Francisco e a dignidade de todas as criaturas

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Por: Jonas | 10 Agosto 2013

“Sua visão, sua linguagem, seus braços, suas palavras transpiram proximidade, luz, esperança, sonho, ternura, muito amor e, também, realismo, audácia renovadora e profética, estímulo para sair da rotina, do obsoleto, do burocrático e organizativo e saltar ao urgente e essencial do humanamente descuidado, maltratado e ferido”, escreve o teólogo espanhol Benjamín Forcano a respeito das características do papa Francisco (foto), em artigo publicado no sítio Religión Digital, 08-08-2013. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/LGrqiy  

Eis o artigo.

Escrevo ao som daquilo que o papa Francisco nos veio transmitindo nos apertados dias de sua viagem ao Brasil. Faço isso após entrar na leitura de seus mais de 20 discursos em lugares e públicos muito significativos, deliberadamente escolhidos. Emocionado, vi que este Francisco, pouco amigo de discursos formais, chega a todos com uma atitude natural, de simplicidade e ternura, que bem poderia ser a humaníssima do poverello de Assis.

São muitas as questões que Francisco toca, mas em todas parece acompanhá-lo um mesmo acento, todas são unidas por um fundamento, que alcança e une todos, sem ofender, sem indício algum de pressão ou domínio, convidando a descobrir e juntar em um todo o mais valioso de todos. Sua visão, sua linguagem, seus braços, suas palavras transpiram proximidade, luz, esperança, sonho, ternura, muito amor e, também, realismo, audácia renovadora e profética, estímulo para sair da rotina, do obsoleto, do burocrático e organizativo e saltar ao urgente e essencial do humanamente descuidado, maltratado e ferido.

Não é difícil catalogar o mosaico de suas intervenções. Porém, quero começar sublinhando duas apreciações que me parecem subjacentes a todas as demais.

1. O papa Francisco e a dignidade universal de todas as criaturas

Francisco não é um ser humano isolado, um católico fechado e proselitista. Sua visão não se apequena ao contemplar o mundo, pois procura ser a mesma daquele que criou TUDO, sem menosprezar, nem excluir ninguém. Tenho a impressão de que, ao seu lado, estamos alcançando um ponto alto na consciência de que todos no cosmos formamos um todo, dentro do qual somos singulares, necessários e interdependentes. Ninguém pode dominar ninguém, nem ninguém pode se sentir excluído por ninguém. Entre os humanos, a única soberania é a do amor, que converte o primeiro em último e o senhor em servidor.

Viemos da história, de uma história carregada de dualismos e hostilidades, de contraposições e exclusões, de dominação e escravidão, que nos impediu de escutar e gozar o concerto de todas as criaturas, sua dignidade e seu canto, em especial daquela que sendo terra (húmus = homem) como todas as demais, em sua evolução conseguiu a conquista do pensamento, da responsabilidade, do amor e da liberdade.

A criação inteira geme nesse caminhar de séculos que acumula avanços, conquistas e êxitos incontáveis e, ao mesmo tempo, sofrimentos dilacerantes, choques de ódio, destruição e morte. Não tínhamos aprendido a viver todos com todos, mas concebíamos erigir e enaltecer a vida de uns a custa da humilhação e sofrimento de outros. Éramos cegos, que nos fechávamos em nosso eu (individual, nacional, racial, religioso, político...), privados de luz para ver, entender e nos unir na dignidade e canto de todos. Essa dignidade e esse canto, tantas vezes dilacerados e silenciados, é o que Francisco quer decifrar, respeitar, admirar e cuidar. Cada parte nossa é do todo e o todo é parte nossa. A dignidade é comum e o canto é polifônico, e apenas a partir de uma postura aberta e reverencial nos será dado a descobrir a beleza de cada um no todo e do todo em cada um.

