De volta ao Palácio La Moneda, 40 anos depois

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Por: André | 11 Setembro 2013

A cada 11 de setembro, pontualmente, a história regressa ao Palácio La Moneda, de Santiago do Chile, onde Salvador Allende se suicidou há 40 anos com um fuzil doado pelo Fidel Castro. A aviação golpista e a traição demoliam o prédio da Rua Morandé quando o presidente se sentou em um sofá palaciano, apoiou o queixo sobre a boca da arma, apertou o gatilho e saltou pelos ares o crânio de um homem decente e uma democracia revolucionária. Chovia sobre o molhado. Não era a primeira vez que os Estados Unidos haviam promovido na América Latina a queda de presidentes insubmissos: duas rebeliões militares apoiadas pela CIA derrubaram Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 1954; Juan Bosch, na República Dominicana, em 1963, e um ano depois o brasileiro João Goulart.

 
Fonte: http://bit.ly/17Ifih4  

 

 A reportagem é de Juan Jesús Aznarez e publicada no jornal espanhol El País, 08-09-2013. A tradução é de André Langer.

Consumada a vileza do general Augusto Pinochet e a deslealdade dos temerosos, às 11h50 daquele fatídico dia, dois aviões abriram fogo contra o Palácio La Moneda com foguetes que perfuraram os muros do edifício neoclássico e quebraram as paredes de salões e escritórios. Os gases lacrimogêneos asfixiavam cerca de 50 pessoas leais a Allende. Entre entulhos e gritos, cobriam-se como podiam. Sem energia elétrica, nem esperanças, com o palácio em chamas, o presidente despediu-se de seus colaboradores e amigos. Sua imolação não fazia sentido. Mas outras eram as intenções do generalato insurreto. “Temos que matá-los como ratos, que não fique rastro nenhum deles, de Allende”. A criminosa iracúndia do almirante Patricio Carvajal ficou conhecida ao permanecer, despercebidamente, aberto o sistema de comunicação entre o posto de comando da sublevação e as unidades assaltantes.

Aquele quartelaço reuniu todos os ingredientes das tragédias gregas: traições, covardias, intrigas, assassinatos e morte, segundo o cardiologista Óscar Soto Guzmán, sobrevivente do La Moneda, médico pessoal e autor do livro Allende na lembrança, que será publicado no 40º aniversário do golpe. Relata as reações de Allende diante dos acontecimentos que teve que viver. Também Soto teve que reagir. “Falo com a minha esposa Alicia; ela me disse: “Anuncia-se pela rádio que vão bombardear o Palácio’. ‘Sim, é isso aí, lhe respondo. ‘O que vai fazer?’. “Vou ficar aqui, no Palácio’, lhe disse. Alicia ficou calada, mas entendi que compartilhava a minha decisão”. O golpe mudou sua vida. Salvou-a, mas no exílio do México, Cuba e Espanha, onde mora com a família.

Em 11 de setembro de 1973, terminou em sangue e fogo o Governo da Unidade Popular (UP), uma coalizão de esquerda que pretendeu construir, talvez com muita pressa, uma sociedade mais justa em um país profundamente injusto. O Chile era então um país parlamentar, mas de oligarquias poderosas, reacionárias, e multinacionais com direito da primeira noite: a norte-americana ITT (International Telephone & Telegraph) era dona de 70% da telefonia chilena. O poder econômico e midiático e a cruzada internacional dos Estados Unidos contra o perigo comunista ficaram definitivamente irmanados com a aceleração das reformas da UP. A reforma agrária provocou feridas.

O historiador espanhol Mario Amorós, que publicou Allende, a biografia após 18 anos de pesquisa sobre sua figura e trajetória, defende que a “via chilena ao socialismo” foi derrotada por um conjunto de causas: a estratégia da oposição de bloquear qualquer iniciativa governamental no Congresso, no qual tinha maioria absoluta, o fomento da crise econômica e do desabastecimento, e a mobilização anticomunista das classes médias e setores estudantis, inclusive a aristocracia operária. A agressão dos Estados Unidos e a derrota dos setores constitucionalistas das Forças Armadas completaram a braçadeira, segundo Amorós, cuja obra, redigida a partir da militância política do autor, ligado ao PCE, é imprescindível.

