Confiabilidade da entrevista de Francisco a Scalfari é posta em xeque

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08 Outubro 2013

Continua havendo debate sobre o quão confiável é o texto da conversa apresentada no jornal La Repubblica em nível de detalhe. Embora Lombardi tenha tido o cuidado de salientar que o "sentido" do texto é "confiável", dizendo que se Francisco tivesse sentido que o seu pensamento tinha sido "seriamente deturpado" ele o teria dito, ele não deu uma resposta conclusiva a uma pergunta que eu fiz durante uma coletiva de imprensa sobre se o papa realmente tinha pronunciado, palavra por palavra, todas as frases atribuídas a ele.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 04-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O veterano vaticanista italiano Andrea Tornielli, que tem uma relação pessoal com Francisco desde antes da sua eleição, escreveu na última quarta-feira que tem dúvidas sobre algumas das frases atribuídas ao papa na entrevista de Scalfari, incluindo a de que Francisco teria pedido um tempo antes de aceitar o papado, a fim de entrar em uma pequena sala para se recompor.

Como Tornielli observa corretamente, não há nenhuma pequena sala imediatamente adjacente à sacada da Basílica de São Pedro, como descrito por Scalfari, e, em todo o caso, os cardeais que estavam lá dizem que o papa aceitou a sua eleição imediatamente.

A ideia de que algumas frases publicadas pelo La Repubblica possam ter sido reconstruções após o fato, em vez de serem citações diretas, levaram algumas pessoas a se perturbarem, especialmente tendo em conta que a entrevista foi posteriormente publicada pelo L'Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, e pelo site do Vaticano.

Se não temos certeza de que aquelas são realmente as palavras literais do papa, muitos pediram, então o que elas estão fazendo nos órgãos oficiais do Vaticano?

Talvez o ponto mais perspicaz de todos veio do próprio Lombardi, que disse que estamos vendo a emergência de um gênero totalmente novo de discurso papal – informal, espontâneo e às vezes confiado a outros em termos da sua articulação final. Um novo gênero, sugeriu Lombardi, precisa de uma "nova hermenêutica", em que não damos tanto valor às palavras individuais, mas sim ao sentido geral.

"Não é o Denzinger", disse ele, referindo-se à famosa coleção alemã do ensino oficial da Igreja, "e não é o direito canônico".

"O que o papa está fazendo é dando reflexões pastorais que não foram revisadas de antemão palavra por palavra por 20 teólogos, a fim de ser mais preciso sobre tudo", disse Lombardi. "É preciso diferenciar de uma encíclica, por exemplo, ou de uma exortação apostólica pós-sinodal que são documentos magisteriais".

Implícito nessa reação é que o papa provavelmente vai continuar falando espontaneamente e às vezes ele vai permitir que vozes de fora do círculo estreito dos porta-vozes autorizados digam ao mundo o que ele disse, confiando-os a captar a essência disso e talvez não refinando todos os detalhes. Tentar colocar cada frase ou cada anedota debaixo de um microscópio nessas circunstâncias pode ser um desperdício de tempo.

Se o papa quiser se expressar formalmente e com precisão, sugeriu Lombardi, ele tem outras maneiras para fazê-lo.

* * *

Aqui segue um rápido pensamento sobre as acusações feitas por Scarano contra a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA) em seu interrogatório com as autoridades italianas.

Em primeiro lugar, deixemos claro que uma parte acusada tem todos os motivos do mundo para impugnar alguém na esperança de mitigar a sua própria culpabilidade. "Não fui só eu!" é uma antiga defesa para todos os tipos de pessoas pegas com os seus dedos no pote de biscoitos.

Dito isso, Scarano é uma veterana autoridade da APSA, e as suas acusações terão que ser levadas a sério. Se algumas delas vierem a ter mérito, isso pode derrubar a forma como a maioria dos observadores pensaram até aqui sobre a reforma financeira no Vaticano.

Até então, a hipótese de trabalho tinha sido de que a peça mais difícil de quebrar seria o banco vaticano, em grande parte porque ele sempre foi um ímã importante para escândalos e teorias da conspiração. A verdade, porém, é que, hoje, o banco pode ser a instituição financeira vaticana mais à frente no caminho da reforma.

Isso se deve, em parte, ao fato de que a ameaça de fechamento posta sobre a mesa por Francisco e por outros membros do seu Conselho de Cardeais acelerou o ritmo da mudança e, em parte, por causa da visão do novo presidente do banco, o empresário alemão Ernst von Freyberg. (Von Freyberg me disse recentemente que a sua ambição é acabar com as fofocas de jornais, tornando muito mais fácil obter informações diretamente dele, para que os jornalistas não tenham que confiar nos boatos dos bares romanos.)