Não são todos que caminham dentro da Igreja católica, mas todos são do Senhor, e o Senhor é o Alfa e o Ômega, o Início e o Fim, e nele toda vida recebe consistência. A unidade, a relação respeitosa e solidária, a cooperação e a harmonia, o cuidado de uns com outros é o que enche de esplendor a criação e garante a afirmação e crescimento de cada um na comunhão com todos.

É surpreendente e delicioso comprovar os gestos cotidianos que confirmam este estilo de Francisco e também suas palavras:

“Estamos aqui para que louvem a Deus, não apenas alguns povos, mas todos... Tenham o valor de ir contra a corrente, de não renunciar a este dom: a única família de seus filhos. O encontro e a acolhida de todos, a solidariedade e a fraternidade, são os elementos que tornam nossa civilização verdadeiramente humana. Ser servidores da comunhão e do encontro. Não queremos ser presunçosos impondo “nossa verdade”. O que nos guia é a  certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo e não pode deixar de proclamá-la”. (Homilia na Catedral de São Sebastião, Rio de Janeiro, 27 de julho).

“É fundamental a contribuição das grandes tradições religiosas que desempenham um papel fecundo de fermento na vida social e de animação da democracia. A convivência pacífica entre as diferentes religiões se vê beneficiada pela laicidade do Estado que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade, favorecendo suas expressões concretas. A única maneira de que a vida dos povos avance é a cultura do encontro, uma cultura em que todos têm algo bom para contribuir e, por outro lado, todos podem receber algo de bom. O outro sempre tem algo para me dar, quando sabemos nos aproximar dele com atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Somente assim pode prosperar um entendimento entre as culturas e as religiões, o apreço de umas pelas outras, sem opiniões prévias gratuitas e com o respeito dos direitos de cada uma” (Encontro com a classe dirigente. Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 27 de julho).

Cristo acolhe todo com os braços abertos. Ele percorre com sua cruz nossas ruas para carregar nossos medos, nossos problemas, nossos sofrimentos e se une ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem gritar, especialmente, dos inocentes e dos indefesos. Jesus se une a todas as pessoas que passam fome em um mundo que todos os dias joga toneladas de alimentos; se une a quem é perseguido por sua religião, por suas ideias ou simplesmente pela cor de sua pele, se une a tantos jovens que perderam sua confiança nas instituições políticas porque veem o egoísmo ou a corrupção, ou que perderam sua fé na Igreja, e inclusive em Deus, pela incoerência dos cristãos e dos ministros do Evangelho” (Via Sacra na praia de Copacabana, 26 de julho).

“A cultura brasileira recebeu muito da seiva do Evangelho e pode fecundar um futuro melhor para todos. Fazer crescer a humanização integral e a cultura do encontro e da relação é a maneira cristã de promover o bem comum, a alegria de viver. O cristianismo combina a transcendência e a Encarnação; revitaliza sempre o pensamento e a vida diante da frustração e do desencanto que invade o coração e que se propagam pelas ruas. O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que consiga cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evite o elitismo e erradique a pobreza. Que para ninguém falte o necessário, e que a todos seja assegurada a dignidade, fraternidade e solidariedade: este é o caminho a ser seguido” (Encontro com a classe dirigente. Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 27 de julho).

2. A liderança de Francisco emana do Evangelho. Aquele que dirige, que se iguale com aquele que serve

A partir de sua postura inter-relacionada, Francisco convida a todos, conta com todos, escuta, quer e respeita a todos, busca o bem para todos, principalmente para os mais necessitados e pobres, os mais abandonados e aqueles que mais sofrem, os jovens e os anciãos, e se abre ressonante aos dirigentes civis e eclesiais, ensina-lhes sua responsabilidade diante desta civilização rebaixada, as metas e valores principais de sua tarefa pública e pastoral, demonstra suas falhas e traições, sua necessidade de mudar, pois estamos numa “mudança de época”, e que muitos, por seu egoísmo e psicologia principesca, acomodaram-se e se desumanizaram e tornam estéril a busca pelo Bem Comum e o anúncio libertador do Evangelho.

