As tantas Malalas que tentam modificar as injustiças do mundo

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03 Outubro 2013

Malala comemora seu aniversário na sede da ONU; recebe o prêmio Nobel da Paz das Crianças em Haia; inaugura em Birmingham a maior biblioteca pública da Europa; viaja a Nova York para colaborar com o ex-primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, em um programa de ajuda a crianças sírias refugiadas. Malala tem 16 anos e um sobrenome: Yousafzai. Mas, para todos, a menina é isso: Malala.

A reportagem é de Óscar Gutiérrez, publicada no jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 02-10-2013.

A sonoridade do nome a acompanha. Assim meio mundo conhece essa jovem e incansável paquistanesa, que foi alvejada a tiros em outubro passado no vale do Swat, no Paquistão, por um grupo do Taleban que não gostavam do que a adolescente contava na Internet. Ela sobreviveu e mora no Reino Unido. Foi e é vítima dos radicais. E agora a chamam de ativista pela educação. Mas é isso: uma menina. E por direito.

"Malala é um exemplo", explica Jorge Cardona, professor da Universidade de Valência, "de que uma criança é sujeito de direito, assim como um adulto; devem ser protagonistas de seus direitos, devem ter poderes para defender-se".

Cardona, docente em direito das relações internacionais, é um dos 18 especialistas independentes que fazem parte do Comitê sobre Direitos da Criança da ONU. "Malala", continua o professor, uma referência constante na defesa da infância, "demonstra que as crianças não são só objetos para proteger e que em muitas ocasiões são exatamente os adultos que as limitam".

Com Malala, esse limite chegou - ou tentou chegar - com os fuzis que em 9 de outubro passado, muito perto de sua casa em Mingora, cuspiram as balas que acertaram sua cabeça e seu pescoço.

Por trás do atentado estavam talebans paquistaneses, sobre os quais a adolescente, então com 15 anos, tinha falado em um blog publicado na versão online da rede britânica BBC. Malala já era então um símbolo crescente da luta pela educação dos menores que habitam essas terras, demasiado porosas para não se contagiarem com o conflito afegão.

Era, sobretudo, um alto-falante de denúncia dos direitos das meninas, vilipendiadas pela guerrilha radical, inimiga acirrada de que elas, assim como eles, desfrutem da educação em colégios.

Paquistanesa atacada por defender educação discursa na sede da ONU

A adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, que completa 16 anos nesta sexta, se pronuncia pela primeira vez em Nova York, na sede da ONU, em favor das milhões de crianças do mundo inteiro que não têm acesso à educação. A jovem ficou conhecida mundialmente depois de ter sido atacada pelos talibãs por defender o direito à educação de meninas em seu país.

Malala aguentou. Foi transferida para o hospital Queen Elizabeth, em Birmingham, no Reino Unido, e conseguiu evitar a morte. Sua coragem ao enfrentar os talebans e continuar brandindo sua mensagem depois de quase perder a vida foi reconhecida pela organização KidsRights, que em 6 de setembro passado lhe entregou em Haia (Holanda) o Prêmio Internacional da Paz das Crianças.

"Malala demonstrou", disse em uma troca de mensagens o fundador da ONG, Marc Dullaert, "que as crianças podem elevar suas vozes, que podem marcar a diferença; ela está movendo o mundo".

E não para. Malala continua hoje com um discurso elaborado, carregado de simbolismo, forte, ativista e atraente a ponto de maravilhar os adultos, os que estão à frente de organizações, concursos ou governos.

"É preciso se acostumar", defende o professor Cardona, "à sensatez e maturidade das crianças". "Ver um menor que decide se levantar pelos direitos de muitos outros e lutar contra as injustiças", salienta também nesse sentido Dullaert, "torna os adultos humildes. (...) Se ela pode fazê-lo", continua o holandês, "nós também podemos".

Frans Röselaers, sociólogo e ex-membro da Organização Internacional do Trabalho, vai um passo além: "Os adultos podem se sentir um pouco humilhados pelo fato de esses jovens conseguirem coisas onde eles não o fizeram". "As crianças", continua Röselaers, que também integra o júri que premiou Malala e é fundador da Marcha Global contra o Trabalho Infantil, "têm direito a expressar suas preocupações, ambições e pontos de vista".

A frase seguinte foi pronunciada pela adolescente durante a abertura da biblioteca em Birmingham, cidade que a acolheu em 3 de setembro, e é atribuída ao filósofo romano Cícero: "Um quarto sem livros é como um corpo sem alma". Mas não é só frase. A adolescente não lê um texto, pronuncia um discurso, gesticula, o interpreta e o enfia na veia do ouvinte. Tem 16 anos.

