"A eminente dignidade dos pobres na Igreja". Entrevista especial com José Ignacio González Faus

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16 Junho 2013

"A América Latina pode ser considerada um filão para o cristianismo do futuro, mas vejo pelo menos duas grandes ameaças: o documento vaticano contra a Teologia da Libertação e o problema do celibato", constata teólogo.

Na concepção do teólogo espanhol José Ignacio González Faus, o capitalismo é um sistema fundado sobre a busca do máximo benefício e para o qual a propriedade privada é um direito primário e absoluto; “enquanto que, para o cristianismo, a propriedade privada é um direito secundário e relativo que só tem vigência na medida em que ajuda a cumprir outro direito mais primário: que os bens da terra são para todos os homens. O que ocorre é que o capitalismo se torna incrivelmente sedutor porque, desde sua aceitação de que o fim econômico justifica todos os meios, por mais desumanos que sejam, acaba como um sistema de uma eficácia deslumbrante. Só que eficácia para poucos, cada vez menos”.

Do alto da bagagem que seus quase 80 anos lhe permitem ostentar, González Faus concedeu a entrevista a seguir para a IHU On-Line, por e-mail, onde defende que “amar a uma pessoa é sempre desejar-lhe o bem” e que a união com essa pessoa “seja um bem para ela, e não somente para mim. Que é algo no qual a banalização egoísta que hoje fazemos do amor, quase nunca pensa”.

José Ignacio González Faus, jesuíta, é doutor em Teologia, foi professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia de Barcelona e na UCA de San Salvador. Lecionou como professor convidado em vários países da América Latina. Atualmente é responsável acadêmico do Centro de Estudos “Cristianismo e Justiça”, da Espanha. Colabora habitualmente no jornal La Vanguardia. Entre as suas obras, citamos Acesso a Jesus: ensaio de teologia narrativa (São Paulo: Loyola, 1981).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor avalia os primeiros meses do  ministério do Papa Francisco? 

José Ignacio González Faus – Os gestos até agora foram muito significativos e valiosos. Mas fica a tarefa de converter os símbolos em realidades concretas (Igreja dos pobres, reforma do papado, etc.). Não sei se nesse aspecto conseguiremos progredir, porque as resistências serão muitas (e suponho que as maiores venham das pessoas que mais ofertam dinheiro ao Vaticano...). Pessoalmente, ele tem me feito sorrir nas vezes em que as frases que antes eu dizia e fazia com que os bispos me olhassem feio, agora aparecem nos lábios do papa ... Creio que já não há como voltar atrás.

IHU On-Line – Quais as principais dificuldades que Francisco terá pela frente?

José Ignacio González Faus – Supõe-se que venham, sobretudo, de resistências da Cúria (que já impediu Paulo VI de reformá-la). Mas creio que também será preciso contar com a resistência de boa parte do povo cristão, que defende até hoje posições muito conservadoras e que, consciente ou inconscientemente, lhe colocam “paus nas rodas” . (Agora mesmo recebi um e-mail com um texto em que se falava deste papa com algumas palavras pouco felizes de Paulo VI: “a fumaça de Satanás está entrando na Igreja”...)

IHU On-Line – Como o senhor descreve o coração de sua fé pessoal?

José Ignacio González Faus – Creio que minha fé se constitui como uma posição de confiança total em Jesus, em dois pontos principalmente: de que posso confiar plenamente no Mistério Absoluto que está por trás de tudo, porque é um Mistério amoroso e acolhedor ao qual posso chamar Pai (ou Mãe). E que, ainda que esse Mistério não necessite nada de mim, nem meu amor lhe ofereça nada, há algo que posso lhe dar e que ele espera de mim: o amor a todos os seres humanos que Deus ama. Substancialmente, creio que minha fé cabe em duas expressões: “filiação divina” (com tudo o que isso implica de liberdade e dignidade) e “fraternidade universal”. A primeira, além de meus limites “criaturais”; a segunda, além de meus limites individuais ou grupais.

IHU On-Line – Em que medida capitalismo e fé cristã são incompatíveis?

José Ignacio González Faus – Há muitos anos, em uma carta a Roger Garaudy, Dom Hélder Câmara dizia que eram incompatíveis porque o capitalismo é intrinsecamente perverso. Eu tive um professor de moral (bastante rígido, entre outras coisas) que nos dizia que, além do fato de ele ser intrinsecamente mau ou não, o indubitável é que o capitalismo é uma “ocasião próxima do pecado”. E segundo a moral clássica, há a grave obrigação de fugir dessas ocasiões próximas. De maneira mais simples, o capitalismo é um sistema fundado sobre a busca do máximo benefício e para o qual a propriedade privada é um direito primário e absoluto; enquanto que, para o cristianismo, a propriedade privada é um direito secundário e relativo que só tem vigência na medida em que ajuda a cumprir outro direito mais primário: que os bens da terra são para todos os homens. O que ocorre é que o capitalismo se torna incrivelmente sedutor porque, desde sua aceitação de que o fim econômico justifica todos os meios, por mais desumanos que sejam, acaba como um sistema de uma eficácia deslumbrante. Só que eficácia para poucos, cada vez menos.

E além do aspecto especificamente cristão, J.M. Keynes, economista conservador, porém astuto e honrado, em sua obra clássica (Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro), reconhece expressamente que o capitalismo é absolutamente incapaz de duas coisas: de conseguir o pleno emprego e de diminuir as diferenças entre as pessoas. Pergunto-me se pode chamar-se justo um sistema incapaz de satisfazer dois direitos tão elementares. O que ocorreu é que, enquanto existiu a ameaça comunista, o capitalismo se disfarçou como o lobo da história do “Chapeuzinho Vermelho” e cedeu para aceitar a social-democracia. Ao passar o perigo comunista, o capitalismo deixou cair sua máscara. Hoje vemos o que ele é e vamos vendo que as antigas social-democracias já não são mais possíveis. Daí a crise de muitas esquerdas.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a situação do cristianismo no Ocidente atualmente? Qual o papel do Papa Francisco nesse cenário?

