A entrevista com o papa "doce, doce...", a exemplo de Pedro Fabro

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23 Setembro 2013

Uma Igreja "hospital de campanha" depois de uma batalha, capaz de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis com a proximidade. O que crentes e não crentes intuíram desde cedo na noite do dia 13 de março, quando Francisco se dirigiu a eles dizendo "boa noite", o Papa Bergoglio o explícita em uma repentina e longa entrevista à revista dos jesuítas Civiltà Cattolica.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 20-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma conversa de 30 páginas, abrangente, que representa o manifesto de governo do pontífice argentino: o primeira que prefere se definir como padre e bispo. Que não usa os sapatos de cor púrpura. Que insiste em proclamar que Deus é, acima de tudo, misericórdia.

"É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos! Devem-se curar as suas feridas – explica ele na entrevista ao padre Spadaro –, depois podemos falar de todo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é preciso começar de baixo". A Igreja, diz, muitas vezes se encerrou em pequenos preceitos, esquecendo-se de que o primeiro anúncio é: "Jesus Cristo te salvou!".

Nem rigorismo, nem laxismo, mas sim uma Igreja "Mãe e Pastora", que cuida das pessoas. A Igreja de Francisco não tem a cabeça voltada para trás. As lamentações, afirma, "nunca, nunca" ajudam a prosseguir. "As queixas sobre como o mundo anda 'bárbaro' acabam fazendo nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa". Não, não é esse o caminho.

Francisco quer uma Igreja que não esteja confinada nos recintos da tradição decadente, mas que seja capaz de enfrentar toda situação. "Em Buenos Aires, eu recebia cartas de pessoas homossexuais, que são 'feridos sociais', porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isso".

Bergoglio tem as ideias muito claras sobre o fato de que o padre deve se enraizar na existência das pessoas individuais. O confessionário, esclarece, não deve ser considerado uma sala de tortura, mas sim o lugar onde se ajuda o fiel a caminhar para a frente. Deus, reafirma, está em toda vida, mesmo na mais desastrada. "Pode-se e deve-se buscar a Deus em toda vida humana".

O sacerdote, talvez, não deve cuidar de uma mulher que, depois de um casamento fracassado e até mesmo de um aborto, "se casou e agora está serena, com cinco filhos" e, "sinceramente arrependida (…) gostaria de avançar na vida cristã"?

Não é um papa que fala ex cathedra. Ele começa se definindo como um "pecador a quem o Senhor olhou". Um pecador... "e não é um modo de dizer, um gênero literário". Ele confessa que, na sua primeira experiência no governo – como provincial dos jesuítas – foi brusco, autoritário, decisionista demais, a ponto de "ter sérios problemas e ser acusado de ser ultraconservador". Isso lhe provocou, admite, uma grande crise interior. "Não fui nem um pouco como a Beata Imelda [expressão argentina] – esclarece –, mas nunca fui de direita".

Sobre o fato de ser jesuíta, Francisco destaca o "discernimento", a capacidade de analisar, sopesar e compreender a realidade. Por isso, ele considera que as reformas devem ser fruto de uma intensa consulta e devem ser feitas de forma não apressada. Quem pensa ter todas as respostas a todas as perguntas, adverte, "esta é a prova de que Deus não está com ele (…) é um falso profeta".

O papa argentino é muito concreto nessa entrevista-manifesto. As mulheres, promete, devem estar presentes "nos lugares em que se tomam as decisões importantes (…) precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja".

Os departamentos da Cúria Romana devem ser instrumentos de ajuda para o papa e os bispos, em vez de "se tornarem órgãos de censura". Por que tratar no Vaticano os casos de supostos desvios doutrinais? "Creio que os casos devem ser estudados pelas Conferências Episcopais locais, às quais pode chegar uma válida ajuda de Roma". Os dicastérios da Cúria (nunca nomeada como "instância" simbólica) são "mediadores, nem intermediários nem gestores".

No governo da Igreja universal, antecipa o papa, há a necessidade de ativar mecanismos reais de consulta, até mesmo mudando a forma de trabalho do Sínodo dos Bispos, atualmente "estático" demais. Ativar a "sinodalidade" (isto é, o governo colegial do pontífice com os bispos) também é uma forma para relançar as relações com a Igreja Ortodoxa a partir do documento negociado pelo cardeal Kasper em 2007, em Ravenna, em que as Igrejas ortodoxas reconheciam o primado do bispo de Roma, mas exigiam uma real gestão colegial nas questões referentes à Igreja universal.

Bergoglio também quer continuar a reflexão sobre o papel papal, o chamado "ministério petrino", como já desejado por João Paulo II na encíclica Ut unum sint.

Ele não quis ir ao apartamento papal, acrescenta, justamente porque é um "funil", onde se entra com um conta-gotas, enquanto ele quer ficar em contato com as pessoas. Bergoglio também conta muitas coisas sobre si mesmo e sobre os seus gostos na entrevista, das suas leituras – Hölderlin, Borges, ele leu Os noivos três vezes – aos seus pintores e músicos favoritos: Caravaggio e Mozart.

Mas, acima de tudo, a conversa totalmente livre expressa o seu enorme impulso para se comunicar com os contemporâneos. Com todos. Assim como eles são. Ele gosta de um dos primeiros companheiros de Santo Inácio: o bem-aventurado Pedro Fabro. Pelas suas características diretas: "O diálogo com todos, mesmo com os mais distantes e com os adversários; a piedade simples, talvez uma certa ingenuidade, a disponibilidade imediata, o seu atento discernimento interior, o fato de ser um homem de grandes e fortes decisões e, ao mesmo tempo, capaz de ser assim doce, doce…".

Sob a luz de fundo, Bergoglio sente Fabro como o modelo no qual um papa do século XXI deve se inspirar. É seco o julgamento sobre as debatidas questões éticas: "O parecer da Igreja é conhecido, e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente".

Não há espaço nesse programa para os restauradores. "Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro – lembra o papa –, então não encontra nada". Tradição e memória devem ajudar a ter a coragem de abrir novos espaços. "Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à 'segurança' doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido tem uma visão estática e involutiva. E desse modo a fé se torna uma ideologia entre tantas".

É o De Profundis pelo lobby conservador, que Ratzinger impôs em 2005, e que se aninhou em tantos escritórios da Cúria e em tantas dioceses do mundo.

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