Mas o presidente e seu Governo tiveram que fazer algo mais para tornar possível tal coalizão de forças de oposição. Comovido com sua morte, o secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer (1922-1984), chegou a uma lúcida conclusão: as transformações pretendidas por Salvador Allende, que havia vencido as eleições presidenciais de 1970 com 36,3% dos votos, eram de tal calado que uma maioria simples não era suficiente para aprová-las, nem sequer com o presidencialismo consagrado na Constituição de 1925. As mudanças exigiam maioria parlamentar próximo a 70% e amplos consensos sociais. Essa equação, no entanto, era quase impossível no Chile das injustiças distributivas e no contexto da guerra fria entre os Estados Unidos e a URSS. Quatro décadas depois, o golpe cívico castrense de 2002 na Venezuela, e seu atual entrincheiramento, as intermitentes sublevações crioulas na Bolívia indigenista ou mesmo o conflito egípcio, parecem ressuscitar aquelas reflexões eurocomunistas.

“O golpe contra Allende, que crescia em cada eleição, foi dado pelas classes altas, pela oligarquia, com a ajuda de um Henry Kissinger (secretário de Estado de Richard Nixon) muito inteligente e com dinheiro. Em uma blitz de caminhoneiros em greve, os pegamos com bilhetes de mil dólares no bolso!”, recorda Danilo Bartulín, médico pessoal e amigo de Allende, cujo cargo oficial era médico chefe da Presidência da República. Bartulín dormia em um quarto contíguo ao do presidente no ano em que houve um aumento das tensões, e atendia ao telefone do governante durante seu descanso. Acompanhou-o em viagens e em horas cruciais e costumava jogar xadrez com o presidente até às duas horas da madrugada. “Vou deixar você ganhar para que vá dormir”, me dizia. Foi torturado e encarcerado durante dois anos após sua prisão em La Moneda.

A última intentona para evitar o quartelaço aconteceu na noite do dia 17 de agosto, na casa do cardeal Silva Henríquez, anfitrião de um jantar entre o presidente e chefe da Democracia Cristã, Patricio Aylwin, que acusou Salvador Allende de destruir a democracia e conduzir o Chile à ruína econômica e à ditadura do proletariado. “Eu o aguardava no carro”, recorda agora Bartulín. “Ao chegar, perto das duas horas da madrugada, me disse: ‘Eles não querem nada. Nos negam o pão e o sal’. Então eu disse a ele: ‘Vamos à Cúpula de Argel (do Movimento de Países não Alinhados, de 5 a 9 de setembro de 1973), mas você passa no Vaticano e pede uma audiência com o Papa para que a democracia cristã se acalme. Ele gostou da iniciativa e prepara-se um avião para cerca de 20 pessoas. A ideia se mantém, mas houve vozes que alertaram: ‘E se derem o golpe quando estivermos fora?’. Finalmente, Allende não foi nem à Cúpula de Argel nem pediu audiência com Paulo VI porque os acontecimentos se precipitaram”.

A subordinação das Forças Armadas ao poder civil durante quatro décadas havia contribuído para assentar o mito de seu “profissionalismo”, assumido de maneira acrítica por Salvador Allende e amplos setores da esquerda, segundo explica Amorós em seu livro. No caso de um golpe de Estado, a Unidade Popular confiava em que uma parte significativa dos militares cumprisse com seus deveres constitucionais, mas não ponderou adequadamente a vinculação técnica, econômica e ideológica do estamento castrense chileno com os Estados Unidos, que remontava a 1947, ano da assinatura do Tratado Interamericano de Mútua Defesa. “Por outro lado, o Relatório Church revelou que, entre 1966 e 1973, 1.182 oficiais chilenos receberam treinamento em centros militares deste país, nos quais lhes inculcaram a anticomunista Doutrina de Segurança Nacional e lhes ensinaram terríveis métodos de tortura, colocados em prática a partir de 11 de setembro de 1973”.