Como resultado, pode ser que a limpeza do banco acabe por ser a parte mais fácil da glasnost de Francisco, enquanto outros dicastérios financeiros vaticanos que ainda não foram submetidos ao mesmo tipo de escrutínio – a APSA, por exemplo, ou o governo do Estado da Cidade do Vaticano – são os casos mais difíceis.

Por sua vez, isso sugere que, das duas outras comissões criadas até agora por Francisco – uma para estudar o banco vaticano e outra focada nas "estruturas administrativas e econômicas da Santa Sé" –, esta última possa vir a ter a atribuição mais complicada e com mais consequências.

* * *

Eu confesso que fiquei pessoalmente irritado com a entrevista de Scalfari, não porque eu questione a sua precisão básica, mas porque ele me roubou um furo jornalístico.

Eu estava planejando escrever esta semana sobre um boato a respeito do Papa Francisco que eu tinha conseguido com um cardeal que tivera uma reunião privada com ele recentemente, mas, antes que eu pudesse desenrolá-lo, Scalfari me derrubou. Basicamente, o "furo" refere-se ao subtexto místico do estilo ousado, livre e independente que já temos visto de Francisco, que está em flagrante contraste com a reputação que ele tinha na Argentina.

Na parte relevante da entrevista, Scalfari pergunta a Francisco se ele já teve uma experiência mística. Aqui está a resposta apresentada pelo La Repubblica acerca dos momentos imediatamente depois que ele foi eleito ao papado:

"A minha cabeça estava completamente vazia, e uma grande ânsia me invadira. Para fazê-la passar e me relaxar, fechei os olhos, e todo e qualquer pensamento desapareceu, mesmo aquele de recusar a aceitar o encargo, como, além disso, o procedimento litúrgico permite. Fechei os olhos e não tive mais nenhuma ânsia ou emotividade."

Essa experiência, sugere Francisco, deu-lhe a coragem para aceitar o trabalho e para seguir em frente.

É uma intuição importante, porque ajuda a explicar algo que, de outra forma, parece inexplicável: como dar conta da transformação que está acontecendo em Jorge Mario Bergoglio desde que ele se tornou Papa Francisco?

Considere-se que, durante todos os seus 15 anos como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio deu um total de cinco entrevistas. Durante os sete meses que ele é papa, ele já deu três, e todas foram marcantes.

Os jornalistas que cobriam Bergoglio na Argentina relatam que ele evitava os holofotes e, nas raras ocasiões em que tinha que aparecer em público, ele frequentemente parecia ser formal e, segundo alguns, um pouco chato. Como papa, ele se tornou uma estrela de rock. Como arcebispo e como presidente da Conferência dos Bispos da Argentina, Bergoglio era cuidadoso e comedido nas suas declarações públicas, enquanto que, como papa, ele não está se preocupando com nada.

Ainda em abril, eu entrevistei a sua irmã, Maria Elena Bergoglio, e até mesmo ela me disse que havia algo diferente no seu irmão desde que ele assumiu o cargo mais alto da Igreja.

Recentemente, eu falei com um dos cardeais que elegeram Francisco (não um norte-americano, aliás), que tinha sido recebido pelo papa em audiência privada. O cardeal me disse que ele tinha dito à queima-roupa para Francisco: "Você não é o mesmo que eu conheci na Argentina".

De acordo com esse cardeal, a resposta do papa foi mais ou menos a seguinte: "Quando eu fui eleito, uma grande sensação de paz e de liberdade interior tomou conta de mim e nunca me deixou".

Em outras palavras, Francisco teve uma espécie de experiência mística na sua eleição ao papado que, aparentemente, o libertou para ser muito mais espontâneo, franco e ousado do que em qualquer momento anterior da sua carreira.

Nunca se deve duvidar do cunho místico sobre os contornos de um papado.

João Paulo II, por exemplo, era às vezes acusado de ser excessivamente determinado – cabeça-dura, alguns diriam –, assim que tivesse a sua opinião sobre alguma coisa. No entanto, ele era um papa profundamente convencido de que, no dia 13 de maio de 1981, a Virgem Maria tinha mudado a trajetória de uma bala para preservá-lo no cargo. (A tentativa de assassinato ocorreu na festa de Nossa Senhora de Fátima.) Dada essa crença, João Paulo II, sem dúvida, sentia uma certeza sobre o caminho que ele estava tomando que ultrapassava a lógica meramente humana.

De forma similar, Francisco agora pode se sentir confortado na nova direção que ele está tomando, que é muito mais profunda do que os cálculos em termos de imagem ou de "melhores práticas" da gestão corporativa. Essa, ao menos, parece ser a sugestão do que ele disse tanto ao meu amigo cardeal quanto a Scalfari.

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