"Estamos acostumados a que as crianças sejam objetos de proteção", explica o professor Cardona, "e têm muitas coisas para contribuir. (...) É juridicamente obrigatório escutar uma criança". Mas não fazê-la falar demais. "É preciso evitar a exploração econômica de sua figura", adverte o também catedrático.

Quem não pôde evitar a exploração foi o pequeno Iqbal Masih, referência na história das crianças ativistas e também símbolo da luta pelos direitos dos menores no Paquistão. Ele foi assassinado dois anos antes de Malala nascer. A luta contra a exploração infantil foi de fato sua grande causa.

Nasceu em Mureedke, perto de Lahore (Paquistão) em 1983. Com 4 anos foi vendido por seus pais ao dono de uma tecelagem como pagamento pelo casamento de seu irmão. Seis anos depois conseguiu escapar e uniu-se à Frente de Libertação do Trabalho Forçado, com a qual pregou contra o emprego de menores.

Com frequência, demasiada para sua idade, mas sorridente, Masih percorria as ruas entre os seus, com os braços levantados; empunhava bandeiras e saltava aos palcos para contar sua história. Em 16 de abril de 1995, Masih, com apenas 12 anos, pouco depois de voltar dos EUA, onde tinha sido premiado por sua dedicação e seu ativismo, foi assassinado a tiros.

Por que Malala é assim? Porque Masih o foi? "São crianças líderes", responde Consuelo Crespo, presidente do comitê espanhol da Unicef. "São capazes de captar imediatamente o valor de algo, muitas vezes porque o viveram, e também têm a inquietação de transmiti-lo."

A seção espanhola da agência da ONU dedicada à proteção da infância reconheceu em maio passado o trabalho da jovem ativista paquistanesa com o prêmio Moviliza. Ele foi recebido pessoalmente por seu pai, professor e certamente um dos responsáveis por colocar uma semente no caráter de sua filha. Malala tinha de assistir a suas aulas, mas agradeceu a distinção através de uma mensagem gravada em vídeo.

Crespo lembra, e concordam os especialistas em infância consultados, que o caso de Malala não é só uma voz que mobiliza milhares de pessoas. Sua luta obteve uma mudança efetiva: o reconhecimento por lei da obrigatoriedade e gratuidade da educação para as crianças no Paquistão. Outra coisa será sua aplicação.

E não só isso. Tal foi e é o eco da voz de Malala que inclusive um líder do Taleban paquistanês, Adnan Rashid, redigiu e enviou uma carta à adolescente para oferecer uma espécie de justificativa, e não desculpas, pela qual o ataque, que ele não desejava, foi cometido.

Grosso modo, ele declarou que não foi por sua defesa à educação, mas pela tentativa de adotar um modelo ocidental. "Você disse que a esferográfica é mais forte que a espada", escreveu Rashid para Malala, "e eles a atacaram por sua espada, e não pelos livros ou um colégio".
 
Pessoas fazem manifestações em solidariedade à paquistanesa Malala

Ativistas paquistaneses participam do "Dia da Malala", na cidade de Lahore, no Paquistão, neste sábado (10). A data foi assim nomeada pela ONU e visa apoiar o caso da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, 15, baleada por talebãs por causa de um blog em que defendia o acesso de meninas à escola. Ela recebe tratamento médico no Reino Unido. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, convidou a comunidade internacional para participar da campanha da ONU que visa priorizar a educação para meninas e meninos em todo o mundo.

"O convencimento de Malala", salienta a presidente da Unicef, "sensibilizou a sociedade em torno de seus direitos". Mas tudo tem limite: "Ela deve continuar sua vida escolar de forma normal", continua Crespo, "não pode ser utilizada de forma partidária ou ideológica".

Conforme o que se viu, isso não ocorreu neste caso, embora não se possa negar que Malala seja um anúncio para liderar campanhas como a liderada por Brown para reunir US$ 500 milhões (370 milhões de euros) e assim levar educação a 300 mil refugiados sírios nos campos do norte do Líbano.

Mas por que a mensagem desses pequenos líderes atrai tantos adultos? Na opinião de Crespo, a falta de um sistema de educação adequado faz que exemplos como o de Malala sejam excepcionais.

malala
Foto: http://bit.ly/15M4g6T

"Quando se dá espaço para que participem, é espetacular como se expressam." "É preciso educá-los", continua, "para que tirem o melhor de si mesmos; eles não são o problema, são a solução." E se a trazem, como concorda o fundador da KidsRights, costuma ser "criativa e simples".

A Unicef conhece bem de que são feitas as crianças, sobretudo lá onde é mais difícil sê-lo. "Há muitas Malalas no mundo", conta Crespo, falando com a experiência de suas viagens, "muitas crianças que movem o mundo e não conhecemos, que são capazes de mudar a mentalidade de seus pais por uma ideia". E às vezes quase sem ter idade para ser conscientes disso.