Restam as provas sobre a cobertura norte-americana do golpe. Peter Kornbluh, diretor do National Security Archive’s Chile Documentation Project, conseguiu que se tornassem públicos mais de 24.000 documentos secretos da CIA e da Secretaria de Estado. Os mais importantes são reproduzidos no livro Pinochet: os arquivos secretos, agora reeditado e ampliado (Crítica). A participação dos Estados Unidos na revolta foi tão determinante quanto a direitização da Democracia Cristã, muito próxima da UP, sob a direção de Radomiro Tomic. “Infelizmente, desde a eleição de Allende, a atitude do ex-presidente Eduardo Frei foi a de um energúmeno, que fez seu todo o discurso anticomunista e antipopular da extrema direita chilena e dos círculos do Governo norte-americano, sensível às posições de suas empresas transnacionais. Esqueceu-se do socialismo comunitário”, assinala Óscar Soto.

A Democracia Cristã perdeu sua sensibilidade social e Salvador Allende, a vida. Poderia tê-la conservado? “Eu tinha preparado duas operações para que saísse vivo do Palácio La Moneda”, recorda Bartulín. “Tínhamos casas clandestinas para escondê-lo. Propus sua saída em uma pequena reunião. Ainda não haviam bombardeado. Falei com pessoas do Ministério de Obras Públicas, onde estavam os carros e havia um monte de gaps (Grupo de Amigos do Presidente). Eles disseram que podíamos sair quando quiséssemos porque ainda não havia toque de recolher e os carros podiam circular. Allende me disse: ‘Bem, mantenha a operação preparada’. Então, alguns disseram que não, que era preciso resistir até o final, até a morte. Eu dizia que era melhor um Allende vivo que morto, e que eu ficava. O plano era que três carros saíssem do La Moneda com Allende em um deles, sem que ninguém pudesse identificá-lo. Os que ficassem continuariam atirando para dissimular a saída de Allende. Se tivesse ficado vivo, poderia ter mudado a história”.

Mas a vontade de Allende e de seus leais sofreu uma baixa quando Augusto Olivares, diretor da televisão nacional, levou um tiro na têmpora. O abatimento no La Moneda contrastou com a satisfação dos chefes golpistas com o desenlace de seu bombardeio e assalto ao palácio presidencial. Carvajal informou a morte de Allende a Pinochet e Gustavo Leign, comandante da Força Aérea, nesta grotesca comunicação: “Há uma informação do pessoal da Escola da Infantaria que está dentro do La Moneda. Pela possibilidade de interferência, vou transmiti-la em inglês: ‘They said that Allende committed suicide and is dead now’. Digam-me se entenderam”. Pinochet: Entendido. Leigh: Entendido perfeitamente.

Seguem extratos de livros sobre o episódio.

“Desçam todos. Eu serei o último”

Bruscamente, a porta da Rua Morandé, 80 (do Palácio de La Moneda) é derrubada e cerca de 20 soldados invadem o vestíbulo. Estão armados com fuzis e são identificados pelo pano laranja no pescoço. Violentamente nos atacam nos lados do corpo e nos jogam um em cima do outro na vereda imediata à porta de Morandé. Do Ministério de Obras Públicas não param de atirar e nos encontramos em meio a um fogo cruzado, com sério perigo de sermos feridos. Um suboficial, que está com óculos e com a metade de um dos cristais quebrado, me pega com um braço e me levanta. “Quem é você?”, me pergunta. “Sou o doutor Óscar Soto”, respondo de imediato. “Doutor, suba ao segundo andar e diga aos seus companheiros que eles têm 10 minutos para se renderem e que desçam desarmados”.