Possivelmente, nunca como hoje nos é dado a entender aquelas palavras de Jesus, quando responde à disputa de seus discípulos em saber quem era o maior entre eles: “Os reis das nações têm poder sobre elas, e os que sobre elas exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas entre vocês não deverá ser assim. Pelo contrário, o maior entre vocês seja como o mais novo, e quem governa, seja como aquele que serve. Afinal, quem é maior: aquele que está sentado à mesa ou aquele que está servindo? Não é aquele que está sentado à mesa? Eu, porém, estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lucas 22, 24-27).

São palavras de ontem e de hoje. E gozam da máxima credibilidade. E são para nós, que decidimos segui-lo, apliquem-nas em sua vida. E, daí, vem a ruptura e o desencanto, o abandono e o virar as costas: não se cumprem, os seguidores não são críveis e tornam o Evangelho desacreditado.
    
Francisco, esse papa desconcertado, descuidado, fora dos protocolos, nada ritualista, livre de tantas cadeias postas ao sucessor de Pedro, declarou trabalhar com simplicidade, liberdade e coerência. E fez cacos da pompa, das liturgias solenes desvinculadas da vida, da justiça e do amor. Relativizou normas e mais normas que tergiversam, obscurecem e traem o Evangelho, normas secundárias, sacralizadas e que se esquecem de que “o sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado”, e que “justiça e misericórdia é o que eu quero e não o sacrifício”.

“Eu gostaria de fazer um convite aos que possuem mais recursos, aos poderes públicos e a todos os homens de boa vontade, comprometidos na justiça social: não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e solidário. Ninguém pode permanecer indiferente diante das desigualdades que ainda existem no mundo. Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que muitas vezes regula nossa sociedade, a que constrói e leva a um mundo mais habitável, mas a cultura da solidariedade; não ver no outro um competidor ou um número, mas um irmão” (25 de julho, na favela de Varginha, Rio de Janeiro).

“O dirigente sabe escolher a mais justa das opções, após tê-las considerado a partir de sua própria responsabilidade e o interesse pelo bem comum. Esta é a forma de ir ao centro dos males de uma sociedade e superá-los com a audácia de ações corajosas e livres. Quem atua responsavelmente, coloca a própria atividade diante dos direitos dos demais, e diante do juízo de Deus. Este sentido ético aparece, hoje, como um desafio histórico sem precedentes, além da racionalidade e técnica, na situação atual, impõe-se a vinculação moral com uma responsabilidade social e profundamente solidária”. (Encontro com a classe dirigente, Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 27 de julho).

São muitas as coisas que nos restam para comentar. E faremos isto. Porém, salta aos olhos que este modo de olhar o mundo, tão radicalmente humano e universal, não é o mesmo do neoliberalismo cínico atual, nem o de muitas políticas vigentes, nem o das empresas multinacionais.

O bispo de Roma destripa a banalidade daqueles que querem reduzir o ser humano a escravo, robô de consumo ou mercadoria de troca. O mais óbvio é negado, ainda hoje, por uma política imperial ou colonizadora, que não se importa com a dignidade humana e seus direitos inalienáveis.

Porém, a natureza é a natureza e a liderança do dinheiro, do poder, do prazer ou do êxito, com todos os seus ramos de promessas e ofertas não realizam o homem, não saciam seus anseios, prostituem o mesmo e não podem recompor sua dignidade e libertação. Economia ou políticas não sujeitas ao bem e ao serviço de todos, tornam-se instrumentos de exploração e de domínio nas mãos de algumas minorias desumanizadoras e que desumanizam. O papa Francisco, vestido de sandálias e com a mochila do Evangelho, cheia de justiça, de solidariedade, de ternura e libertação, acende e propaga um fogo que torrará a mentira dos ídolos de uma sociedade desigual, soberba e bruta, e a reconstruirá sobre a soberania da igualdade, da justiça, da solidariedade, da liberdade e da paz. Vem e está para servir, não para tiranizar.

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