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“Salvador Allende não mediu a importância da guerra fria”. Entrevista com Mario Amarós

Salvador Allende não ponderou adequadamente a importância internacional da sua “via chilena ao socialismo”, o que Washington não podia aceitar em um contexto de guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. O presidente chileno, que se suicidou em 11 de setembro de 1973 no Palácio La Moneda, enquanto o edifício estava sendo bombardeado pela aviação do generalato golpista há 40 anos, tampouco suspeitou das Forças Armadas do Chile, que preparavam um golpe de Estado contra o Governo da Unidade Popular, de esquerda, porque havia mitificado o compromisso castrense com a democracia e a Constituição.

O historiador espanhol Mario Amarós chega a estas conclusões após 18 anos de pesquisa sobre a figura de Allende, que admira, e sobre o Chile do século XX, recolhidas no livro Allende. A biografia: 676 páginas de entrevistas, documentos e conversas. “Penso que Allende não dimensionou o que significava o processo socialista chileno no marco da guerra fria. Não mediu bem a importância internacional da via chilena, como exemplo político, o que para Washington era inaceitável”. Amarós admite, assim mesmo, que houve ações da esquerda que ultrapassaram o programa de Allende.

A entrevista é de Juan Jesús Aznarez e publicada no jornal espanhol El País, 10-09-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Por que Allende não previu o quartelaço?

Porque havia mitificado as Forças Armadas chilenas como uma exceção na América Latina, como forças armadas patrióticas, democráticas e constitucionalistas, sem entender bem sua dependência em relação aos Estados Unidos, na logística e na ideologia.

Allende teve tanta importância na guerra fria?

Sim, pelo que o seu processo significava como exemplo político para o mundo. Despertou preocupação. Isso se vê muito bem nas análises da CIA e nas reações de Henry Kissinger e Richard Nixon. Allende não mediu bem isso. Qual teria sido a consequência de medi-lo bem? Não sabemos.

Tampouco a esquerda chilena mediu bem suas pressões sobre a presidência de Allende.

Aí houve duas reações. O Partido Comunista, e isso é amplamente conhecido, para além da minha militância comunista, foi o aliado mais sólido, mais consistente de Allende por esse gradualismo que compartilhavam. Mas o Partido Socialista de Allende se radicaliza muito a partir de 1967. O subsecretário geral do partido, Adonis Sepúlveda, trotskista, falou em “revolução não plebiscitária” quando rechaçou o plebiscito que Allende convocaria [para salvar o processo].

O que teria sido possível fazer para evitar o golpe?

Allende tentou um acordo com a Democracia Cristã quando venceu as eleições de 1970, e até o final, mas no dia 08 de junho de 1971 ocorreu um acontecimento trágico que mudou muitas coisas [O assassinato de Edmundo Pérez Zujovic pela denominada Vanguarda Organizada do Povo (VOP)]. Eduardo Frei Montalva [dirigente da Democracia Cristã], que estava na Espanha, retorna para o funeral de seu amigo e ex-ministro, e se abre um abismo moral e político com a DC. Começa a se forjar, então, sua aliança com a direita, com o Partido Nacional.

E com os militares.

Na tarde de 10 de setembro de 1973, Patricio Aylwin, então presidente da Democracia Cristã, é informado de que no dia seguinte se daria o golpe. Frei, segunda autoridade do país como presidente do Senado, já sabia disso. No entanto, ninguém informou o presidente da República.

Que reformas foram mais decisivas na oposição a Allende?

A nacionalização de indústrias da “Área de Propriedade Social” provoca um conflito político no Parlamento, que ajudou muito na polarização social. Nacionalizam-se a indústria têxtil, os bancos, a grande mineração e empresas chaves.

Muita pressa?

Eu posso entender que quando a esquerda vence as eleições, para muitas pessoas chegou o momento da revolução, por exemplo, para os camponeses mapuches, cujas terras tinham sido roubadas há mais de 100 anos. Essa épica revolucionária, que naquele momento se expressava no Vietnã e se havia dado na revolução cubana, agora cabia ao Chile. É certo que houve ações de setores da esquerda, que ultrapassaram, claramente, o programa de Allende, que o complicaram. Penso que devia ter havido mais disciplina na esquerda, que naquela época era muito heterogênea.

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