Foi o que aconteceu com Coy Mathis, a menina que com apenas 6 anos conseguiu em junho passado, no Colorado, uma das sentenças mais comemoradas pelo coletivo transexual dos EUA.

Graças a ela, que nasceu com sexo masculino, graças à expressão do que sentia e à coragem de seus pais, Kathryn e Jeremy Mathis, o colégio que frequentava no Colorado teve de abrir para ela os banheiros para meninas.

A pequena Mathis começou a inclinar-se para tudo o que tivesse a ver com o sexo oposto aos 18 meses. Com quatro anos, sua identidade já era a de uma menina. Seus pais tentaram que a direção do colégio elementar Eagleside deixasse que Mathis usasse o banheiro de suas colegas, mas a escola negou em dezembro passado e apontou como motivo seus órgãos genitais.

Com a ajuda da Fundação para Defesa Legal e Educação dos Transexuais, os Mathis foram ao tribunal e em 25 de junho passado ganharam a ação civil com uma sentença pioneira nos EUA, "a mais abrangente com relação ao acesso de transexuais a banheiros", segundo a organização americana.

"Exemplos como o de Mathis dão muita força", aponta Ronny de la Cruz, vice-presidente do Coletivo de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais de Madri (Cogam). "Haverá gente", continua De la Cruz, "que fechará os olhos porque se trata de uma menina, mas muitas outras vão parar e escutar".

De la Cruz, de 24 anos e com uma longa experiência em contato com grupos de jovens, salienta o impacto que tem que "alguém tão jovem veja claramente coisas que muitas pessoas não conseguem ver em toda uma vida".

Claro e cristalino via Samantha Reed Smith, outro símbolo da história do ativismo menor de idade, que aquilo que passava por sua cabeça em 1982, enquanto falava com sua mãe em sua casa no Maine, tinha que acabar em um papel e chegar às mãos de Yuri Andropov, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética.

"O senhor vai votar em uma guerra ou não?", perguntava a pequena de 10 anos em plena escalada entre as duas frentes que dividiam o mundo. "Se isso não lhe agrada, diga-me por favor como vai ajudar a evitar uma guerra nuclear", questionou a menina ao dirigente máximo da URSS.

Demorou, mas Andropov respondeu a Smith dizendo que fazia o possível para frear o conflito em uma extensa carta na qual o dirigente comparava inclusive a jovem americana com Becky, a amiga do Tom Sawyer de Mark Twain.

A correspondência transformou a pequena na embaixadora oficiosa mais jovem de seu país. O líder soviético convidou Reed Smith e seus pais para viajarem a Moscou em julho de 1983. A repercussão midiática nas duas trincheiras, apesar de Andropov não ter encontrado a menina pessoalmente, foi excepcional.

Samantha Reed Smith já era um símbolo da luta pela paz. Mas a fatalidade, que parece perseguir as vozes desses pequenos grandes ativistas, truncou o sorriso interminável dessa menina de olhos grandes e claros. Samantha morreu em 25 de agosto de 1985 junto com seu pai em um acidente de avião. Tinha 13 anos.

Mas o que se traduz de sua história, como a de Malala, Masih e outros milhares de crianças, é o exercício de um direito muitas vezes furtado aos menores: o da participação. "São um exemplo", diz o diretor-geral da Save the Children España, Alberto Soteres, "do direito a participar e opinar sobre qualquer assunto que as afete".

Um direito que continua abrindo caminho e atravessando fronteiras. Às vezes também pelo esforço dos adultos. Como lembra Soteres, o governo espanhol, tomando a iniciativa junto com um pequeno grupo de países, ratificou em junho o terceiro protocolo da Convenção sobre Direitos da Criança Direitos da Criança, que reconhece a competência dos menores para defender-se diante de uma instância internacional.

Quer dizer, explica Soteres, que "se um menino espanhol não é atendido em nenhuma das instâncias judiciais de seu país poderia, uma vez esgotadas essas vias, ir a Genebra reclamar seus direitos".

À espera de que as leis internacionais protejam as crianças de maneira mais efetiva, o mundo continuará precisando de Malalas. Crianças excepcionais que afinal continuam sendo menores de idade e por isso precisam de uma proteção muito especial.

"É preciso ter muito cuidado", adverte o diretor da Save the Children. "O caso de Malala é muito complicado, é preciso estar vigilante com seu entorno. Devem-se garantir seus direitos." "O da intimidade, que possa brincar, estudar, viver com sua família..." Definitivamente, que possa receber um prêmio em Nova York das mãos da rainha Rania da Jordânia, como fez durante a festa de gala dos prêmios Clinton, desde que depois se cumpra seu direito a continuar sendo o que é. Uma menina.

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