O verdadeiro desafio é a defesa dos novos pobres. Artigo de Hans Küng

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23 Setembro 2013

Há reformas são urgentes que deveriam ser discutidas na comissão dos cardeais. O Papa Francisco encontra-se hoje diante de uma série de decisões difíceis. Até agora, deu provas de grande empatia e sensibilidade. Essas suas qualidades lhe permitem tomar decisões necessárias e determinantes para o futuro.

A opinião é do teólogo suíço-alemão Hans Küng, professor emérito da Universidade de Tübingen, Alemanha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco está dando provas de coragem civil e não só pela sua intrépida visita às favelas do Rio. Ele aceitou o convite a um diálogo aberto com os críticos não crentes, respondendo a um dos mais eminentes intelectuais italianos, Eugenio Scalfari. Das 12 perguntas de Eugenio Scalfari (La Repubblica, 11-09-2013) ainda em aberto, a quarta, a meu ver, sobre o tema de um guia reformador da Igreja, reveste-se de uma importância particular.

Jesus sempre afirmou que o seu reino não era deste mundo. "Deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Mas muitas vezes a Igreja Católica cedeu à tentação do poder temporal, que suplantou a sua dimensão espiritual. Portanto, Scalfari pergunta: "O Papa Francisco representa finalmente a prevalência da Igreja pobre e pastoral sobre a institucional e temporalista?".

Atenhamo-nos aos fatos: desde o início, o Papa Francisco renunciou à pompa e ao fausto pontifício, buscando, ao invés, o contato espontâneo com o povo. Diante dos inúmeros escândalos financeiros e da avidez de muitos eclesiásticos, ele começou com decisão uma reforma do IOR e do Estado pontifício, postulando uma política de transparência no campo financeiro.

Agora, porém, na sua obra reformadora, o papa terá que enfrentar uma prova decisiva. O papa de toda a Igreja Católica não pode ignorar o fato de que, mesmo em outros lugares, há grupos humanos afligidos por outras formas de "pobreza", que anseiam por uma melhoria da sua condição. Trata-se sobretudo de pessoas que o papa teria a faculdade de ajudar de maneira ainda mais direta do que os habitantes das favelas, dos quais os principais responsáveis são os órgãos do Estado e a sociedade como um todo.

A ampliação do conceito de pobreza já se entrevê nos Evangelhos sinóticos. O Evangelho de Mateus chama de bem-aventurados os "pobres em espírito", mendicantes diante de Deus, na consciência da sua pobreza espiritual. E, portanto, refere-se, do mesmo modo que os restantes textos das Bem-aventuranças, não só os miseráveis e os famintos, mas todos aqueles que choram, marginalizados e oprimidos, vítimas de injustiça, rejeitados, degradados, explorados, desesperados: Jesus chama para si não só os desamparados e os necessitados no sentido exterior do termo (Lucas), mas também qualquer pessoa que sofra no seu próprio interior a dor e a aflição (Mateus), incluindo também o peso da culpa. Multiplica-se assim, desmedidamente, o número e as categorias dos pobres necessitados de serem ajudados.

Em primeiro lugar, os divorciados, que em muitos países são milhões. E quando, como muitas vezes acontece, contraíram um segundo matrimônio, são excluídos dos sacramentos da Igreja pelo resto das suas vidas. Dada a maior mobilidade, flexibilidade e liberalidade da sociedade de hoje, mas também por consequência da crescente longevidade, é muito menos fácil que uma relação de casal dure por toda a existência. Mesmo diante dessas circunstâncias mais difíceis, o papa certamente continuará insistindo na indissolubilidade do matrimônio, mas esse preceito não deveria mais ser entendido como condenação apodítica de todos aqueles que, tendo fracassado, não pode, esperar uma remissão. E é justamente em nome da compaixão postulada pelo Papa Francisco que se deveria admitir os divorciados em segunda união aos sacramentos, contanto que o desejem realmente.

Em segundo lugar, as mulheres: milhões de mulheres que, em todo o mundo, são vilipendiadas por causa da atitude da Igreja sobre as questões da contracepção, da inseminação artificial e do aborto, e muitas vezes vivem a sua condição com ânimo angustiado. Quanto à proibição papal da inseminação "artificial", quem a observa é apenas uma pequeníssima minoria, enquanto, em geral, as mulheres católicas a praticam sem nenhum remorso de consciência. Por fim, o aborto obviamente não deve ser banalizado, muito menos adotado como método de planejamento familiar; mas as mulheres que optam por abortar merecem compreensão e compaixão.

Em terceiro lugar, os padres obrigados a renunciar ao sacerdócio por ter contraído matrimônio: são dezenas de milhares, nos cinco continentes. A abolição da obrigatoriedade do celibato constituiria a medida mais eficaz para resolver a catastrófica crise das vocações sacerdotais que afetou o mundo inteiro, com o consequente colapso da atividade pastoral. Além disso, a manutenção da obrigatoriedade do celibato tornaria impensável outra desejável inovação: a do sacerdócio feminino.

Todas essas reformas são urgentes e deveriam ser discutidas acima de tudo no seio da comissão dos cardeais. O Papa Francisco encontra-se hoje diante de uma série de decisões difíceis. Até agora, deu provas de grande empatia e sensibilidade para com as aflições de tantos seres humanos, demonstrando em várias ocasiões uma considerável coragem civil. Essas suas qualidades lhe permitem tomar decisões necessárias e determinantes para o futuro sobre esses problemas, que, em parte, esperam uma solução há séculos já.

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