Subo a escada e quando faltam aproximadamente 10 degraus vejo o presidente Allende rodeado por meus companheiros. Me vê aparecer e me diz: “Doutor, o que está acontecendo?”. Respondo: “Presidente, os militares já invadiram o primeiro andar e nos deram 10 minutos para descer”.

Durante um instante me olha profundamente de longe e sinto que será definitivo, que o final se aproxima. Ouço dizer: “Desçam todos. Deixem as armas e desçam. Eu serei o último”. Em fila, meus companheiros descem, eu continuo olhando para o presidente que anda em direção ao salão Independência. Ao atravessar a porta de Morandé, 80 sou levado, com as mãos na nuca, a me apoiar no sólido muro do palácio. Atrás de mim, alguém soluça. É Enrique Huerta, o intendente do palácio. “O que está acontecendo, Enrique?”, inquiro. “O presidente está morto”, me disse desolado. Entrou no salão Independência, sentou-se em uma cadeira grande de cor vermelha, e se suicidou. Estava sozinho. Nenhum militar tinha chegado ao segundo andar.

O doutor Rogelio de la Fuente Gaete, em seu livro Detrás da memória (México, 2008), resume com acerto a chamada batalha de La Moneda: “Politicamente, uma traição. Humanamente, um genocídio. Eticamente, uma ignomínia. Militarmente, uma inépcia”. [Extrato de Allende, na memória, de Óscar Soto (Ediciones Sílex), já à venda.]

“Missão cumprida. Presidente morto”

Os primeiros soldados entraram pela porta da rua Morandé e prenderam vários dos defensores, entre eles o médico Óscar Soto, a quem ordenaram que avisasse Allende e seus acompanhantes de que tinham 10 minutos para saírem desarmados. “Presidente, o primeiro andar está tomado pelos militares. Dizem que devem descer e se render”, lhe informou. “Allende pediu que nos entregássemos”, assinalou Patricio Arroyo. “Entendi claramente que isto valia para nós e não para ele. Não lembro se lhe disse ou não, mas todos entenderam a mesma coisa: ele não sairia vivo dali...”.

“Improvisou-se, com um avental de médico, uma bandeira branca; atada a um pano, foi levada pela porta da Rua Morandé, 80. O Palácio La Moneda estava rodeado por todos os lados. Os militares aceitaram a rendição e exigiram que descêssemos em fila e com as mãos na nuca”. Com o palácio semidestruído, em chamas e sem energia elétrica, Allende se despediu pessoalmente de cada um deles e atrás de Óscar Soto, começaram a sair. O presidente voltou ao salão Independência.

A única testemunha da sua morte é o doutor Patricio Guijón. Enquanto seus companheiros iam descendo na direção da porta da Rua Morandé, ocorreu a Guijón voltar para buscar sua máscara antigás para levá-la ao seu filho como recordação. “Em um determinado momento me encontro diante da porta situada nesse corredor, a que de modo geral se mantinha fechada, não obstante, nesta ocasião estava aberta e instintivamente olhei para dentro desta sala, observando que ao fundo dela, na muralha que dava para a Rua Morandé, a seis ou sete metros de distância, estava o presidente Allende, sentado em um sofá com uma metralhadora em suas mãos, instante em que ouvi e vi que disparou, saindo ejetada parte do seu crânio e massa encefálica, em direção do teto da sala e da parede posterior. Instintivamente me aproximei para ver como estava e tomei seu pulso. Não havia nada a fazer”. O doutor Patricio Guijón permaneceu ao lado do corpo inerte cerca de 10 ou 15 minutos, até que chegaram, primeiro, dois militares e, depois, o general Palacios, que comunicou aos seus superiores: “Missão cumprida. Moneda tomado. Presidente morto”. [Extrato de Allende, a biografia, de Mario Amorós (Ediciones B), que será publicado neste dia 11 de setembro.]

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