A dura vida do movimento Comunhão e Libertação (CL) sob Francisco

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26 Agosto 2013

No verão da desagregação institucional da Itália, o encontro de Comunhão e Libertação - CL- celebra o cansado ritual de sua parada Vip, em Rimini. Sempre do lado dos poderosos, sempre aplaudindo os senhores do vapor, os epígonos de dom Giussani não se dão conta que o clima, na Igreja católica, mudou radicalmente e que seu festival, que tradicionalmente é homogeneizador de interesses políticos, econômicos e religiosos, está inexoravelmente se afastando do binário sob o qual o Papa Francisco está colocando o catolicismo contemporâneo.

O comentário é de Marco Politi, jornalista, em artigo publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 23-08-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

O estilo de uma Igreja sóbria, limpa, não invasora, que caracteriza o pontificado de Bergoglio, se adapta mal à ideologia da “reconquista” católica na qual sempre se inspirou o movimento ciellino, enquanto, paralelamente, se agarrava ao berlusconismo oportunista. Comunhão e Libertação, como a conhecemos por décadas, está declinando por incompatibilidade ambiental com a virada do pós-Ratzinger e (no plano político) com o fim inglório do mito de Berlusconi, acariciado e proclamado por duas décadas pelos 'cielinos'. Uma platéia que digere submissa e sem protestos a comparação entre a impudente e maciça fraude fiscal dos Cavaliere e o processo a Jesus (copyright de Alfano), como pode crer-se em sintonia com o Papa que publicamente desmascarou os tráficos fronteiriços – bem mais reduzidos – de um monsenhor Scarano?

Um meeting, que põe à disposição o stand da revista cielina Tempi para atiçar à tênue coleta conta a lei anti-homofobia, não tem muito a partilhar com um Pontífice que, diante de um gay em busca de Deus, exclama: “Quem sou eu para julgar”? Até mesmo no Corriere della Sera, por certo animado por furores anti-religiosos, Dario di Vicco colocou há alguns dias, aos dirigentes ciellinos, o incômodo quesito sobre o futuro do movimento. A Itália, escreveu, necessita de sujeitos que promovam a recuperação de valores: “Lobby, ao invés, já os há demasiados”.

Mas, CL finge não entender e Julian Carrom (o líder espanhol que Giussani escolheu como sucessor porque se dera conta que os candidatos italianos eram demasiado comprometidos) não teve até agora a coragem de iniciar um confronto aberto e transparente no movimento sobre os desvios negociais e politiqueiros, que, no entanto, havia começado a denunciar há um ano. Luigi Amicone continua na TV – para defender um berlusconismo em agressiva decomposição – agitando o espectro de uma magistratura italiana insolente contra a política e a democracia. Coisa de que ninguém na Europa e no Ocidente se deu conta. O ministro cielino Mario Mauro avacalha Togliatti e o pós-guerra, e inventa anistia e indulto gerais para a pacificação tumular e a salvação do Cav. Roberto Formigoni, aquele que se fez pagar as férias dos lobbistas e jamais deu provas de tê-los reembolsado, pôde agredir livremente a imprensa e anunciar que “o Papa (Bento XVI) me disse que reza todo dia por mim”, sem que uma única vez das fileiras de CL levasse, em seus confrontos, uma admoestação crítica.

Onde depois é dito que a atual exclusão da lista dos oradores deste ano, com a desculpa que não é mais governador da Lombardia, é tão patética que Formigoni tem quase o direito de indignar-se. Renato Farina, riscado da Ordem dos jornalistas porque colaborador dos serviços secretos (condenação depois anulada pela Cassação, não porque a indignidade deontológica não fosse fundada, mas porque espertamente Farina se havia riscado das listas da Ordem antes da sentença dos seus colegas) continuou a ser exibido ao Encontro como mestre a ser pensado.

Quando se fizer a história do último conclave, se descobrirá quão enorme tenha sido o dano que a armada cielina provocou à candidatura do cardeal Scola, de quem – qualquer que fosse sua visão dos problemas eclesiais – não se pode dizer que não tivesse (e não tenha) uma estatura de relevo também como homem de cultura e como interlocutor do Islã e das religiões orientais. Bastaram, em março passado, poucas elucidações de cardeais alemães e franceses (e também italianos) sobre Comunhão e Libertação e as cielinas “mãos na pasta” na Itália berlusconiana para descarregar no nome do arcebispo de Milão um lastro irremovível.

Diversamente do Opus Dei, que se inseriu bem no processo de reforma da Cúria e de suas estruturas econômicas realizadas pelo Papa Francisco, o movimento cielino está flutuando à deriva num espaço de ninguém. Uma deriva que golpeia também tantos adeptos, individualmente e sinceramente interessados pelo “fato cristão” e não pelo lobbismo político-econômico. Estranhamente as altas esferas cielinas não escutaram a campainha de alarme que começara a soar há um ano. Quando Bento XVI – contrariamente às manobras dos dirigentes do Encontro e do cardeal Bertone – recusou explicitamente vir a Rímini. O carteiro, na História, jamais toca a campainha duas vezes.

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