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10 Outubro 2013

Quando os jornalistas olham para trás, para os artigos de trabalho importantes que produzimos, nós tipicamente fazemos dois tipos de perguntas: 1) será que eu captei a história certo? Ou seja, será que eu enganei os leitores ou espectadores sobre o que aconteceu, sobre o seu significado foi e assim por diante? 2) Será que eu peguei os detalhes corretamente? Os nomes foram escritos corretamente, as datas foram devidamente registradas, a sequência dos eventos foi corretamente apresentada e assim por diante?

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 06-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Naturalmente, as duas coisas estão relacionadas, porque o grande quadro é feito de detalhes. Por outro lado, é possível deixar escapar alguns pontos sem distorcer a realidade fundamentalmente.

Do jeito que as coisas estão, quando o jornalista italiano Eugenio Scalfari olha para trás à sua bem-sucedida entrevista do dia 1º de outubro de com o Papa Francisco, ele pode sentir alguma irritação em um segundo momento, mas provavelmente não vai perder muito do seu sono no primeiro.

Scalfari, 89 anos, parece ter confundido alguns dos detalhes referentes ao chamado "momento místico" experimentado pelo novo papa logo após a sua eleição, mas o resultado final é que algo aconteceu, e isso pode ter implicações para compreender a espontaneidade e a ousadia que Francisco tem apresentado desde então.

Recapitulando, embora o Vaticano confirmou a "confiabilidade" básica da entrevista de Scalfari no dia 2 de outubro, as perguntas não desaparecem com relação a uma parte em que Scalfari conta que o papa descreveu o que aconteceu quando ele foi eleito na noite do dia 13 de março.

Scalfari cita Francisco ao dizer que ele inicialmente considerou o fato de recusar o papado e, antes de aceitar, deixou a Capela Sistina para um momento de oração em uma pequena sala perto da sacada com vista para a Basílica de São Pedro. Lá, de acordo com o texto, ele teve uma experiência quase mística que dissipou a sua ansiedade. Depois, Scalfari relata que o papa disse que voltou para a capela, assinou o seu ato de aceitação e saiu para se apresentar ao mundo.

Especialistas ficaram imediatamente com dúvida, primeiro por uma razão técnica – não há pequena sala perto da sacada, que se localiza no meio de um longo corredor.

Em segundo lugar, os cardeais que estavam dentro do conclave já descreveram vários aspectos do que aconteceu após a eleição do papa, mas nenhum deles jamais mencionou qualquer atraso por parte de Francisco em aceitar o cargo. (Para que conste, descrever a cena depois que um papa é eleito não é nenhuma violação do juramento de sigilo dos cardeais, porque, por uma questão técnica, o conclave está concluído.)

Na quinta-feira, o veterano vaticanista Andrea Tornielli publicou as suas dúvidas sobre a entrevista de Scalfari, incluindo não apenas a cena descrita acima, mas também outras questões em termos de escolha de palavras.

O NCR publicou uma reportagem citando o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, um dos cardeais que elegeram Francisco, negando que tenha havido qualquer atraso entre a eleição de Francisco e a sua aceitação.

Mais tarde naquele dia, o padre Thomas Rosica, da Salt and Light TV, do Canadá, que auxilia a Sala de Imprensa do Vaticano com a mídia de língua inglesa, divulgou um comunicado confirmando a versão de Dolan sobre os eventos.

De acordo com Rosica, Scalfari não gravou a sua entrevista, nem tomou notas no momento, por isso foi uma reconstrução post-factum. Com relação à questão da sua aceitação, disse Rosica, Scalfari se equivocou.

"O papa recém-eleito nunca deixou a Capela Sistina para um período de reflexão antes de aceitar finalmente o papado", disse Rosica.

A questão-chave, no entanto, é: será que essa correção altera fundamentalmente o ponto da história – de que, logo após a sua eleição, Francisco experimentou algum tipo de contato com o divino que lhe deu uma sensação de paz?

A resposta parece ser "não", e nós temos uma confirmação de ao menos duas outras fontes.

Primeiro, eu publiquei uma coluna na sexta-feira em que eu citei um cardeal em off (um não norte-americano) que recentemente teve um encontro privado com Francisco. Esse cardeal disse ter ficado impressionado com o estilo livre e espontâneo que Francisco demonstrou como papa em comparação com a forma bastante comedida e tímida que ele exibia em público na Argentina, e ele me disse que tinha dito ao papa à queima-roupa: "Você não é o mesmo".

De acordo com o cardeal, a resposta do papa foi mais ou menos a seguinte: "Quando eu fui eleito, uma grande sensação de paz e liberdade interior tomou conta de mim e nunca me deixou".

Temos detalhes adicionais a partir de uma entrevista de Rosica recentemente realizada com o Mons. Dario Viganò, diretor do Centro Televisivo Vaticano, para o canal Salt and Light.

Viganò estava dentro do Vaticano nos momentos imediatamente após a eleição de Francisco e antes que o novo papa saísse para saudar o mundo. Ele disse que, quando Francisco deixou a Capela Sistina para caminhar em direção à sacada, ele tinha os seu olhos voltados para baixo, não estava sorrindo, não disse nada aos cardeais e era como se ele estivesse carregando "um fardo enorme".

Em seguida, no entanto, Francisco entrou na Capela Paulina, onde um trono tinha sido posto para que ele usasse para rezar. Ao invés, Francisco pediu que os dois cardeais que caminhavam com ele, Jean-Louis Tauran (que fez o anúncio "Habemus Papam") e Agostino Vallini (vigário de Roma), se sentassem com ele no banco no fundo da capela.

O papa teve alguns momentos de oração em silêncio e, de acordo com Viganò descrevendo o que viu, "ele se levantou, se virou e, naquele momento, ele era uma pessoa diferente".

"É como se Deus tivesse lhe dito pessoalmente: 'Não te preocupes, eu estou aqui contigo'", disse Viganò.

Esses momentos foram filmados, disse Viganò, embora ainda não tenham sido transmitidos.

Em outras palavras, os comentários do papa ao cardeal citado e a descrição de Viganò dos momentos imediatamente antes de Francisco sair para a sacada se enquadram na essência da cena relatada por Scalfari: algo aconteceu com o novo papa naquela noite, quer o chamemos de experiência mística ou não, que lhe deu uma sensação de calma e ficou com ele depois.

Nada disso, é claro, serve para desculpar o desleixo do La Repubblica em não deixar claro aos leitores que o que estava sendo apresentado como as palavras literais do papa era, na verdade, uma reconstrução, e não uma transcrição.

Exceto depois de mais esclarecimentos do Vaticano, agora é impossível citar todas as frases ou fórmulas específicas dessa entrevista e atribuí-las diretamente ao papa, já que não sabemos bem onde Scalfari termina e Francisco começa.

Também seria um erro, no entanto, simplesmente ignorar a entrevista, incluindo a questão crítica do que aconteceu com Francisco imediatamente após a sua eleição.

Scalfari aparentemente captou alguns detalhes mal, mas a essência está certa.

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