''É assim que o papa vai mudar a Igreja''. Entrevista com Óscar Maradiaga

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08 Outubro 2013

A reforma da Cúria será compartilhada, o horizonte é a aplicação do Concílio Vaticano II: nisso se inspiram as escolhas do Papa Francisco e a sua revolução gentil. A afirmação é do cardeal hondurenho Óscar Maradiaga, presidente da Cáritas Internacional, que o pontífice quis à frente do Conselho dos Cardeais, o novo órgão (o G8) composto por purpurados de todos os cinco continentes, chamados para aconselhá-lo justamente sobre a reforma da Cúria e sobre as escolhas de governo da Igreja. O Papa Bergoglio quis que eles o acompanhassem na sua peregrinação a Assis depois de três dias de trabalho.

A reportagem é de Roberto Monteforte, publicada no jornal L'Unità, 06-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O papa quis o senhor à frente do Conselho dos Cardeais envolvido na reforma da Cúria Romana. Na quinta-feira, vocês concluíram a sua primeira sessão de trabalho. Quais são as prioridades?

A prioridade indicada pelo Santo Padre é a reforma do Sínodo dos Bispos, o órgão da Igreja que ajuda o pontífice nas suas decisões. O Papa Francisco quer que todos aqueles que são chamados a fazer parte dele continuem dando a sua contribuição também a partir dos seus países, trabalhando de modo interativo, usando também a internet. Parece-me interessante. Porque a sinodalidade, a relação de colaboração dos bispos com o pontífice, indicada pelo Concílio Vaticano II, não foi bem desenvolvida. Ao invés, o papa quer que se continue nessa direção. Já na próxima semana haverá uma reunião da Secretaria do Sínodo presidida pelo seu novo responsável, Dom Baldisseri, para preparar o próximo Sínodo.

Qual é a listagem dos problemas que vocês pretende abordar?

Além do Sínodo, temos que lidar com a reforma da Secretaria de Estado e a reestruturação da Cúria Romana e dos seus dicastérios.

Será introduzida a figura de um moderator curiae?

É uma ideia que nasceu durante as reuniões dos cardeais que precederam o conclave e que foi pensada para ajudar e facilitar o trabalho do secretário de Estado. Nós ainda não sabemos quais serão as suas competências. Nós ainda não discutimos sobre isso. Existem algumas propostas. Os cardeais que fazem parte da comissão fizeram pesquisas nos seus continentes e coletaram um material muito precioso e interessante. É muito importante ter muita participação da parte de toda a Igreja nesse nosso trabalho. O cardeal Bertello, prefeito do Governatorato da Santa Sé, também fez um belíssimo trabalho coletando as sugestões propostas pela própria Cúria Romana. Agora estamos sistematizando todo esse material.

Para repensar completamente ou corrigir o atual modelo da Cúria?

O que iremos propor não são retoques, mas sim uma reforma da Cúria. Vai levar tempo. Não esperem que irá chegar no próximo ano. Porque queremos que o projeto seja discutido com aqueles que vivem essas situações, que têm experiência, para que deem a sua contribuição.

Mas, enquanto isso, já haverá mudanças como a fusão de dicastérios da Cúria?

É uma necessidade evidente. Nas reuniões dos cardeais que precederam o conclave, observou-se que a Cúria cresceu demais e que é difícil que ela possa trabalhar agilmente. Eu não posso dizer agora quais poderão ser as possíveis fusões, porque apenas começamos a examinar as situações dos vários dicastérios. Veremos.

Mas não há um estudo do cardeal Nicora que prevê a fusão dos dicastérios "econômicos" em um único dicastério?

Nós ainda não abordamos esse ponto. Estamos esperando que sejam concluídos os trabalhos das duas comissões instituídas pelo pontífice justamente sobre os dicastérios e sobre os institutos que supervisionam as atividades econômicas. Mas certamente não se entende por que o Vaticano, assim como outros Estados, não pode ter o seu próprio "ministério" das finanças e reagrupar todos os atuais dicastérios que tratam de questões econômicas seguindo a hipótese de trabalho feita pelo cardeal Nicora.

O IOR vai ficar como está ou vai mudar?

Muitos na Igreja esperam a sua transformação em um banco ético. Deve ser superada a atual ambiguidade de uma fundação que não é um banco. Outras duas comissões estão lidando com isso. Estamos esperando que elas terminem o seu trabalho para nos ocuparmos disso. No entanto, a transparência é a melhor resposta também para decidir sobre o seu futuro.

Com o Papa Francisco, a Igreja parece ter mudado de ritmo e estar mais perto dos dramas humanos...

Os caminhos da Providência são os que realmente guiam a Igreja. Ninguém suspeitava que, com João Paulo II que veio da Polônia, cairia a Cortina de Ferro. Depois, o Papa Bento XVI lançou sólidos fundamentos teológicos em coisas fundamentais como o amor, a esperança e a fé. Agora, com o Papa Francisco, chegou o momento de aproximar mais o povo de Deus através do afeto e também através de coisas simples, mas essenciais para a vida cristã, que tocam os problemas de todos os dias e, acima de tudo, tocam os corações. Estamos naquela etapa da Providência que nos leva a estar mais próximos dos ensinamentos do Concílio Vaticano II. A reforma da Cúria também responde a essa exigência: não um órgão fora do mundo ou acima do mundo, mas no mundo e que tenta servi-lo. É o conceito que Francisco tem da autoridade: a do serviço.

O senhor se referia à proximidade do Papa Francisco aos dramas humanos. Quanto o dia de oração e jejum pela paz na Síria incidiu nas escolhas dos poderosos?

Foi quase um milagre. Aquelas sanções que os Estados Unidos queriam aplicar à Síria levariam à guerra, e os mísseis levariam ainda mais destruições e sofrimentos. Ao invés, esse apelo do Papa Francisco e a sua carta ao presidente russo, Putin, tiveram um efeito extraordinário. Eu considero isso como uma passagem muito importante na história do mundo. Foi uma sacudida salutar nas consciências de todos.

A outra denúncia muito forte do papa foi sobre a imigração. Um problema dramático também na Itália.

Para evitar essas tragédias, é preciso uma melhor vigilância contra os traficantes que se aproveitam desse drama. Depois, os governos devem ser estimulados a cuidar da juventude. Não há interesse pelo destino de muitíssimos jovens. Eles não têm um horizonte. É uma dor. Esse é um dos efeitos de uma globalização que acabou reforçando os monopólios e afetando os pequenos empresários. A economia não deve se basear só no lucro. É preciso mais solidariedade.

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