José Ignacio González Faus – O Ocidente é hoje uma palavra muito ambígua, visto que Ocidente é Europa, Ocidente são os Estados Unidos e Ocidente é a América Latina. Eu temo que hoje a Europa esteja renegando não somente suas raízes cristãs como também suas raízes gregas (nem Jerusalém, nem Atenas, para dizê-lo com a expressão clássica de Habermas).

Nós, os cristãos, devemos reconhecer que boa parte da culpa nesse “divórcio” se deve, nestes dois últimos séculos, à nossa Igreja e, sobretudo, à Cúria Romana, da qual se diz que criou mais ateus que Marx e Nietzsche juntos. Nos Estados Unidos domina a religião do dólar (“in Gold we trust”, como parafraseia Dussel) e, portanto, poderá ser um país muito “religioso” (talvez seja melhor dizer supersticioso), mas o especificamente cristão sempre haverá de ser ali minoritário e contracultural, além de mal visto. No Centro “Cristianismo e Justiça” de Barcelona publicamos um caderno (creio que muito bom) intitulado “O Deus de Bush” (n. 126) e a ele me remeto.

A América Latina pode ser considerada um filão para o cristianismo do futuro, mas vejo pelo menos duas grandes ameaças: o documento vaticano contra a Teologia da Libertação abriu a porta para uma religiosidade espiritualista, que está sendo “pasto” de todas as seitas do Norte. E o problema do celibato tem separado muito os fiéis dos padres (o que não acontecia) abrindo também caminho para as seitas. Mas acredito que vocês sabem muito mais disso do que eu. O que me atrevo a dizer é que, em minha humilde opinião, João Paulo II causou um grande dano à América Latina em função dos bispos que nomeou, sobretudo no caso do Brasil. O papel de nosso irmão Francisco neste cenário, oxalá, seja manter na América Latina a intensidade espiritual, a esperança moderada e a tese do bispo Bossuet  sobre “a eminente dignidade dos pobres na Igreja” (um texto que todo cristão deveria conhecer, praticamente de memória).

IHU On-Line – O que o senhor entende por “uma civilização da sobriedade compartilhada” (recordando Ellacuría que falava de uma civilização da pobreza) e em que sentido ela pode ser considerada como a única oferta de vida que permanece para o nosso mundo?

José Ignacio González Faus – Na fórmula de Ellacuría a palavra pobreza pode assustar porque a identificamos, às vezes, com miséria. E não era essa a sua intenção. Sobriedade quer dizer que quando tens o que moderadamente necessitas, o que excede não deve ser olhado como teu, mas daqueles que não têm; por isso os Padres da Igreja (na estrutura social de então) se cansaram de dizer que quando tu dás esmola a um pobre tu não fazes um ato de caridade, mas de justiça: porque não estás dando-lhe do que é teu, mas devolvendo-lhe o que é dele. E Gandhi completa: a terra produz para satisfazer as necessidades de todos, mas não pode satisfazer os caprichos de alguns poucos. Nós temos construído uma civilização do luxo e do capricho e assim sobrecarregaremos o planeta.

IHU On-Line – Qual a importância para a Igreja hoje de refletir sobre a presença e o papel do diabo nas Escrituras? O que pode ser entendido, segundo a linguagem bíblica, quando se fala do Inimigo (Satanás) ou do Separador (Diabo)?

José Ignacio González Faus – Na Bíblia há uma coisa fundamental que nosso mundo não costuma aceitar: a incrível quantidade de maldade que cabe no ser humano. Também de bondade, evidentemente: o homem é capaz do melhor e do pior; mas agora falamos do mal: pensemos nos torturadores argentinos, naquelas meninas norte-americanas sequestradas e violadas durante anos, em nossa incrível indiferença diante da fome no mundo... Isso convence à Bíblia de que o mal é de alguma maneira “transcendente” ao homem, superior ao homem. Vem daí a expressão do Novo Testamento: “mistério da iniquidade”.

No geral, a cultura moderna não aceita esse mistério nem nossa incrível capacidade de praticar o mal. Assim, quando nos deparamos com o escândalo da maldade, cremos que ele está somente nos outros, por serem diferentes de mim, e aí surgem as tentações de aniquilar o diferente, tão típicas de hoje. Ora, se esse mistério da iniquidade se concretiza em um ser pessoal concreto (anjo caído ou como queiramos imaginá-lo), não está claro se isso faz parte da mensagem bíblica ou da cultura ambiental na qual se expressa essa mensagem. Ratzinger disse muitas vezes que toda religiosidade se dá no seio de uma cultura, com a qual não se identifica, mas da qual é inseparável. O tema de Satanás (ou do demônio) estaria, para mim, justamente aí: não sei se existe, mas a mensagem cristã me diz que, se existe, “está vencido”.

IHU On-Line – Qual a importância do Concílio Vaticano II em relação à questão de que o mal já foi vencido?

José Ignacio González Faus – Entre outras, que essa vitória sobre o mal deve ser realizada por cada um de nós, em nossas vidas, mas não somente no nível pessoal, como também nos níveis sociais e históricos. Sem que isso signifique um poder da Igreja sobre o mundo, mas sim uma colaboração para construir um mundo cada vez menos cruel e mais plenamente humano.

Por Graziela Wolfart

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